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Como o TradeMap pretende virar uma “fábrica de 30 milhões investidores” para o mercado

O aplicativo se tornou o maior hub de investidores do mercado financeiro, conseguiu juntar competidores no mesmo ambiente e agora pretende fazer do investimento um estilo de vida. Entenda a estratégia para trazer milhões de usuários

 

Na disputa das plataformas, bancos e corretoras por clientes, uma briga que virou quase um jogo de rouba-monte, quem interage diretamente com os investidores pessoa física é rei. Afinal, a busca pela abertura de contas se tornou uma obsessão para as empresas do mercado financeiro. Pois quem tem tirado proveito dessa “corrida ao ouro” é o aplicativo TradeMap, da companhia de tecnologia Valemobi, que está “juntando” os rivais em um único ambiente.

Lançado em novembro de 2018, o app acabou se consolidando como um dos maiores hubs de investidores do País ao oferecer módulos como ações, consolidador de carteira, fundos, renda fixa e notícias. São 3,4 milhões de usuários cadastrados, 400 mil visitantes únicos por dia e 800 mil que acessam o app pelo menos uma vez por mês. Trata-se, de fato, de um “tiro de canhão”. Mas não é isso o que tem atraído o interesse de companhias como XP, BTG, Toro, Guide, Avenue, entre outras.

“Temos 600 mil usuários que são pré-investidores, com potencial de abrir conta numa corretora e investir em ações”, diz Gustavo Reis, sócio-diretor responsável pelo TradeMap, ao NeoFeed. E a empresa se prepara para lançar uma série de produtos para alavancar o número de usuários totais, tanto investidores como pré-investidores, e monetizar, cada vez mais, com a sua base.

“Nossa meta é chegar a 30 milhões de usuários até 2025”, afirma Reis. E prossegue. “Seremos a maior fábrica de investidores para esse mercado.” Não é uma tarefa fácil, mas ele explica que pretende difundir um conceito batizado pela empresa de “TradeMap as a lifestyle”. “Antes você falava de novela, aí veio Netflix e começou-se a falar de séries e filmes, futebol sempre foi assunto, agora vamos falar de investimentos.”

No segundo semestre, todos os produtos da empresa serão voltados para a socialização do conceito de investir. Recentemente, a companhia pôs no ar uma liga de investidores, na linha do Cartola FC, da Globo. Mas, em vez de competir para ver quem mais acerta no futebol, o que vale são os acertos e os ganhos no mercado financeiro. “A ideia é fazer do investimento um estilo de vida e incentivar que amigos compartilhem.”

Outro produto que está no forno é um programa de fidelidade. A jornada dos usuários será mapeada e cada etapa cumprida vai render pontos que poderão ser trocados por cursos, assinaturas de casas de análise e até de serviços de streaming. “Se o usuário abrir uma conta, montar uma carteira e se trouxer outros usuários, ganhará pontos”, afirma Reis.

A socialização é um caminho natural para o app que cresceu com a ajuda de muitos influenciadores nas redes sociais. O primeiro deles foi Lucas Pit, mais conhecido como Lucas Pit Money. No início do TradeMap, quando contava apenas 100 usuários, Pit Money conheceu o app e fez um vídeo espontâneo elogiando o produto. Ninguém do TradeMap sabia do vídeo. Logo em seguida, milhares de pessoas começaram a se cadastrar e os sócios acharam que se tratava de uma invasão.

Foi ali que perceberam a força dos influenciadores e fizeram parcerias com vários deles como Gustavo Cerbasi, Nathalia Arcuri, Favelado Investidor, entre outros. Pit Money, que hoje conta com 360 mil seguidores no YouTube e quase 230 mil no Instagram, usa muito a plataforma. “Consigo consolidar a minha carteira, eles têm análises fundamentalistas das empresas. Antes, era preciso entrar em cada RI de cada empresa para ter as informações”, diz Pit Money ao NeoFeed.

Além de usuário, Pit Money também se tornou parceiro de negócios. Ele tem uma casa de análise chamada Inside Research e milhares de assinantes vieram do TradeMap. “Eles são uma alavanca para os negócios”, diz ele. “E é uma relação de mão dupla. Conversamos muito e um dá ideia para o outro”, afirma.

Atualmente, o TradeMap conta com 85% dos CPFs cadastrados na B3. E vem crescendo exponencialmente. Em janeiro de 2020, com pouco mais de um ano de vida, tinha 1 milhão de usuários. Em dezembro do ano passado, anotou 2 milhões e só no primeiro semestre deste ano adicionou mais 1,4 milhão. “Em dezembro, teremos 4 milhões de usuários”, diz Reis.

Os números devem fazer saltar o faturamento do grupo. Se, no ano passado, a Valemobi faturou R$ 50 milhões, até o fim do ano serão R$ 100 milhões. E boa parte se deve a força do TradeMap como formador de opinião junto a esse exército de usuários. Ali, são vendidos cursos de influenciadores e até MBA da Empiricus, por exemplo. A plataforma também vende assinaturas para os usuários.

O plano pro custa R$ 350 por mês e dá direito a notícias exclusivas, relatórios de casas de análise, análises fundamentalistas, entre outros serviços. Já o plano prime custa R$ 65 por mês e inclui combos e mais uma casa de research. Hoje, são 50 mil assinantes diretos. Mas a maior parte dos assinantes, mais de 150 mil, é indireta. Ou seja, vem de parcerias com corretoras e casas de análise.

“Essa é a nossa grande avenida de crescimento”, diz Reis. Em uma parceria com a Toro, por exemplo, os usuários que abriam suas contas na corretora ganhavam o TradeMap Pro por três meses. Em outros casos, corretoras bancam cursos de investimento. “Mais de 120 mil usuários fizeram cursos oferecidos no Trademap”, diz Reis.

De acordo com o sócio do TradeMap, o app também ganha um fee sobre a abertura de conta ou ativação em cada corretora. “Temos informações que entre 30% e 40% dos clientes de muitas corretoras vieram e têm vindo TradeMap. Há casas de análise em que 80% dos assinantes vieram do TradeMap. Nos cursos dos influenciadores, viramos a principal plataforma de aquisição.”, diz ele. “A nossa meta é fazer com que 50% dos negócios dos parceiros sejam gerados aqui.”

São 17 corretoras, entre elas XP, BTG, Órama, Guide, que estão com suas APIs integradas ao TradeMap e oito casas de análise como Eleven, Levante e Inside. “Nosso objetivo principal é engajamento para a plataforma. A monetização e as parcerias vêm de carona”, diz Reis.

Por conta disso, há pouco mais de um ano, o app criou um movimento para que os usuários pedissem que suas corretoras se integrassem ao TradeMap. Foi quase uma antecipação ao open banking. “Faltava para o usuário mandar uma ordem de compra e ter a carteira em tempo real no TradeMap.”

Além das maiores e mais tradicionais, até corretoras de criptomoedas como Binance e Bitcointoyou entraram nessa leva. Outras voltadas para investimentos internacionais como Avenue e Passfolio também se plugaram. Isso permitiu com que os usuários pudessem investir e fazer todas as operações só interagindo no TradeMap. “É um one-stop shop”, diz Reis.

Roberto Lee, CEO e fundador da Avenue, diz ao NeoFeed que, de fato, traz um volume grande de investidores, mas com um perfil mais jovem. E ressalta que o Trademap é o único app com agregador de carteira que sua corretora está conectada. “A turma do Trademap entende muito de infraestrutura e segurança da informação é muito sensível. O Massud (Nelson Massud, fundador da Valemobi, a dona do TradeMap) conhece o mercado e isso nos dá mais conforto de nos conectar na plataforma deles”, diz Lee.

A Valemobi, criada em 2009, foi fundada por Nelson Massud, Rodrigo Freitas e Leonardo Magalhães. Os três, com vasta experiência em tecnologia e mercado financeiro, voltaram a companhia para a infraestrutura no mercado B2B. Empresas como Guide, Itaú Corretora, Bradesco Corretora, Santander e outras usam seus serviços.

O B2C, com a criação do TradeMap, veio para aproveitar a onda do crescimento do mercado de investimentos de pessoa física. E o salto da companhia é visível. A empresa começou o ano de 2020 com 80 funcionários, terminou com 150 e já está com 260 pessoas. Deste total, metade está no TradeMap, 80 na área de B2B e o restante é compartilhado.

Em 2019, consultoria Visagio comprou 3% do capital da empresa e, no ano passado, a gestora Dynamo adquiriu 10% da companhia. Junto com o investimento veio a necessidade de trazer tarimbados executivos para a operação. No início do ano, chegaram o CFO José Pacheco, que foi do Pátria, para cuidar da agenda de M&A; o COO Marcos Leite, que foi CFO da grife Reserva; e o CTO Sergio Cardoso, que foi da XP e da Toro.

Essas movimentações suscitam constantes conversas sobre uma possível abertura de capital. Reis diz que não está descartado, mas não para agora. Outros players do mercado, alguns concorrentes do TradeMap, estão fazendo esse movimento. É o caso do TradersClub, que vai abrir capital e deve levantar entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões, chegando a valer R$ 3,5 bilhões.

Indagado sobre a concorrência, o sócio do TradeMap diz que não há um único oponente. São vários. “O TradersClub é mais um concorrente na área de conteúdo de notícias. No módulo de carteira agregada, tem a Kinvo, a Real Valor, a Gorila. Em ações, competimos com a Economatica. E, na plataforma de educação, com a Hotmart”, afirma Reis. “Nos tornamos um marketplace financeiro.”

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