Negócios

800 empresas na conta: o monstruoso portfólio de investidas da chinesa Tencent

Mais conhecido por negócios próprios como o aplicativo WeChat, o grupo chinês está construindo, em paralelo, um portfólio de empresas que, desde setembro, viu sua avaliação saltar de US$ 138 bilhões para US$ 259 bilhões. O Nubank, no Brasil, é um desses ativos

 

A Tencent está avaliada em US$ 862 bilhões

Ao lado do Alibaba, a Tencent é um dos grandes símbolos do protagonismo que a China conquistou no mercado de tecnologia nos últimos anos. Boa parte desse status veio na esteira do WeChat, aplicativo de mensagens instantâneas que tem, em seu entorno, um amplo ecossistema de produtos e serviços.

À parte da ferramenta, que ajudou a consolidar o conceito de superapp, e de outros negócios criados internamente, não são poucos os recursos injetados pela gigante chinesa em outras operações.

E, com o impulso de digitalização na Covid-19, a Tencent assistiu a um crescimento exponencial no valor desses ativos, bem como ao avanço expressivo do seu braço de investimentos.

Alguns números dão a dimensão dessa trajetória. Segundo a consultoria americana Sanford C. Bernstein, o grupo chinês tem atualmente um portfólio avaliado em cerca de US$ 259 bilhões. No fim de setembro de 2020, esses ativos somavam US$ 138 bilhões, de acordo com a própria Tencent.

Na mesma toada, o valor de mercado da companhia, listada na bolsa de Hong Kong, saltou de US$ 479,4 bilhões, há um ano, para os atuais US$ 862 bilhões, à frente, inclusive do Alibaba, avaliado atualmente em US$ 641 bilhões.

Todas as negociações da Tencent nesse espaço são conduzidas por Martin Lau, presidente da holding de investimentos do grupo. Ex-banqueiro do Goldman Sachs, Lau afirmou, no início de 2020, que a Tencent já havia investido em mais de 800 empresas.

Segundo o portal americano PitchBook, que traz dados da indústria de venture capital e de private equity, a Tencent já fez 327 investimentos em startups, enquanto o seu braço corporativo de capital de risco realizou 439 acordos.

Esse pacote envolve negócios já mais consolidados, como a JD.Com, segundo maior nome do e-commerce chinês, depois do Alibaba; Activision Blizzard, de games; e Riot Games, estúdio responsável por franquias de sucesso como “League of Legends.”

A lista também inclui nomes como o aplicativo Snapchat e a plataforma online Reddit. Há espaço, inclusive, para empresas brasileiras, como o Nubank. Em  2018, a Tencent liderou uma rodada de US$ 200 milhões na companhia.

Segundo o portal americano PitchBook, a Tencent já fez 327 investimentos em startups, enquanto o seu braço corporativo de capital de risco realizou 439 acordos

Ao mesmo tempo, a Tencent olha para startups chinesas e internacionais em segmentos como redes sociais, entretenimento e veículos elétricos. Os acordos envolvem desde a compra de participações minoritárias até negócios nos quais os executivos da Tencent têm maior participação na condução das empresas.

Seja qual for o modelo, os ganhos são bem claros. “Uma vez que a Tencent investe em algo, é como um selo de aprovação no mercado chinês de tecnologia”, disse Dan Baker, analista da Morningstar, ao The Wall Street Journal (WSJ).

Nesse contexto, algumas empresas do portfólio da Tencent se beneficiaram do momento favorável no mercado de capitais para os ativos de tecnologia. No início de fevereiro, a Kuaishou, aplicativo de vídeos curtos rival semelhante ao também chinês TikTok, abriu capital na bolsa de Hong Kong.

Com o IPO, a empresa captou US$ 5,3 bilhões e o preço de suas ações mais do que dobrou no seu primeiro dia de negociações. Hoje, a empresa está avaliada em US$ 171 bilhões, com a participação da Tencent na operação estimada em cerca de US$ 30 bilhões, mais de 12 vezes o valor investido no ativo.

No mercado, a expectativa é de que outras empresas ligadas à Tencent acessem o mercado de capitais. Entre elas, a Didi Chuxing, a resposta chinesa ao Uber e que é dona, no Brasil, da 99.

À parte dessas possibilidades, o grupo vai construindo sua fama também como investidor. “Eu classifico a Tencent como o melhor fundo de capital de risco da China”, afirmou Robin Zhu, analista da Sanford C. Bernstein, em entrevista ao WSJ, sobre o grupo, conhecido por raramente perder investimentos em tendências e tecnologias emergentes.

Sócia-fundadora da NewQuest Capital Partners, Min Lin, também ressaltou, no entanto, que a Tencent tem um horizonte mais longo de investimentos do que um típico fundo de capital de risco. E apontou outras características da abordagem da companhia chinesa.

“O time de investimentos da Tencent mantém um perfil discreto”, observou. “No entanto, todos sabem que eles são o gorila de mais de 300 kg na sala”, afirmou, acrescentando que o ecossistema da Tencent é um dos grandes apelos para atrair as startups.

Apesar desse cenário favorável, a Tencent tem no radar alguns desafios, em especial, no campo regulatório. A empresa vem sendo investigada por autoridades chinesas, sob acusações de comportamento anticompetitivo, muito em função das operações do WeChat.

Uma das empresas por trás de ações em curso no país contra o grupo é a ByteDance, dona do TikTok. Recentemente, a companhia entrou com um processo contra a Tencent, com a alegação de monopólio do WeChat.

Zuckerberg chinês

A Tencent foi fundada em 1998, por Ma Huateng, também conhecido como “Pony” Ma ou o “Zuckerberg chinês”. Hoje, o empreendedor tem uma fortuna estimada em US$ 68,8 bilhões e ocupa a 15ª posição do ranking de bilionários da Bloomberg, à frente de Jack Ma, fundador do Alibaba, que está na 26ª colocação, com um patrimônio de US$ 51 bilhões.

Formado em Ciências da Computação pela Universidade de Shenzen, Ma fundou a Tencent ao lado de quatro colegas. A inspiração veio de uma palestra que ele assistiu dos criadores do ICQ, software de comunicação instantânea que dominou os primórdios da internet, na década de 1990.

Fundador da Tencent, Ma Huateng tem uma fortuna estimada em US$ 68,8 bilhões

Da mesma forma, o ICQ foi a inspiração para o primeiro produto da Tencent, o QICQ, que custou à empresa um processo movido pela AOL, dona do ICQ, no ano 2000, e foi rebatizado, posteriormente, como QQ.

A abordagem também ilustra a estratégia que fez da Tencent uma gigante. A empresa foi construindo seu portfólio com serviços similares às ofertas de grandes empresas de tecnologia estrangeiras, adaptadas ao mercado local.

Essa orientação foi beneficiada pela proteção da internet chinesa, a cargo do governo local, que, até hoje, dificulta a entrada de rivais de fora do país da Grande Muralha.

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