A “moda” agora é startup comprar startup. Que o diga a Betterfly

A insurtech chilena Betterfly faz cinco aquisições de startups de uma vez. Entre elas, a fintech brasileira Xerpa, que tem uma solução de salário sob demanda, consolidando uma tendência de M&A em 2021

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Eduardo della Maggiora (à esq.), fundador da Betterfly, e Leonardo Lima, responsável pela operação brasileira

Em um movimento que se configura cada vez mais como uma tendência, startups estão comprando startups, em vez de serem vendidas exclusivamente para alguma grande corporação – como era praxe há pouco tempo. O mais recente negócio nessa área acaba de ser anunciado.

A insurtech chilena Betterfly, que recebeu um aporte de US$ 60 milhões de investidores como os sócios do DST Global, QED Investors, Softbank Latin America, Valor Capital e Endeavor Catalyst, acaba de comprar a brasileira Xerpa, uma fintech que oferece antecipação de salário.

“A Xerpa se encaixa na nossa estratégia de construir uma plataforma que inclui seguro de vida e proteção financeira e mental”, afirma Leonardo Lima, responsável pela operação brasileira da Betterfly, ao NeoFeed.

O negócio, que não teve o valor divulgado, é um dos cinco que a Betterfly está anunciando nesta quarta-feira, 22 de setembro. Além da Xerpa, a insurtech está adquirindo cinco startups que compõem o grupo chileno Kunder, que desenvolve software financeiros.

A Betterfly, fundada pelo chileno Eduardo della Maggiora, está comprando a heypay!, que desenvolve soluções digitais para aqueles que estão fora do sistema financeiro; a Nesto, que oferece salário sob demanda, como a Xerpa; a Numi, de cartões digitais sociais; e uma fatia da Racional, que permite investimentos de maneira simplificada, como a compra de ações.

Com a compra da Xerpa, a Betterfly adquire uma fintech que conta com um serviço de salário sob demanda. Para antecipar parte dos vencimentos aos funcionários de empresas clientes, a startup cobra uma taxa fixa, que pode chegar ao máximo de R$ 9 sob cada transação efetuada.

Até agora, a Xerpa oferece esse serviço para 60 mil funcionários de 45 empresas. Entre elas, estão nomes como Ambev, RiHappy e Nivea, segundo a fintech.

“Entendemos que íamos ganhar escala de distribuição e trazer mais valor para a empresa com a venda do que se ficássemos sozinhos”, diz João Figueira, COO da Xerpa, que tinha em sua base de acionistas investidores como Kaskek, Redpoint eventures, QED e Vostok. Questionado se a transação envolvia dinheiro e troca de ações, Figueira não comentou.

O produto da Xerpa, que é batizado de Xerpay, vai se plugar à plataforma da Betterfly, quando a insurtech chilena começar a operar no Brasil – a data de estreia no País ainda não foi definida. Hoje conta com oito funcionários por aqui e tem 50 vagas abertas, sem incluir os 70 funcionários da Xerpa.

No Brasil, a companhia está fechando parcerias para começar a operar. O mais importante acordo foi anunciado no começo de setembro com a seguradora brasileira Icatu, que será a responsável pelo seguro de vida que vai ser oferecido pela Betterfly em uma parceria co-branded.

No Chile, no entanto, a Betterfly conta com 1,5 mil empresas que usam sua plataforma e pagam uma mensalidade que começa a partir de US$ 4 por funcionário. No total, são quase 1 milhão de profissionais beneficiados. O leque de clientes inclui desde pequenas até grandes empresas, como o banco Santander.

A Betterfly se define como uma plataforma de benefícios que oferece um seguro de vida cujo valor aumenta à medida que o usuário caminha, corre ou medita. . Com o pagamento da mensalidade, os funcionários têm acesso a um seguro de vida e a diversos aplicativos de saúde e bem-estar.

À medida que os funcionários caminham, correm, meditem ou fazem cursos, eles vão acumulando pontos (chamados de Better Coins), o que faz aumentar o valor do seguro de vida – segundo a empresa, eles começam em US$ 8 mil no Chile. Ao mesmo tempo, parte desses pontos são convertidos em doações para organizações não-governamentais com as quais a Betterfly tem parceria.

 A vez das startups

Neste ano, a compra de startups por startups  ficou comum. De acordo com dados do Distrito, um ecossistema independente de startups, 54,1% dos M&A até agora em 2021 foram protagonizados por startups, que passaram a expandir seu mercado de atuação e a incorporar novas soluções e serviços em seus portfólios.

“Essa é uma tendência que vai crescer bastante”, diz um executivo de um banco de investimento, que tem assessorado alguns M&As nessa área. “Além de complementar a oferta de produtos e acelerar a entrada em novos segmentos, as startups estão em busca de talento, que é bem raro no mercado atualmente.”

Em 2020, até então o ano com maior registro de M&As envolvendo startups, foram 168 transações. No primeiro semestre de 2021, foram 113 fusões e aquisições, sendo que 61 transações de M&As tiveram startups como compradoras. “Esse é um movimento inédito e pouco visto em outras economias emergentes”, diz um trecho de um relatório do Distrito sob o tema.

Um exemplo recente foi a compra da Devi Tecnologia pela Omie, um negócio anunciado em setembro, que fez a startup, dona de um sistema de gestão na nuvem, entrar na área de varejo. Marcelo Lombardo, CEO da Omie, na ocasião, disse ao NeoFeed que já mira pelo menos mais dois negócios até o fim deste mês.

Outro movimento semelhante foi a aquisição da Volanty pela Creditas, divulgada com exclusividade pelo NeoFeed. Nesse caso, a fintech fundada pelo espanhol Sergio Furio acelerou a sua entrada no segmento de compra e venda de carros usados com a transação.

O QuintoAndar, por exemplo, comprou, em agosto, a Atta, uma startup de crédito imobiliário que contava com mais de 200 mil clientes ativos. E a Loft, em julho, adquiriu a CredPago, que atua na área de aluguéis sem fiança.

Em comum em todos esses negócios estão startups altamente capitalizadas. A Omie, por exemplo, recebeu um aporte de R$ 580 milhões liderado pelo Softbank. A Creditas havia recebido um cheque de US$ 255 milhões, em dezembro do ano passado, quando se tornou um unicórnio.

A Loft, por sua vez, estava altamente capitalizada por uma captação que somou US$ 525 milhões no começo deste ano. E o QuintoAndar, avaliado em US$ 4 bilhões, também estava com os cofres cheios depois de aporte de US$ 300 milhões, em maio deste ano.

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