Com o aval para a fusão com a Localiza, quem vai comprar os carros da Unidas?

O tão aguardado sinal verde do Cade para a união de Localiza e Unidas depende, entre outras condições, da venda de ativos de locação da Unidas, o que inclui um remédio estimado pelo Credit Suisse entre 45 mil e 50 mil veículos

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A frota da Unidas é superior a 70 mil veículos

Anunciada em setembro de 2020, a fusão entre a Localiza e a Unidas, as duas maiores empresas do mercado brasileiro de locação de carros, gestão de frotas e venda de seminovos, estava em análise pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) desde o início de 2021.

Nesta quarta-feira, 15 de dezembro, o tão aguardado veredicto sobre o acordo foi divulgado. Em sua última sessão de julgamento do ano, o Tribunal do Cade deu sinal verde para o negócio. O aval, no entanto, veio acompanhado da necessidade da adoção de restrições e remédios estruturais e comportamentais. E até o cumprimento dessas itens, Localiza e Unidas seguirão operando de forma independente.

Uma das principais condições envolve os negócios de locação. O Cade definiu que devem ser alienados todos os ativos da Unidas nesse segmento, o que inclui sua rede de agências, lojas, sistemas e uma parcela – não divulgada – da frota operacional. O comprador também deve ser aprovado pelo órgão.

Em outubro, o serviço de notícias Broadcast divulgou que um acordo preliminar envolvia a venda de 70 mil carros dessa frota. Em parte do mercado comenta-se, porém, que a decisão trouxe um remédio um pouco mais amargo nessa frente. Na direção oposta, o Credit Suisse, em relatório, estima que o volume esteja entre 45 mil e 50 mil veículos.

O fato é que, atualmente, a Unidas tem uma frota total de locação de 72,6 mil carros, além de 261 lojas, sendo 223 próprias e 38 franquias. E uma das perguntas que vem à tona é: quem, no mercado, pode ter interesse e cacife para comprar esses ativos.

Em fato relevante conjunto, Localiza e Unidas divulgaram que já estão em processo de negociação com potenciais interessados.

Um candidato mais óbvio seria a Movida, hoje o terceiro maior nome do setor. A empresa foi uma das que contestaram a fusão entre as duas líderes e que ingressaram como terceiras interessadas no processo analisado pelo Cade.

Avaliada em R$ 6,6 bilhões e dona de uma receita de R$ 3,5 bilhões no acumulado de janeiro a setembro, a Movida poderia esbarrar, no entanto, justamente em seu porte e capilaridade. A empresa tem uma frota de locação de 79,8 mil veículos e 195 agências distribuídas no País.

Um segundo nome que poderia ser incluído nessa lista é o da Ouro Verde. Controlada pela gestora Brookfield, desde 2019, a empresa concentra sua atuação em gestão e terceirização de frotas de automóveis, caminhões, máquinas e equipamentos.

Entretanto, a companhia anunciou, em setembro, a captação de um aporte de R$ 206 milhões da Brookfield para ampliar sua frota atual, de 28,9 mil veículos, com a possibilidade de um investimento adicional de R$ 300 milhões.

Ao mesmo tempo, a Ouro Verde lançou um serviço de assinatura de veículos, batizado de Ouro Verde Smart e voltado a pequenas e médias empresas. Com um investimento de R$ 140 milhões, o novo modelo chegou ao mercado com a previsão de fechar 2021 com 2,5 mil veículos.

Outro novo concorrente nesse espaço é a Mobitech, joint venture entre a Porto Seguro e a Cosan. Anunciada em novembro, a operação também escolheu um serviço de assinatura de veículos e de gestão de frotas para marcar sua estreia no mercado.

Na nova empresa, a Cosan, do empresário Rubens Ometto, aportou R$ 300 milhões, por meio de um veículo de investimento criado recentemente. Já a Porto Seguro trouxe como moeda a Carro Fácil, que faturou R$ 40 milhões no segundo trimestre deste ano, com uma base 8,1 mil contratos ativos de locação.

Em outra movimentação recente nesse mercado, a Fleet Solutions, empresa de locação e gestão de frotas corporativas da Volkswagen, anunciou, em outubro, a intenção de combinar seus negócios com a LM Frotas.

Com o acordo, que ainda depende de aprovação do Cade, a Fleet Solutions destacou que a nova operação teria uma frota de 38 mil veículos e reforçaria seu negócio de gestão de frotas corporativas, além de um braço de mobilidade como serviço, destinado a consumidores.

Mercado aquecido

Esse panorama cada vez mais aquecido tem como pano de fundo um contexto que tem se mostrado bastante favorável, especialmente para as três empresas que figuram entre as líderes do setor e que atuam nos três segmentos desse mercado.

Diante de fatores como a queda na produção de veículos novos, em função de problemas na cadeia global de estabelecimento, Localiza, Unidas e Movida tem conseguido capturar ganhos, por exemplo, nas vendas de seminovos e na elevação dos preços de seus serviços.

A receita acumulada da Localiza, por exemplo, de janeiro a setembro, cresceu 11,2%, para R$ 8,2 bilhões. O lucro líquido teve um salto de 147,8%, para R$ 1,6 bilhão, enquanto o Ebitda foi de R$ 2,7 bilhões, alta de 61%.

Na Unidas, a receita líquida no período ficou em R$ 4,7 bilhões, 22,7% superior ao reportado um ano antes. O lucro líquido avançou 261,4%, para R$ 740 milhões e o Ebtida, 93,3%, para R$ 1,7 bilhão.

Entre outros dados, levando-se em conta a soma das duas operações nesse intervalo e sem a aplicação dos remédios do Cade, a nova empresa teria um valor de mercado de aproximadamente R$ 58 bilhões, com uma frota total de 455,3 mil carros, 881 agências e 243 lojas de seminovos.

Além das vendas dos ativos da Unidas em locação, a aprovação pelo Cade está sujeita ao cumprimento de outras condições. Entre elas, o compromisso da nova empresa de não realizar novas aquisições nesse segmento no prazo de três anos.

Ao mesmo tempo, após esse período e pelo prazo adicional de dois anos, as duas companhias devem submeter previamente ao órgão qualquer transação relacionada ao mercado de locação. O mesmo procedimento deve ser adotado no segmento de gestão de frotas, pelo prazo de cinco anos.

A companhia resultante também será obrigada a vender a marca Unidas, que poderá ser usada por quem comprar seus ativos nos segmentos de locação, gestão de frotas e venda de seminovos.

Em relatório, os analistas Bruno Amorim e João Frizo, do Goldman Sachs apontaram que a aprovação pelo Cade é estrategicamente positiva, mas fazem ressalvas a respeito de possíveis reflexos de algumas condições impostas.

“Acreditamos que a fusão criará sinergias potenciais relacionadas, principalmente, a uma maior escala”, escreveram os analistas. “Notamos, porém, que o número de carros a serem vendidos permanece confidencial e a venda da marca Unidas traz incertezas adicionais para as perspectivas do negócio, especialmente no segmento de locação.”

No pregão de hoje, as ações da Localiza fecharam o dia cotadas a R$ 59,29, alta de 3,13%. Na Unidas, o papel ficou em R$ 26,62, uma valorização de 4,43%. Já as ações da Movida tiveram ligeira queda de 0,49%, para R$ 18,11.

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