Anunciado no dia 23 de setembro do ano passado, o acordo de fusão entre as duas líderes do mercado brasileiro de locação de veículos, Localiza e Unidas, está perto de completar um ano e ainda aguarda ser aprovado ou rejeitado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

O negócio, porém, recebeu na segunda-feira, 6 de setembro, uma indicação de que poderá ter um final feliz. Em uma das últimas etapas do Cade para finalizar o processo, a Superintendência-Geral do órgão recomendou a aprovação da operação, ainda que com algumas restrições. A decisão final é esperada para janeiro do ano que vem.

Para os analistas do Credit Suisse, a avaliação da Superintendência-Geral acabou sendo melhor do que se imaginava, com restrições mais leves. “Os remédios sugeridos são, na verdade, menos severos do que aqueles que incorporamos em nossas estimativas, o que corrobora nossa classificação de outperform (acima da média do mercado) para ambas as empresas”, escreveram os analistas Regis Cardoso, Henrique Simões e Alejandro Zamacona.

Na avaliação deles, a sinalização dada pelo Cade aumenta a chance de o negócio passar pelo crivo do regulador, embora reconheça que a recomendação não significa, necessariamente, que o órgão vá dar a sua benção à fusão. “Dadas as possibilidades que consideramos realistas, a decisão é a melhor possível, com recomendação de aprovação e remédios menos severos do que antecipávamos”, escreveram os analistas.

As restrições recomendadas pelo Cade estão diretamente ligadas a uma preocupação com uma possível concentração de mercado no segmento de locação, uma vez que a fusão entre as duas gigantes levaria a empresa combinada a ter uma participação de mercado entre 60% e 70%. Com isso, o órgão poupou os negócios de gestão de frota e venda de carros usados.

O documento recomenda que a Unidas venda uma parte da sua frota de veículos para aluguel e de suas lojas, em quantidades não reveladas. Além disso, teria de comprar um determinado número de novos carros. Segundo a Superintendência-Geral, as restrições afetariam 136 cidades e 38 aeroportos em todo o país.

“Embora o número de carros na solução não tenha sido divulgado, as informações divulgadas nos dizem que o comprador (de parte da frota da Unidas) terá mais de 20 mil carros e será o terceiro maior player do país, ainda atrás da Movida”, escrevem os analistas do Credit Suisse.

A recomendação também inclui remédios “comportamentais” que, embora não totalmente divulgados, indicam, na avaliação do Credit Suisse, que o órgão poderia estar dispensando o acordo de não concorrência firmado entre a Unidas e a americana Vanguard, que impediu a empresa de entrar no mercado brasileiro.

Para os analistas do banco suíço, os remédios sugeridos pelo Cade vão manter o mercado de locação de veículos com três grandes competidores, o que lhes fazem acreditar que a Movida não estará elegível para comprar parte da frota da Unidas.

Se o negócio for aprovado com restrições, o Credit Suisse avalia que as duas empresas devem se valorizar no mercado. A ação da Localiza, estimam os analistas, passaria a ter um preço-alvo de R$ 83, ante R$ 74 na projeção atual. A previsão considera em 60% de chance de a fusão ser aprovada com restrições. O papel da companhia é negociado a R$ 61,05, por volta das 10h30, alta de 10,14%.

No caso da Unidas, no mesmo cenário, o preço-alvo saltaria de R$ 33 para R$ 38. A ação é cotada a R$ 27,28, avanço de 9,56%. Se a operação for rejeitada pelo Cade no início de 2022, as estimativas são de R$ 60 para a Localiza e de R$ 25 para a Unidas.

A Localiza é avaliada em R$ 42,69 bilhões, enquanto a Unidas vale R$ 12,5 bilhões. Juntas, as empresas somam uma frota de 452,9 mil carros. No segundo trimestre de 2021, tiveram receita líquida combinada de R$ 1,234 bilhão.

Outra banco de investimento, o Goldman Sachs, avaliou como positivo para as duas empresas o parecer da Superintendência-Geral do Cade, apesar das restrições. “Notamos que a proposta de venda de ativos no segmento de locação de veículos poderia ser compensada no longo prazo pela aquisição de carros e abertura de novas lojas, embora nós reconheçamos que um novo player pode surgir”, escrevem os analistas Bruno Amorim e João Frizo.

Nas contas dos analistas, a Localiza pode ser negociada em um “atraente” múltiplo de 22,1 vezes o preço sobre o lucro para 2021 e de 22,8 vezes para 2022, sem considerar a fusão. “O negócio, se concluído, poderá gerar sinergias”, escreveram.