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Vai vingar? Os caminhos tortuosos da fusão entre Localiza e Unidas

Anunciado em setembro de 2020, o acordo que criaria uma gigante de aluguel de carros enfrenta cada vez mais obstáculos. Um dos itens que embasam os questionamentos sobre a fusão é um estudo que mostra como ocorre a prática de preços mais elevados por players com mais participação de mercado

 

Naquela manhã da quarta-feira, 23 de setembro de 2020, quando anunciaram a fusão entre suas operações, Localiza e Unidas concentraram as atenções do mercado. O acordo criaria uma gigante de aluguel de veículos e gestão de frotas, avaliada em R$ 49,5 bilhões e dona de uma receita combinada de R$ 14,3 bilhões e de uma frota de 490,9 mil veículos.

O dia seguiu com um rali nas ações das duas empresas e culminou nas altas de 17,8%, nos papéis da Unidas, e de 13,9% nos da Localiza ao fim do pregão. Oito meses depois, no entanto, a dupla tem pela frente um caminho cada vez mais tortuoso para que a fusão cumpra o seu destino.

O sinal mais recente foi dado em 20 de maio pela Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Com uma declaração de complexidade, o órgão destacou que o acordo resulta em concentrações elevadas nos mercados de locações de veículos e de gestão de frotas. E acrescentou que o processo demanda uma investigação mais aprofundada.

Um dos elementos que buscam mostrar os efeitos da escala e da possível redução da competição com a aprovação da fusão é um estudo de precificação, incluído em um parecer encomendado pela Movida e que está anexado ao processo do Cade.

A pesquisa considera os preços das diárias dos grupos de veículos B e C da Localiza, comparando os valores cobrados em 10 cidades nas quais a empresa tem entre 20% e 30% de market share com os de outros 10 municípios onde sua fatia fica entre 60% e 70%.

O levantamento mostra que os preços médios das diárias dos grupos de veículos B e C, nas cidades nas quais a locadora domina boa parte do mercado, eram, respectivamente, 2,9% e 4,8% mais altos do que o valor médio praticado nas cidades onde a empresa tem menor participação.

Em Canoas (RS), por exemplo, onde a Localiza tem uma fatia entre 20% e 30%, o aluguel de um veículo do grupo B custava R$ 122 a diária. Já em Santa Maria (RS), cidade na qual a locadora tem entre 60% e 70% de market share, a diária para o mesmo veículo, do mesmo grupo, era de R$ 155.

“É um caso extremamente complicado e que está demandando um esforço enorme de confirmação de dados”, diz José Carlos Berardo, especialista em concorrência e regulação do Lefosse Advogados, ao NeoFeed. “Desde janeiro, o Cade já enviou mais de 40 consultas a clientes e concorrentes.”

As empresas que ingressaram como terceiras interessadas no processo e estão contestando a fusão são a Movida, terceiro maior grupo do setor, e outras três companhias de gestão de frotas: Ouro Verde, da Brookfield; Fleet Solutions, do grupo Volkswagen; e ALD, do grupo francês Société Générale.

Outro ponto questionado é a participação somada de mercado da Localiza e da Unidas. Segundo dados apresentados pelas duas ao Cade, com base em um estudo da consultoria Dataminer e relativo ao ano de 2019, essa fatia seria inferior a 40% no segmento de locação de veículos, em âmbito nacional.

Entretanto, esse número difere da participação combinada de 67,7% – 51,1% da Localiza e 16,6% da Unidas – levando-se em conta as informações divulgadas por ambas as companhias em apresentações públicas direcionadas a investidores, no mesmo período. A Movida, por sua vez, tinha 14,8%.

Os dados apresentados pela dupla sobre o tamanho do mercado de locação também são colocados em xeque pelos rivais. Para realçarem a “baixíssima” barreira de entrada e a alta competição no setor, Localiza e Unidas defendem, com base no levantamento, que existem 14,2 mil locadoras no País.

Responsável pelo parecer encomendado pela Movida e anexado ao processo no Cade, o economista Juan Ferrés explica que, para chegar a esse número, o cálculo envolveu todas as companhias que têm o termo “aluguel de carros” em suas razões sociais.

“O ponto é que há uma série de incentivos fiscais para se ter um carro em nome de uma empresa”, observa Ferrés. “E, por consequência, há muitas companhias que não têm nada a ver com locadoras e que são usadas por seus sócios para comprar veículos.”

Ferrés também questiona a tese de que a fusão dará escala para que a dupla seja uma consolidadora do setor. “Eles superdimensionam o mercado”, diz. “Hoje, os números das duas e da Movida representam 85% do segmento. Não há o que consolidar. São três grandes empresas e a primeira colocada está se unindo à segunda.”

“Eles superdimensionam o mercado. Os números das duas e da Movida representam 85% do segmento. Não há o que consolidar”, diz o economista Juan Ferrés

Berardo, do Lefosse Advogados, faz um contraponto a essa visão. Ele frisa que, sob a obrigação de apresentar estimativas ao Cade, Localiza e Unidas tiveram que lidar com o desafio de coletar dados confiáveis de um mercado que é muito pulverizado e disperso regionalmente.

“É muito mais fácil olhar de fora e dizer que a construção dessas premissas está errada”, afirma Beraldo. “Cabe ao Cade, que é uma ilha de excelência, confirmar de que lado está a verdade. O problema é que o órgão tem poucos braços para tanto volume de trabalho.”

Local x Nacional

Outro ponto longe de uma convergência é sob qual ótica de concorrência o caso deve ser avaliado. Localiza e Unidas partem do pressuposto de que a competição no segmento se dá no âmbito local, de cidade em cidade, sob a pressão de preços e de ofertas das pequenas locadoras de cada município.

Na contramão dessa tese está o argumento de que essa dinâmica vai muito além do componente local que, sim, tem influência, mas não é o fator preponderante na definição das regras dessa disputa. Um exemplo são os contratos de gestão de frota que, em boa medida, exigem cobertura nacional.

Nesse cenário, os grandes grupos, com suas presenças e escalas, têm mais flexibilidade e poder de fogo para traçarem suas estratégias, a partir de um olhar mais amplo. Mas que também se reflete na guerra de preços em cada cidade, com a disputa cada vez mais restrita a esses players de maior porte.

É o caso do segmento de locação, no qual essas empresas redistribuem suas frotas seguindo a ótica da sazonalidade. Na prática, um mesmo carro pode servir um grande centro, em um determinado momento, e, no período de férias, ser deslocado para reforçar a oferta em um destino turístico.

Os números atualizados da fusão, levando-se em conta os resultados de 2020 e do primeiro trimestre de 2021 e o pregão da última quarta-feira, 2 de junho, dão a medida da escala que a nova empresa teria. A receita líquida seria de R$ 15,8 bilhões e o valor de mercado de R$ 62,7 bilhões, sendo R$ 48,6 bilhões da Localiza e R$ 14,1 bilhões da Unidas.

A companhia teria uma frota total de 455,2 mil veículos, sendo 293,9 mil em locação e 161,3 mil em gestão de frotas. O número total de agências de aluguel de carros seria de 868 e o de lojas de seminovos, 253.

Para efeito de comparação, a Movida, avaliada em R$ 5,7 bilhões, reportou uma receita de R$ 4,08 bilhões em 2020. A empresa tem uma frota total de 122,6 mil carros, sendo 70,2 mil em locação e 52,3 mil em gestão de frotas. Além de 195 agências de locação e 70 lojas de seminovos.

Com os números atualizados, a empresa formada a partir da fusão teria um valor de mercado de R$ 59,9 bilhões, com uma receita líquida de R$ 15,8 bilhões e uma frota total de 455,2 mil veículos

A partir de uma operação do porte gerado na fusão, outra preocupação envolve o poder de barganha cada vez maior que a nova empresa teria para negociar condições junto às montadoras. Segundo estimativas, Localiza e Unidas respondem atualmente por 15% das compras totais de carros no País.

“Com esse peso, eles poderiam pressionar e negociar descontos ainda maiores”, diz uma fonte do mercado. “O que abre o risco de as montadoras repassarem essas perdas de margens aos demais players e, inclusive, aos consumidores. Alguém teria que pagar essa conta.”

Para os que se opõem ao acordo, uma operação com essa escala também só reforçaria a distância de competitividade já existente entre os três principais nomes do setor e as demais empresas restritas a nichos como a gestão de frotas.

Com atuação em toda a cadeia, Localiza, Unidas e Movida têm mais margem de manobra em seus portfólios no caso de eventuais crises no mercado. Foi o que aconteceu, por exemplo, na pandemia, quando a realocação de parte de suas frotas para suas revendas de seminovos foi uma válvula de escape dessas companhias.

“Não é à toa que três das partes interessadas são empresas de gestão de frota”, afirma outra fonte do setor. “A Movida sabe que não vai conseguir bater no Mike Tyson e que os preços vão subir. Mas ela tem certeza que sobrevive, ao contrário das outras.”

Sem remédio?

As fontes ouvidas pelo NeoFeed divergem sobre a probabilidade de aprovação da fusão, mesmo sob a condição de aplicação de remédios estruturais ou comportamentais pelo Cade. “Há chances se o Cade olhar para o desinvestimento de algumas das marcas”, afirma Berardo, do Lefosse Advogados.

Na contramão dessa visão, Ferrés vê pouco espaço para o sinal verde do Cade e entende que a venda de algumas marcas e ativos não resolveria o problema de escala que a operação seguiria detendo no mercado.

“Já no âmbito dos remédios comportamentais, uma saída seria exigir, por exemplo, um limite no volume de compras da operação ou obrigar a baixar os preços praticados”, explica Ferrés. “Mas são expedientes muito difíceis de monitorar e o máximo que o Cade já fez nessa direção foi no setor de ferrovias.”

A dupla concorda, porém, quanto ao fato de que o processo, dada a sua complexidade, ainda demandará um longo período até que se conheça o seu desfecho. A expectativa é de que isso aconteça entre o fim do ano e o início de 2022.

A Superintendência-Geral do Cade tem 240 dias para analisar o caso, a contar do processo protocolado por Localiza e Unidas, em fevereiro. Esse prazo pode ser prorrogado por até 90 dias. Concluída essa etapa, o caso deve ir ao tribunal do Cade, uma etapa na qual cabem recursos e que pode levar outros três meses.

“Por enquanto, não estamos incluindo o potencial negócio com a Unidas, dado que a aprovação das autoridades deve demorar um pouco mais”, escreveram os analistas Lucas Marquiori e Fernanda Richia, do BTG Pactual, em relatório recente sobre a Localiza, sinalizando que o mercado já tem a percepção do período do processo. Mas ainda não está precificando esse prazo mais extenso.

“No fim das contas, essa decisão dará indicação da postura a ser adotada daqui pela frente por parte do Cade, que está em fase de mudança de liderança, quanto aos atos de concentração”, diz Berardo. “De tempos em tempos, o órgão se depara com processos dessa magnitude.”

Ele cita como exemplos os casos dos acordos envolvendo Kroton e Estácio, e Ipiranga e Ale, ambos em 2017, e a compra da Liquigás pela Ultragaz, em 2018. Curiosamente, todos esses processos foram reprovados na autarquia.

Procurada, a Localiza afirmou por meio de nota que apresentou ao Cade informações sobre o negócio e estudos sobre a dinâmica do setor. E que eventuais esclarecimentos sobre a operação estão sendo discutidos com o órgão.

Unidas, Movida e Ouro Verde disseram que não iriam se manifestar até a decisão do Cade. Fleet Solutions e ALD Automotive não retornaram aos pedidos de entrevista.

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