Com Truckpad, digitalização da JSL vai deixar de andar de Fusquinha, diz CEO

Empresa de logística do grupo Simpar adquire por R$ 10 milhões a TruckPad, plataforma que conta com 800 mil caminhoneiros autônomos. Em entrevista ao NeoFeed, Ramon Alcaraz, CEO da JSL, explica a estratégia

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O CEO da JSL, Ramon Alcaraz

Quando o assunto é transitar e transportar cargas pelos quase 1,7 milhões de quilômetros de estradas do Brasil, não há nome maior do que a JSL. Com 66 anos de história, a companhia tem uma posição consolidada em um mercado altamente pulverizado – sua participação chega a quase 1%, enquanto as dez maiores rivais respondem juntas por 1,9%. 

Mas quando se trata de transitar pela estrada da transformação digital, a companhia do grupo Simpar ainda engatinha, com um nível baixo de digitalização de processos e soluções. Esta situação, porém, está prestes a mudar com a chegada da Truckpad, logtech que conecta caminhoneiros autônomos e cargas, numa operação de R$ 10 milhões, na qual a JSL assumiu os passivos da empresa.

“É como se a gente estivesse andando até agora em um Fusquinha e de repente aparecesse uma BMW para nós andarmos na mesma estrada”, diz Ramon Alcaraz, CEO da JSL, ao NeoFeed. “Nós chegaríamos ao mesmo lugar com o Fusquinha, mas agora vamos chegar mais rápido.”

Fundada em 2012 pelo empresário Carlos Mira, a Truckpad assessora embarcadores, transportadoras e motoristas independentes em todas as etapas do processo de transporte de cargas, desde a contratação do frete, passando pelo acompanhamento da carga em tempo real até a gestão do pagamento.

A startup tem cerca de 30 mil transportadoras de pequeno e médio porte e 800 mil motoristas independentes cadastrados, sendo 70 mil deles ativos na plataforma. No quarto trimestre, o valor total de mercadorias ofertadas na plataforma somou R$ 14,3 bilhões, alta de 16 vezes em relação ao mesmo período de 2020. 

A Truckpad tinha investimentos da chinesa Full Truck Alliance, que opera no mesmo nicho. A Mercedes-Benz, a Movile e a aceleradora americana Plug and Play também tinham aportado recursos na logtech. Os valores das capitalizações não foram divulgadas na época.

Segundo Alcaraz, a ideia é aproveitar o know-how tecnológico desenvolvido ao longo dos anos pela Truckpad para acelerar a transformação digital da JSL e robustecer as operações da companhia. A logtech, por exemplo, desenvolveu soluções para otimizar a operação logística, por meio de ofertas de carga planejadas, buscando antecipar o rumo de cargas para garantir o frete de retorno. 

“A JSL, por exemplo, tem hoje uma rota Sudeste-Nordeste e um caminhoneiro sai do Sudeste para o Nordeste para fazer um transporte. Na volta, ao invés de voltar vazio, ele pode trazer outra carga, porque a Truckpad permite esse tipo de aproveitamento”, diz. 

A aquisição da Truckpad é o passo mais representativo dado pela JSL em seu desenvolvimento digital. Antes, ela contratou Paulo Palaia, executivo com 36 anos na área de tecnologia da informação, para assumir a nova diretoria de TI que visa a acelerar a digitalização dos processos internos e a evolução da tecnologia embarcada em seus negócios. 

A Truckpad vai ficar sob a estrutura da JSL e o plano é que ela permaneça sendo uma companhia independente, mantendo os serviços que realiza atualmente, e não apenas uma fonte para acelerar a transformação digital. 

Segundo Alcaraz, a Truckpad também vai complementar os serviços oferecidos pela JSL, por intermediar cargas de menor tamanho com caminhoneiros de menor porte, enquanto o foco da companhia são clientes grandes, que realizam movimentação frequente de cargas.  “E mesmo um grande cliente, ele às vezes tem alguma carga inesperada, um aumento de volume no final do mês, uma venda pontual, serviços que a Truckpad pode atender”, diz. 

Além dos serviços já oferecidos pela Truckpad, a JSL, com a ajuda da Simpar, pretende adicionar recursos a mais para embarcadores e transportadores cadastrados na plataforma, para melhorar sua rentabilidade. 

Segundo Antônio Barreto, diretor de M&A e Planejamento da Simpar, departamento responsável por prospectar e negociar todas as aquisições do grupo, essas iniciativas serão realizadas aproveitando as outras verticais do grupo.

Isso permitirá a ela competir com outras empresas que atuam no mesmo ramo, em especial a Frete.com, antiga CargoX, que se tornou um “unicórnio” no ano passado depois de receber um aporte de US$ 220 milhões em rodada liderada pelo SoftBank Latin Fund e pela chinesa Tencent

Com a BBC Digital, plataforma de serviços financeiros digitais, haverá a possibilidade de a Truckpad prestar serviços de meio de pagamento e oferta de produtos financeiros como desconto frete, crédito para capital de giro. 

Com Vamos e Movida, a Truckpad poderá oferecer novos serviços aos seus usuários, como locação e comercialização de veículos pesados, leves, máquinas e equipamentos para motoristas, transportadoras e embarcadores. 

“Como independente, não vemos maneiras de a Truckpad se rentabilizar sozinha, mas dentro do nosso ecossistema ela poderá oferecer aos clientes produtos que a gente tem”, afirma. “Todo o ecossistema da Simpar estará à disposição para aumentar a oferta de serviços.”

As ações da JSL fecharam o dia com alta de 5,26%, a R$ 6,60. No ano, elas acumulam queda de 10,4%, registrando valor de mercado de R$ 1,9 bilhão.

Os papéis da Simpar encerraram com expansão de 7,58%, a R$ 12,06, acumulando baixa de 2,9% e registrando valor de mercado de R$ 9,9 bilhões.

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