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“Diós” e seus demônios: o documentário sobre os anos loucos de Maradona

Com imagens e bastidores únicos, o documentário “Diego Maradona”, disponível no YouTube desde o dia da morte do craque, revisita a ascensão explosiva de Maradona no clube Napoli, época em que o vício por cocaína se agravou, levando ao seu declínio

 

Talvez o melhor período para refletir sobre o lado obscuro de Diego Maradona seja a sua passagem pelo clube Napoli, na Itália, de 1984 a 1991. Esses sete anos são apontados como os mais loucos na trajetória do maior jogador de futebol argentino, morto na quarta-feira, 25 de novembro, ao sofrer parada cardiorrespiratória, aos 60 anos.

Foi nessa época que o último documentário sobre o mito se concentrou. “Diego Maradona”, dirigido pelo britânico Asif Kapadia, desvenda a fase em que o craque realmente se tornou um dependente de cocaína, o que levou à derrocada do lendário camisa 10 da seleção argentina e dos demais times que defendeu.

“Não dá para entender o que aconteceu com Maradona sem analisar o período turbulento que ele vivenciou em Nápoles”, contou Kapadia, em Cannes. O filme teve sua première mundial no último festival francês, realizado no ano passado – já que a edição de 2020 foi cancelada devido à pandemia.

Depois de avaliar mais de 500 horas de material de arquivo inédito com Maradona, Kapadia chegou à conclusão de que o período crucial para compreender os seus demônios foi o da Itália. “Foi o momento da ascensão explosiva de Maradona, mas também do agravamento do seu vício”, afirmou o cineasta.

Kapadia é mais conhecido pelos documentários que dirigiu sobre o piloto Ayrton Senna, em 2010, e a cantora Amy Winehouse, em 2015. Ele chegou a entrevistar Maradona para o filme, disponível desde o dia de sua morte no YouTube (falado em espanhol e italiano, sem tradução para o português). Mas a conversa recente foi usada apenas na narração.

O que mais se vê aqui é o material do arquivo pessoal do protagonista, incluindo fotos e vídeos antigos. São imagens até então nunca vistas de Maradona e também de quem testemunhou o seu período em Nápoles. Foi uma fase de grandes conquistas, incluindo dois campeonatos Italianos, uma Copa da Itália, uma Supercopa da Itália e uma Copa da Uefa.

O período também coincidiu com o seu desempenho memorável na Copa do Mundo, em 1986, capítulo que o documentário resgata. Na final do torneio, realizado no México, a Argentina venceu a Alemanha por 3 a 2, tornando-se bicampeã do mundo. Foi nessa Copa, durante partida contra a Inglaterra, durante as quartas-de-final, que Maradona ainda fez o lendário gol batizado de “la mano de Diós”, por ter usado a mão.

O documentário lembra um “reality show” que passa por seus dias de glória (incluindo os seus gols), a histeria de seus fãs, seus momentos nos vestiários, a bajulação ao seu redor e também os seus casos extraconjugais, que produziram filhos ilegítimos.

Tudo foi registrado por uma equipe de filmagem que o próprio Maradona contratou para segui-lo na Itália, aparentemente por razões de segurança. A vida extravagante que levava parece ter acentuado os seus demônios internos e sua tendência autodestrutiva, o que acabaria debilitando a sua saúde.

Conforme sugere o documentário, a contratação do craque foi financiada pela máfia napolitana. “A Camorra simplesmente estava no auge em Nápoles, nos anos 80. Mas Maradona provavelmente não tinha ideia de onde estava se metendo. Como eles queriam comprá-lo, ele aceitou e foi”, comentou Kapadia.

Ao longo do filme, vemos o astro com um integrante da Camorra, Carmine Giuliano, apontado como um dos principais fornecedores de cocaína de Maradona. Há até um registro de Giuliano buscando o jogador em sua casa, para levá-lo a uma casa noturna.

As imagens deixam claro que as drogas estavam sempre ao alcance de Maradona, o que o teria incentivado a usar cada vez mais. Depoimentos de familiares, como o de Claudia Vilafañe, mulher dele na época, dão a entender que, a partir daquele momento, o jogador não foi mais o mesmo. O “Diego” que todos conheciam teria dado lugar a “Maradona”, uma outra pessoa.

“Pode parecer ótimo ser poderoso, conseguindo tudo o que se quer em um piscar de olhos. Mas, na verdade, é a pior coisa do mundo, pelo simples fato de ninguém mais dizer ‘não’ para você. E também por ninguém conseguir fazer você parar, quando tudo fugir ao controle”, afirmou Kapadia.

Maradona em sua apresentação no estádio do Napoli – Foto: Alfredo Capozzi/Festival de Cannes

Para piorar, a relação de Maradona com a máfia foi se deteriorando durante a sua estadia na Itália. Aparentemente a gota d’água teria sido o pedido que o craque fez à cidade de Nápoles. Ele queria que seus moradores torcessem pela Argentina e não pela Itália na Copa do mundo de 1990, aproveitando-se da eterna divisão entre o norte e o sul do país.

“Quando cheguei a Nápoles, fui recebido por 85 mil pessoas. Quando deixei a cidade, estava sozinho”, lembrou Maradona, na narração, já no final do filme. O jogador foi embora, em 1991, por ter sido suspenso dos campos por 15 meses pela Fifa. A análise de um teste antidoping, feita após a vitória do Napoli sobre o Bari, por 1 a 0, pelo Campeonato Italiano, deu positiva para cocaína.

O episódio explica por que Maradona acabou se voltando contra o documentário, mesmo depois de ter concordado com a sua realização. No pôster oficial do filme, abaixo de “Diego Maradona”, está o subtítulo “rebelde, herói, trapaceiro e Deus”.

Como o ícone do futebol não gostou do “trapaceiro”, que se refere às infrações de doping de sua carreira (três no total), ele chegou a pedir que os fãs não assistissem à produção, em entrevista ao canal de TV mexicano “Univision”, no ano passado. “Joguei futebol e ganhei dinheiro correndo atrás da bola. Não enganei ninguém”, disse ele, visivelmente irritado.

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