Negócios

Em nova turbulência, Embraer demite mais 900 funcionários no Brasil

Sob o impacto da Covid-19 e da joint venture frustrada com a Boeing, os novos cortes ampliam as baixas na fabricante, que já promoveu três programas de demissão voluntária desde julho, com a adesão de 1,6 mil profissionais

 

Menos de 24 horas depois de encerrar o prazo de adesões ao seu terceiro Programa de Demissão Voluntária (PDV) no intervalo de dois meses, a Embraer enviou um novo sinal pouco animador ao mercado, reforçando o horizonte nebuloso à frente da companhia.

Na manhã desta quinta-feira, a fabricante brasileira anunciou a demissão de 4,5% do seu quadro de funcionários no País, o que representa cerca de 900 profissionais. Em comunicado, a companhia afirmou que a decisão busca “assegurar a sustentabilidade da empresa e sua capacidade de engenharia”.

No total, a Embraer emprega cerca de 20 mil profissionais em todo o mundo, sendo cerca de 19 mil no País. Até então, os três PDVs realizados pela empresa haviam registrado a adesão de aproximadamente 1,6 mil funcionários da operação brasileira.

No terceiro PDV, encerrado ontem, a fabricante incluiu novos benefícios, como uma indenização de 20% do salário-base nominal por ano de empresa e plano de saúde para o funcionário e dependentes com vigência até 2021. Além dessas medidas, para ajustar a operação, a companhia adotou iniciativas como férias coletivas, redução de jornada, lay-off e licenças remuneradas.

Para justificar os cortes anunciados hoje, a Embraer ressaltou indicadores como a queda de 75% no volume de entregas de aeronaves no primeiro semestre, em comparação a igual período um ano antes, na esteira dos impactos da Covid-19 no setor de aviação.

Ao lado da pandemia, o cancelamento da joint venture na área de aviação comercial com a Boeing, anunciado em abril, é o segundo ingrediente no caldeirão da crise da empresa.

Nesse contexto, a Embraer ressaltou o impacto de medidas como a duplicação de estruturas da unidade de negócios, em preparação à parceria que vinha sendo costurada com a fabricante americana desde 2017.

Parte desse efeito negativo do acordo frustrado foi refletido no balanço do segundo trimestre, com uma baixa contábil de R$ 473,6 milhões na divisão de aviação comercial. A Embraer atribuiu o montante à depreciação e amortização do ativo durante os quase três anos de negociação com a Boeing.

Desde julho, a Embraer já abriu três programas de demissão voluntária, que registraram a adesão de aproximadamente 1,6 mil funcionários da operação brasileira

Entre abril e junho, a Embraer reportou um prejuízo de R$ 1,68 bilhão, contra um lucro líquido de R$ 26,1 milhões no segundo trimestre de 2019. Na mesma base de comparação, a receita líquida recuou 47%, para R$ 2,8 bilhões. A divisão de aviação comercial foi a mais afetada e reportou uma queda de 77% em sua receita, para R$ 563,9 milhões.

Esse cenário também trouxe, naturalmente, reflexos para o ativo no mercado de capitais. No ano, as ações da Embraer acumulam uma desvalorização superior a 61%. A empresa, que encerrou 2019 com um valor de mercado de R$ 14,5 bilhões, hoje está avaliada em R$ 5,5 bilhões.

Além dos danos refletidos no balanço e em seu valor de mercado, a combinação explosiva da pandemia e da joint venture não concretizada com a Boeing alimenta as preocupações no mercado quanto ao futuro da Embraer. Especialmente sob a expectativa de uma lenta retomada no setor.

Sob esse panorama, a empresa teve um empréstimo aprovado de R$ 1,5 bilhão pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), em julho, com a participação de um consórcio de bancos. Fabricantes de outros países, no entanto, também têm sido beneficiadas com pacotes de auxílio, como a Airbus, que foi um dos alvos do programa de € 15 bilhões concedido pelo governo francês.

Ter fôlego para atravessar a crise e estabilizar a operação não é a única motivação por trás da necessidade de reforço de caixa. Sem a associação com a Boeing, a empresa terá pela frente o desafio de buscar uma nova parceria ou mostrar a capacidade de voar sozinha diante de um novo cenário de competição.

Além da associação da Bombardier, sua principal rival, com a Airbus, esse contexto inclui concorrentes mais recentes, como a chinesa Comac e a russa Irkut. Para analistas, um eventual acordo com uma dessas empresas seria, inclusive, o roteiro mais viável para a Embraer nesse contexto.

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