EXCLUSIVO: Antler, fundo de US$ 500 milhões, chega ao Brasil para caçar startups embrionárias

Em cinco anos, o Antler investiu em mais de 400 startups nos EUA, na Europa e na Ásia. Agora, abre seu primeiro escritório na América Latina em São Paulo para apostar em ideias antes mesmo de serem colocadas no PowerPoint. Marcelo Ciampolini explica a estratégia

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Marcelo Ciampolini, general partner da Antler para o Brasil

Em um momento de retração dos investimentos em startups, um novo fundo está chegando ao Brasil para apostar em ideias antes mesmo delas serem colocadas em um PowerPoint. É o Antler, fundado, em 2017, pelo norueguês Magnus Grimeland em Cingapura.

Com escritórios em 18 cidades diferentes da Ásia, Europa e nos Estados Unidos (em Austin, Bolder e Nova York), além de presença em Toronto, no Canadá, o Antler começou uma operação em São Paulo, no início deste ano, sob comando do brasileiro Marcelo Ciampolini.

Em apenas cinco anos, o Antler já investiu em mais de 400 startup ao redor do mundo por meio de 12 fundos que somados captaram US$ 500 milhões. Agora, Ciampolini, que é o general partner do fundo para o Brasil, começará a captar um novo fundo de até US$ 50 milhões com investidores brasileiros e internacionais.

“Queremos investir em empreendedores que têm boa formação e trabalharam em uma big tech, no mercado financeiro ou em uma grande corporação e quer empreender, mas não sabe por onde começar”, diz Ciampolini, ao NeoFeed. “Eles não têm nem o PowerPoint e nós ajudamos a fazer o deck.”

O plano é investir em empreendedores brasileiros em estágio bem inicial através de um programa de formação que lembra muito a estratégia das aceleradoras americanas Y Combinator e Plug and Play Tech Center, bem como a do fundo 500 Global (ex-500 Startups).

Assim como Y Combinator e Plug and Play Tech Center, que selecionam empreendedores em “batches” e depois decidem os seus investimentos, o Antler tem uma estratégia semelhante de formação. Mas, ao contrário dos dois exemplos anteriores, o fundo investe em empreendedores nos quais acredita que são capazes de formar uma startup antes mesmo da ideia.

Como isso acontece? O fundo atrai pessoas com potencial de se tornarem empreendedoras através de cursos de formação. No mundo, cada escritório tem dois “batches” por ano. No Brasil, o primeiro curso vai acontecer em setembro. Com duração de quase três meses, a ideia é avaliar os candidatos e ajudá-los a encontrar cofundadores e desenvolverem ideias que podem se tornar uma startup.

O perfil dos “alunos” que o Antler busca são de pessoas que cursaram boas faculdades, ou que tenham formação de CTOs, ou que Ciampolini chama de empreendedor nato, capaz de fazer muito com pouco. Os selecionados ganham uma bolsa, cujo valor ainda não foi definido. Nos EUA, ela é de US$ 3 mil por mês. “Quero encontrar também o empreendedor fora do eixo Rio/São Paulo”, diz ele.

No fim do cursos, os “alunos” formam duplas com quem gostaria de fundar uma startup e apresentam a ideia da empresa, que passa por uma análise em um comitê de investimento. “Avaliamos as pessoas e a capacidade de levarem essa ideia adiante”, afirma Ciampolini. Os projetos aprovados ganham um cheque de US$ 150 mil.

O Antler, que se diz agnóstico de tese, fica com uma fatia de 10% da startup e coloca toda a equipe para ajudar a estruturar a nova empresa – a equipe brasileira está sendo formada, mas contará também com o apoio do time internacional da aceleradora.

Depois, o Antler apresenta as startups escolhidas para fundos que investem em seed money para novas captações – agora com o Powerpoint pronto. Neste caso, o Antler sempre participa de rodadas subsequentes para evitar a diluição de sua participação.

Nessa primeira seleção, de acordo com Ciampolini, a meta é atrair 80 pessoas para que possam ter 40 ideias (startups) para se serem apresentadas ao comitê do investimento. Na média, o investidor estima que assinará os seus 15 primeiros cheques no Brasil – um total de US$ 1,5 milhão. “O Brasil é o maior celeiro de unicórnios da América Latina”, afirma Ciampolini, justificando a chegada do Antler no País.

No portfólio global do Antler estão a Airalo, de Cingapura, que permite telefonia celular sem a necessidade de cartões para viajantes em mais de 190 países. Em rodadas subsequentes, o Sequoia Capital e a Rakuten Ventures investiram na empresa.

Outra startup é a fintech Marco, fundada em Miami, que fornece crédito para pequenas e médias empresas da América Latina que querem exportar para os Estados Unidos. A startup levantou US$ 82 milhões, em equity e dívida, e atraiu diversos fundos depois do aporte do Antler.

A lista é extensa e inclui Arcadia, Kayyak Ventures, Village Global VC, Flexport Ventures, Tresalia Capital, 342 Capital, Struck Capital, Florida Funders, Fox Ventures e Arpegio.

As mais de 400 startups que fazem parte do portfólio do Antler estão avaliadas em US$ 1,8 bilhão, segundo a empresa. Questionado se a estratégia é a conhecida como “spray and pray”, por apostar em muitas empresas na esperança de que algumas vinguem e justifiquem o investimento, Ciampolini diz que não.

“Não estamos investindo dessa forma”, diz Ciampolini, que foi fundador da fintech Lendico (hoje rebatizada de Provu), comprada pelo fundo Lone Stars, em 2018. “Temos um assessment que avalia 10 quesitos diferentes. A decisão de investimento é baseada em dados.”

No Brasil, o maior exemplo de um fundo “spray and pray” é a Bossanova Investimentos, fundada por João Kepler, que já investiu em mais de mil startups. Nos Estados Unidos, esse é um modelo seguido por diversos fundos. A aceleradora Y Combinator, por exemplo, tem mais de 4 mil investimentos. A 500 Global, mais de 2 mil. E SV Angels e Plug and Play Tech Center somam mais de mil aportes cada uma.

Maré baixa?

O cenário macroeconômico, com o aumento das taxas de juros, bem como a correção de valor de ativos tech nas bolsas de valores, que em alguns casos superam os 50%, têm feito os investidores serem mais cautelosos em seus investimentos. Muitos chamam esse movimento de “maré baixa”, por conta da desaceleração dos aportes.

Em razão desse cenário, os principais fundos de venture capital do mercado têm divulgado recomendações às startups de seu portfólio para preservarem caixa e tentarem ser racionais nos gastos. O motivo? Aguentar mais tempo com o dinheiro captado, evitando novas rodadas para não serem obrigados a realizar um “down round” – pegar os recursos por uma avaliação inferior a rodada anterior.

A Sequoia Capital, por exemplo, um dos fundos mais influentes do Vale do Silício, alertou as startups de seu portfólio que esse é um “momento crucial” de incertezas e mudanças. Mas avisou: “Este não é um momento para entrar em pânico. É tempo de pausar e reavaliar”, escreveu a gestora. “Não veja (os cortes) como algo negativo, mas como uma forma de economizar dinheiro e correr mais rápido.”

A Y Combinator também soou o sinal de alerta e disse para suas investidas para “se prepararem para o pior”. E acrescentou: “O movimento mais seguro é se planejar para o pior,” escreveu em uma carta enviada às startups de seu portfólio. “Se a situação atual for tão ruim quanto as duas últimas crises econômicas, o melhor caminho para se preparar é cortar custos e aumentar o seu ‘runway’ nos próximos 30 dias.”

A despeito desse cenário, os investimento ainda não desaceleraram drasticamente no Brasil. No quatro primeiros meses de 2022, as startups brasileiras captaram US$ 2,3 bilhões, uma queda de pouco mais de 4% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o Distrito, um ecossistema independente de startups.

No quatro primeiros meses de 2022, as startups brasileiras captaram US$ 2,3 bilhões, uma queda de pouco mais de 4%

O que explica essa leve queda é o fato de as principais gestoras estarem com dinheiro em caixa – o que no mercado se chama pelo jargão de dry powder. Por esse motivo, elas não estão parando os investimentos, só passaram a ser mais seletivas na análise dos novos aportes, reduzindo o valor dos cheques e a velocidade das captações.

O desafio, agora, é conseguir dinheiro novo. E não faltam gestoras que estão em processo de captação junto a investidores. Uma delas é a Mindset Ventures, que investe em startups dos Estados Unidos e Israel, que busca US$ 100 milhões em seu quarto fundo.

A Oria Capital, de Jorge Steffens, vai também começar a captar US$ 100 milhões para o seu quarto fundo, assim como a Barn Investimentos, que busca US$ 100 milhões para fazer mais aportes em greentechs. A Headline, de Romero Rodrigues, está também atrás mais de R$ 800 milhões em conjunto com a XP.

Outro fundo que está no mercado em processo de captação é a Kamaroopin, de Pedro de Andrade Farias, que se associou ao Pátria, que está dando seus primeiros passos em venture capital – a gestora é focada em private equity e captou, recentemente, um SPAC.

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