Mindset Ventures prepara fundo de US$ 100 milhões e mira R$ 1 bilhão em ativos

Com dois unicórnios no portfólio, Brex e Turing, a gestora, que tem Daniel Ibri, Camila Potenza e Nemer Rahal como sócios, estrutura quarto fundo. A tese seguirá a mesma: investir em startups dos EUA e de Israel. Mas os cheques serão maiores

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Os sócios da Mindset Ventures: Nemer Rahal (à esq.), Camila Potenza e Daniel Ibri

Gestora brasileira que construiu um portfólio de mais de 50 startups investindo em empresas dos Estados Unidos e de Israel, a Mindset Ventures se prepara para abastecer o “tanque” com mais recursos.

Perto de concluir os investimentos de seu terceiro fundo, em que captou US$ 52 milhões, a gestora que tem como sócios Daniel Ibri, Camila Potenza e Nemer Rahal vai dobrar a aposta nessa mesma tese.

A Mindset Ventures está estruturando seu quarto fundo com a meta de captar US$ 100 milhões em meio a um cenário em que o aumento das taxas de juros têm feito os investidores fugirem de ativos de risco, em especial das empresas de tecnologia.

“Não vai ser fácil, pois o investidor está mais restritivo, mas temos um track record para mostrar”, afirma Ibri, com exclusividade ao NeoFeed. “Esse boom (de aportes em startups), no entanto, fez surgir investidores que acreditam no longo prazo.”

O terceiro fundo da gestora, que já investiu em 19 startups e deve concluir os aportes com mais uma ou duas rodadas, está com um retorno de 42% ao ano em dólar, levando-se em conta as marcações de valores das últimas rodadas.

No portfólio da Mindset Ventures está a Brex, fintech fundada pelos brasileiros Henrique Dubugras e Pedro Franceschi em São Francisco, que vale US$ 12,3 bilhões. Ibri, quando ainda não tinha criado a Mindset Ventures, foi o primeiro investidor a apostar em Dubugras, cuja fortuna é estimada em US$ 1,5 bilhão.

Outro unicórnio no portfólio da Mindset Ventures é a Turing, empresa americana que permite a contratação de desenvolvedores remotos e atingiu uma avaliação bilionária em dezembro de 2021, após um aporte de US$ 87 milhões liderado pela Westbridge Capital.

A lista inclui ainda a Pecan.AI, uma startup israelense que captou com Insight e Google Ventures; a americana Eclypsium, que atua na área de cibersegurança e tem na base de acionistas a Andreessen Horowitz; e a americana Hologram, de internet das coisas, que levantou recursos com a Tiger Global.

Com o quarto fundo, a meta da Mindset Ventures é construir um portfólio que alcance R$ 1 bilhão em ativos, somando as participações que a gestora tem em startups desde o começo de sua operação, em 2016, quando seu primeiro fundo levantou US$ 3 milhões para testar a tese de investir fora do Brasil. O segundo, um ano depois, captou US$ 18 milhões.

Os sócios da Mindset Ventures chegaram a cogitar expandir a geografia de atuação neste novo fundo, deixando de ficar restritos à Israel e aos Estados Unidos. Mas chegaram à conclusão que contam com muitas oportunidades ainda de investimentos nesses dois países e resolveram não mexer na fórmula que, na visão deles, está dando certo.

O que vai mudar será o tamanho dos cheques. Eles ficavam, em média, em US$ 3 milhões, incluindo os follow ons. Agora, devem subir para um valor na casa dos US$ 5 milhões. Cerca de 40% do novo fundo será reservado para acompanhar outras rodadas. O alvo são startups em estágio inicial, em rodadas séries A.

A gestora ensaiou também uma estratégia de investir em startups mais maduras, via um SPAC (special purpose acquisition company). No fim do ano passado, a Mindset Ventures registrou documentos na Nasdaq para captar US$ 175 milhões para investir em uma foodtech. Mas recuou diante da mudança drástica do cenário do mercado.

O foco agora é o novo fundo que investirá em empresas de software B2B – a Mindset não aposta em hardware ou biotech. Outra premissa é seguir as rodadas de fundos locais dos Estados Unidos e de Israel. “Não competimos com os grandes fundos globais”, diz Ibri. “Nunca lideramos a rodada.”

Um dos atrativos para conseguir participar das rodadas é ser uma ponte para a empresa começar a operar no Brasil. Isso é especialmente importante para as startups de Israel, um país pequeno em que as startups começam a pensar em se internacionalizar no dia zero.

A Mindset Ventures já trouxe 10 startups de seu portfólio ao Brasil. Entre elas, estão as israelenses Taranis, que atua em agricultura de precisão, e a SeeTree, sistema para inspecionar plantações de frutas por drones.

Outra startup que chegou ao Brasil com o apoio da Mindset Ventures foi a americana PayJoy, que oferece crédito para pessoas físicas comprarem celular – a garantia do empréstimo é o próprio smartphone através de uma tecnologia que bloqueia o uso do aparelho se as mensalidades não forem pagas.

Mas só trazer as startups ao Brasil não é mais suficiente para conseguir participar de rodadas competitivas no exterior. Com o passar do tempo, a gestora criou uma área, que é comandada pela sócia Camila Potenza, de criação de valor às startups do portfólio.

A área atua no recrutamento (no Brasil e fora do País), em marketing e relações públicas, captação mais recursos com outros investidores e desenvolveu uma plataforma digital, com 38 parceiros, que oferece todo tipo de serviço, desde crédito na AWS até acesso à plataforma Dropbox.

Nemer Rahal se juntou aos sócios brasileiros em 2020, atuando na área de relações de investidores e na captação de recursos – 90% do dinheiro do terceiro fundo são de single e multifamily offices de famílias brasileiras. Rahal chegou com a experiência de ter sido sócio do Pátria Investimentos, onde atuou por 15 anos.

A gestora trouxe também outros sócios para reforçar seus braços internacionais. Em Israel, a Mindset Ventures já contava com Boaz Albaranes, que está na gestora desde 2017. Nos Estados Unidos, Jules Miller se juntou ao time em julho de 2020, vinda da IBM.

Mercado turbulento

O quarto fundo começará a ser captado em um momento turbulento no mercado global de venture capital, em que o valor dos ativos das empresas tech cotadas em bolsa de valores estão em queda livre – e nem as big techs estão passando imunes a esta correção de mercado.

No Brasil, as startups brasileiras captaram US$ 2,3 bilhões nos quatro primeiros meses de 2022, uma queda de pouco mais de 4% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o Distrito, um ecossistema independente de startups.

Essa leve queda deve-se ao fato de as principais gestoras estarem com dinheiro em caixa – o que no mercado se chama pelo jargão de dry powder. Por esse motivo, elas não estão parando os investimentos, só passaram a ser mais seletivas na análise dos novos aportes, reduzindo o valor dos cheques e a velocidade das captações.

Um investidor com quem NeoFeed conversou acredita que os fundos estabelecidos que buscarem recursos no mercado não devem ter dificuldades para conseguir mais dinheiro. “O Brasil já está na terceira ou quarta safra de investimentos em fundos”, diz esse investidor. “Faz parte da carteira dos investidores de longo prazo investir nessa classe de ativos.”

Mas ele alerta que uma gestora nova teria dificuldades. ”Vai ter menos dinheiro para times que estão indo pela primeira vez no mercado tentando captar um fundo”, afirma essa fonte.

A Mindset Ventures não é a única gestora que irá ao mercado em busca de dinheiro para a classe de ativos de venture capital. A Oria Capital, de Jorge Steffens, vai também começar a captar US$ 100 milhões para o seu quarto fundo.

A Barn Investimentos busca US$ 100 milhões para fazer mais aportes em greentechs. E a brasileira Futurum Capital está estruturando um fundo de 30 milhões de euros para investir em startups em Portugal – bem como levar empresas brasileiras para a Europa.

Outro fundo que está no mercado em busca de capital é o Upload Ventures, que surgiu do spin-off do fundo de early stage do Softbank, que será um importante limited partner da nova gestora.

Com sócios como Rodrigo Baer, Marco Camhaji e Norberto Giangrande, o Upload Ventures herdou o portfólio de 12 empresas do Softbank e busca US$ 300 milhões para investir em startup em estágio inicial na América Latina.

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