Na AES Brasil, um “choque de cultura” para brigar no mercado livre

À frente da companhia elétrica, Clarissa Sadock prepara a AES Brasil para disputar milhares de novos consumidores que vão ingressar no mercado livre de energia. A estratégia, detalhada ao NeoFeed, mira nas médias empresas

0
345
Leia em 6 min

Clarissa Sadock, CEO da AES Brasil. Ao fundo, o parque eólico de Alto Sertão II, na Bahia (montagem NeoFeed)

Desde que assumiu a AES Brasil (antiga AES Tietê), em janeiro de 2021, a executiva Clarissa Sadock comandou a migração da empresa de energia para o Novo Mercado da B3 e conseguiu captar R$ 1,12 bilhão em um follow on em setembro deste ano para investir em seu portfólio de energia renovável.

Agora, Clarissa está preparando a AES Brasil, controlada pela americana AES Corp., para uma briga que vai mobilizar boa parte das geradoras e comercializadoras de energia que atuam no Brasil nos próximos anos.

Trata-se da disputa pelo mercado livre, em que as empresas negociam a energia diretamente com geradoras e comercializadoras, que deve saltar dos atuais 9,5 mil clientes para mais de 170 mil em cinco anos, segundo estimativa da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

“As grandes geradoras, como nós, estão montando empresas varejistas para atender clientes de menor porte”, diz Clarissa, em entrevista ao NeoFeed. “É outro volume: precisamos de capilaridade e um time próprio.”

Atualmente, a AES Brasil conta com mais de 200 clientes nesse formato de contrato, chamados de ACLs (ambiente de contratação livre). São nomes como BRF, Ferbasa, Minasligas, Alcoa, entre outros.

Mas, para atender esse consumidor que vai ingressar no mercado livre nos próximos anos, a AES Brasil criou o Energia+, uma espécie de e-commerce para ajudar os clientes de menor porte a migrar para esse novo ambiente.

Não se trata de um “comércio eletrônico” tradicional em que basta clicar no item que se pretende comprar, colocá-lo no carrinho de compras, pagar e esperar a encomenda chegar a sua empresa. Ao contrário: o processo de migração não acontece da noite para o dia.

No Energia+, a AES Brasil desenvolveu uma ferramenta para simular os dados e comparar com o que seria gasto no mercado livre. O site permite a contratação do serviço, mas ela não é automática.

A migração para o livre demora, em média, 180 dias. Uma equipe técnica assume todo o processo, que depende da apresentação de dados e documentos às autoridades competentes. “A próxima onda será de serviços”, diz Clarissa. “Dentro da plataforma, queremos adicionar facilidades para ele otimizar e reduzir o consumo.”

Em média, a AES Brasil estima que a economia pode ser de 30% na conta de energia. Mas o custo varia em razão do tempo de contrato. Quanto mais longo, o cliente fica menos sujeito às variações do preço de energia – o estresse hídrico desse ano, por exemplo, elevou os preços do mercado livre.

Flexibilização

Até agora, apenas os grandes consumidores de energia são elegíveis a esses contratos, como indústrias e shopping centers, que consomem uma grande quantidade de energia por conta de suas atividades.

Mas esse cenário vai mudar com a flexibilização que está em curso. Há dois tipos de consumidores no mercado livre. O primeiro deles pode contratar qualquer tipo de fonte de energia, desde grandes hidrelétricas e termoelétricas até gás natural.

E a carga mínima para esse consumidor operar vem caindo ano após ano. Em 2019, era 2,5 MW (megawatt). Em 2020, caiu para 2,0 MW. Neste ano, está em 1,5 MW. E, em 2023, a previsão é chegar a 500 kW. Para se ter uma ideia, 1 MW é capaz de abastecer aproximadamente 1,5 mil casas.

O outro tipo de consumidor são aqueles com carga mínima que vai de 500 kW até 1,5 MW. Mas, neste caso, ele só pode adquirir energia de fontes incentivadas, como pequenas centrais hidrelétricas, solares, eólicas e biomassas, como bagaço de cana.

Esse é um mercado que já poderia ser muito maior se as empresas de energia estivessem preparadas para atender os consumidores de médio porte. Segundo um estudo da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), 70 mil unidades consumidoras que já poderiam migrar para o modelo de compra de energia diretamente de um gerador ou de uma comercializadora.

Se essa migração tivesse ocorrido, a participação do mercado livre no Sistema Interligado Nacional (SIN) passaria dos atuais 32% para 40,2%. O mercado livre, com a flexibilização das regras, no entanto, tem potencial de absorver quase 60% do consumo de energia do País, segundo a CCEE. “É, sem dúvida, o futuro”, diz Clarissa.

Por esse motivo, o número de elétricas interessadas em ganhar uma fatia desse mercado para atender pequenos consumidores não para de crescer. Atualmente, são 36 empresas habilitadas, de um total de 433 comercializadoras, segundo a CCEE. Além da AES Brasil, Omega, Engie, EDP, Cemig e Compass fazem parte da lista de interessadas em ganhar um lugar ao sol (ou ao vento?) neste mercado.

Aposta renovável

A aposta da AES Brasil para conquistar esses clientes é seu portfólio de energia renovável, um apelo em alta nessa época em que a sigla ESG (environmental, social and corporate governance) entrou na pauta da maioria das empresas independentemente de seu porte.

Essa estratégia começou em 2015, quando a AES Brasil começou a reestruturar seus negócios. Com a venda da AES Sul para a CPFL em 2016 e da AES Eletropaulo para a Enel em 2018, a companhia se desfez dos negócios de distribuição e passou a ter foco total em gerar energia.

A AES Brasil administra atualmente 11 usinas hidrelétricas, cinco complexos eólicos nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia e dois solares, localizados em São Paulo e Minas Gerais. “Aproximadamente 60% da nossa capacidade instalada está ainda nos ativos hídricos”, afirma Clarissa. “Mas deve ficar abaixo dos 50% nos próximos cinco anos.”

Para atingir esse número, a AES Brasil tem concentrado os seus investimentos na energia solar e, principalmente, na eólica. Atualmente, a empresa está construindo 704 megawatts. No período de 2021 a 2025, a companhia planeja investir aproximadamente R$ 3,5 bilhões. Clarissa diz que cada megawatt tem um custo de R$ 6 milhões.

“Acreditamos que a empresa tenha um balanço energético mais confortável para lidar com o GSF [medida de risco hidrológico] em 2022 graças aos seus volumes hídricos não contratados e ao crescente papel das fontes renováveis (principalmente eólica)”, escreveram Marcelo Sá, Fillipe Andrade e Luiza Candiota, analistas do Itaú BBA, em relatório sobre a AES Brasil, no começo de dezembro.

O trio de analistas acrescentou ainda que a AES Brasil “tem um pipeline sólido daqui para frente, e depois da recente reestruturação, tem mais poder de fogo para crescer ”. De acordo com eles, a AES Brasil vem aumentando sua capacidade renovável, com 3.684 MW de capacidade já operacional, 966 MW em construção e um pipeline de 1,2 GW a ser desenvolvido.

“Esperamos que a capacidade instalada total da AES Brasil alcance 4.573 MW em 2024, com as energias renováveis ​​representando 42% da capacidade operacional e 53% de seu Ebitda.”

A AES Brasil vale R$ 5,8 bilhões na B3. Nos nove primeiros meses de 2021, a receita líquida foi de R$ 1,8 bilhão, alta de 20,3%. O lucro líquido atingiu R$ 551,3 milhões, avanço de 124,6%. Desde que os papéis migraram para o Novo Mercado, no fim de março deste ano, eles acumulam queda de quase 40%.

Leia também

Brand Stories