Na Pipe, a ajuda humanitária vira roupa

O conceito da marca de moda casual de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, envolve uma frente de viagens socioculturais e humanitárias com a participação de clientes em destinos como Haiti, El Salvador e Amazônia

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A cada viagem são produzidos documentários e fotos como este registro do Kuarup, no Xingu

Viagens de captura de tendências para montar uma nova coleção são uma prática recorrente na indústria da moda. Mas elas podem ocupar um espaço muito maior que esse e ser, por exemplo, a motivação do surgimento de uma grife, como no caso da Osklen. O fundador Oskar Metsavaht começou a desenvolver casacos de neve para enfrentar uma escalada no Aconcágua, uma vez que não havia na época roupas apropriadas para a aventura no país.

A Pipe Content House, nascida em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, trilhou outro caminho para conceituar e “dar alma” a suas criações de moda: transformou o que seriam incursões meramente de observação em expedições com impacto social.

Para tanto, criou a Pipe World Tour (PWT): série de viagens de cunho sociocultural organizadas pelo fundador da Pipe, o artista plástico Bruno Gomes, e que até hoje pauta as coleções a partir das vivências em destinos nacionais e internacionais como Peru, Haiti, Índia e África do Sul.

Originalmente masculina (com 80% dos produtos) e vegana, a Pipe é uma marca de moda casual, sem preocupação com tendências fashionistas. Mas sempre referenciada em “conteúdos e práticas socioambientais responsáveis” para que as pessoas possam “usar aquilo que acreditam”.

A primeira expedição do PWT nasceu de maneira despretensiosa, em 2007. “Achei que criar uma coleção só por criar seria sem graça”, diz Bruno – que hoje não faz mais parte da sociedade da Pipe, mas se mantém como designer da marca. Uma viagem de carro para o Peru foi então idealizada para trazer mais do que referências criativas, mas ampliar o repertório cultural do artista.

Em 2012, os integrantes da expedição no Haiti participaram da construção de casas depois do terremoto

Na ocasião, a equipe da marca e amigos viajaram cerca de 11 mil km de São José do Rio Preto até Machu Picchu. A pouca experiência na organização de viagens rendeu alguns percalços – como uma noite dormida ao relento, por falta de reserva em hotel – mas trouxe vivências que só seriam possíveis saindo do conforto do escritório.

“Foi algo transformador e que passou a fazer parte do conceito da Pipe”, diz Bruno, que deixou a sociedade em 2018. Atualmente, a marca tem como sócios André Neves, Gabriel Neves e Rodolfo Ignatowicz.

Desde a fundação, a marca já realizou expedições para: Marrocos (2007), Vietnã (2008), Cuba (2009), Austrália (2010), Xingu (2011), Índia (2011), Nova Zelândia (2012), Haiti (também em 2012), El Salvador (2013), Amazônia (2014), Atacama (2016), Ushuaia (2018), Itália (2018), Chamonix (2019), África do Sul (também em 2019). Em função da pandemia, eles não viajaram em 2020 e 2021, mas já estão debruçados na elaboração de um roteiro que deverá ser no Hawaí este ano.

Ao longo do tempo, elas agregaram, além da equipe Pipe, amigos, clientes e fornecedores da marca interessados em fazer trabalho voluntário, uma vez que parte das expedições também tiveram o caráter de ajuda humanitária, como no caso do Haiti.

No país, que havia sofrido um terremoto em 2010, os integrantes da PWT ajudaram a reconstruir casas, além de levar doações de roupas. Em El Salvador, ao lado da ONG americana Homes from the Heart, os expedicionários participaram do projeto de desenvolvimento do artesanato local para empregar principalmente as mulheres da região.

Gabriel Neves, um dos sócios da Pipe: expansão para as capitais e 10 lojas até o fim deste ano

“De cada um desses lugares, nós trouxemos muito mais do que ideias para coleções: tivemos lições de vida”, afirma Gabriel Neves, que acredita que a PWT ajuda a fidelizar os clientes à marca. “Sabemos que não estamos vendendo apenas um produto”, afirma o executivo, que aposta na adesão da clientela ao que chama de “valores reais”.

“Somos simples e imperfeitos, enxergamos a moda como uma maneira de expressão, mas não queremos impor nenhum estilo”, diz. “Nossos clientes viram amigos”, completa Neves, que entrou na empresa em 2011, após deixar o trabalho no mercado financeiro.

Em cada uma das viagens, o grupo produz documentários e fotos que são exibidos nas lojas como acervo cultural e conceito das coleções. A fórmula tem dado resultado e a Pipe está em processo de expansão. Pretende fechar o ano com sete lojas próprias e três franquias, além de lançar sua primeira linha de calçados veganos. Esse ano vai desembarcar em São Paulo e Curitiba.

Hoje a rede conta com seis lojas, sendo quatro próprias no estado de São Paulo (Campinas, Ribeirão Preto, Piracicaba e São José do Rio Preto) e duas no Paraná (Londrina e Maringá), além de duas franquias no Rio (uma delas recém-inaugurada no Barra Shopping), e-commerce próprio e venda em multimarcas. Em 2021, a Pipe faturou R$ 12 milhões e estima chegar a R$ 21 milhões este ano.

A pandemia testou a solidez do negócio. “Mas reagimos rápido apostando nas vendas on-line e, principalmente, nos contatos via whatsapp com os clientes das lojas físicas, que estavam fechadas”, diz Neves.

Camiseta da coleção da expedição à África do Sul

“Formamos uma equipe para se dedicar ao atendimento pela ferramenta, que respondia os clientes até de madrugada, se fosse preciso.” Por conta disso, em 2021, 25% das vendas das lojas físicas foram feitas via whatsapp.

Para além das referências multiculturais, a Pipe quer se diferenciar pela opção de não ter produtos de matéria-prima animal e pela produção toda feita no Brasil – são mais de 30 fornecedores homologados. “Pagamos um preço por isso: nossa margem de lucro é menor do que a de nossos concorrentes”, afirma Neves. “Mas queremos fortalecer a cadeia têxtil nacional.”

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