O novo fundo brasileiro que está montando um menu global de startups

Criada por Daniel Chor, ex-Multiplan, Alexandre Icaza, ex-Sack’s, e Felipe Krelling, ex-IBM, a Lifely é focada em proteínas alternativas e já investiu em 12 startups de países como EUA, China e Estônia

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O filé mignon plant based da Juicy Marbles, uma das investidas da Lifely

No último dia 23 de fevereiro, a Wildtype, startup americana que produz frutos do mar a partir de células de salmão selvagem do Alasca, captou US$ 100 milhões em uma rodada série B, liderada pela gestora L Catterton.

Em mais um sinal do apetite crescente por esses modelos alternativos, o aporte também fisgou fundos como o Bezos Expeditions, de Jeff Bezos, da Amazon; o Temasek, fundo soberano de Cingapura; e o Footprint Coalition, do ator Robert Downey Jr., além de Leonardo DiCaprio, outro astro de Hollywood.

Ao lado desse elenco estrelado, um nome pôs um tempero brasileiro na rodada: a Lifely, fundo de venture capital voltado a startups de proteínas alternativas. E que com apenas seis meses de operação, já tem um menu de 12 investidas em países como Estados Unidos, China, Austrália, Estônia e Eslovênia.

“Nossa tese é investir em startups que eliminam a necessidade dos animais nas cadeias produtivas, seja em alimentos, cosméticos, moda ou outros setores”, diz Daniel Peres Chor, sócio da Lifely, ao NeoFeed. “Com nosso primeiro fundo, o plano é ter entre 20 e 25 investidas no portfólio até o fim de 2023.”

Um dos idealizadores do fundo, Chor liderava, até pouco tempo, o Mind, braço de inovação da Multiplan, administradora de shopping centers. Além de ter bagagem como empreendedor, à frente de startups como a Tropix, marketplace de arte digital baseado em NFTs.

A Lifely começou a ser gestada em maio de 2021, quando Chor passou a trocar figurinhas com Felipe Krelling, um cientista de dados, ex-IBM e ex-advisor do The Good Food Institute (GFI), organização sem fins lucrativos que promove alternativas aos alimentos de origem animal.

Meses depois, a dupla convenceu Alexandre Icaza a embarcar no projeto. Entre outras passagens, ele é fundador da holding I5 e vendeu a loja virtual de cosméticos Sack’s ao grupo francês LVMH, em 2010.

Com a chegada do novo sócio e essas credenciais, a Lifely nasceu, de fato, em setembro de 2021. E para levar à frente seu plano de investimentos, começou a levantar um primeiro fundo.

Daniel Peres Chor, sócio da Lifely

“Nesse momento, o que estamos criando é quase um clube de investimentos, com poucos investidores e family offices que corroboram a nossa tese”, explica Chor. “Nesse primeiro veículo, a ideia é captar até US$ 20 milhões.”

O leque de investidores que já comprou essa ideia também traz nomes de peso. Entre eles, José Isaac Peres, avô de Chor e fundador da Multiplan; José Olympio Pereira, ex-CEO do Credit Suisse no Brasil; e a Frescatto, empresa brasileira de pescados.

“Já captamos 60% desse fundo e investimos em torno de 25% desses recursos”, diz Krelling, managing partner da Lifely. “Esse setor ainda é um universo paralelo, um oceano azul, com poucos fundos dedicados.”

As conexões de Krelling com esse ecossistema, uma herança de sua passagem pelo GFI, estão abrindo portas. A Lifely mapeia oportunidades a partir do acesso a uma rede global de empreendedores, fundos de venture capital, aceleradoras, incubadoras e universidades ligadas ao tema.

Com aportes de até US$ 700 mil e disposição para acompanhar novas rodadas, o fundo participa de aportes pré-seed, em startups já com produtos provados e preparadas para escalar, até pré-série A. “Essa curva faz todo sentido com o estágio atual do setor”, afirma Krelling.

A Wildtype, de salmões criados a partir de agricultura celular, levantou US$ 100 milhões em uma rodada série B

Ele cita que pioneiras em alimentos plant based, como a Beyond Meat, que abriu capital em 2019, e a Impossible Foods, que já atraiu US$ 2,1 bilhões de fundos como Temasek e Coatue, abriram caminho para novos modelos e tecnologias.

“Os primeiros investidores da Beyond Meat e da Impossible Foods fizeram múltiplos absurdos com esses ativos”, afirma. “E nós estamos olhando para a nova geração de startups que vai ser o futuro dessa indústria.”

Ingredientes da tese

Para investir naquela que pode ser a próxima Beyond Meat, a Lifely se concentra em três segmentos. O primeiro é justamente o de alimentos plant based. Um dos nomes na prateleira do fundo é a Juicy Marbles, da Eslovênia.

Entre outros produtos, a foodtech desenvolveu um filé mignon à base de plantas que replica o sabor e a textura do corte de origem animal. Fundada em 2019 e presente na Europa e nos Estados Unidos, a startup já atraiu investidores como a Y Combinator e prepara uma nova captação.

Uma segunda frente inclui a agricultura celular, que permite isolar células para desenvolver carnes, leites ou outros produtos sem a necessidade de criar, abater e processar animais.

“Em vez de criar um boi e esperar até três anos para o abate e ter poucos quilos de picanha, você usa as células da melhor raça e produz a carne diretamente em um biorreator”, explica Krelling. “Você preserva o animal, a carne fica pronta em menos tempo e você usa menos terra e água.”

Além do salmão da Wildtype, o cardápio da Lifely em agricultura celular não se restringe aos alimentos. Ele inclui, por exemplo, a americana Jellatech, que desenvolveu um colágeno a partir desse conceito.

A terceira área na mira do fundo são as startups que exploram a fermentação. Essa técnica usa microrganismos como bactérias e fungos para refazer propriedades de produtos de origem animal. Entre as investidas estão a americana Bond Pet Foods.

A empresa usa a fermentação na criação de rações para pets e fechou uma parceria recente com a Hill’s Pet Nutrition, uma das gigantes do setor. Outro exemplo é a também americana Bucha Bio, que cria produtos com alternativas a materiais como o couro.

A Bond Pet Foods usa a fermentação para desenvolver rações para pets

Com essas e outras startups, a Lifely está se posicionado em segmentos que, apesar de recentes, avançam rapidamente. Segundo a Bloomberg Intelligence, o plant based, por exemplo, vai representar 7,7% do mercado global de proteínas em 2030, com uma receita de mais de US$ 162 bilhões.

“Se pensarmos no roadmap de todas essas tecnologias, não estamos falando com nichos, como os veganos e flexitarianos”, ressalta Krelling. “E sim do mercado de carne como um todo, que movimenta mais de US$ 1,6 trilhão. São espaços como esse que essas startups querem atacar.”

Para ele, esse avanço também vai ser impulsionado pelo fato desses modelos serem mais eficientes, em linha com a demanda crescente pelos princípios do ESG. “O mundo abate mais de 70 bilhões de animais por ano”, diz. “Ao mesmo tempo, um bilhão de pessoas passam fome. É uma equação que não fecha.”

Como um ingrediente adicional, a Lifely entende que esse cenário trará como reflexo um alto potencial de valorização para quem investe na área.

“Nessa maturação do setor, vemos duas opções de saída. Um é o IPO, lá na frente”, diz Chor. “Outro é um early exit, dado que essas empresas vão ser cada vez mais alvo de aportes e aquisições, seja de startups maiores, de investidores ou de grupos tradicionais.”

A própria Lifely já tem exemplos em seu portfólio. Um deles é a Cultured Decadence, de frutos do mar. Em janeiro, a startup foi comprada pela Upside Foods. Ao seguir na operação, o fundo brasileiro valorizou seu cheque e passou a ter como sócios nomes como Softbank, Bill Gates e Richard Branson.

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