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O que pode travar a retomada econômica, na visão do presidente do Credit Suisse

Em entrevista ao NeoFeed, José Olympio Pereira, presidente do Credit Suisse no Brasil, fala sobre os riscos de a retomada não acontecer, a urgência da necessidade de vacinação em massa, a expectativa para a Bolsa, os setores que devem entrar no mercado de capitais, investimento estrangeiro e muito mais

 

José Olympio Pereira, presidente do Credit Suisse no Brasil

José Olympio Pereira, presidente do banco Credit Suisse no Brasil, instituição com cerca de R$ 350 bilhões em ativos sob custódia, tem acompanhado – e participado ativamente – da evolução do mercado de capitais no País nas últimas décadas. Além, é claro, de transitar com desenvoltura entre os maiores empresários brasileiros e os ocupantes de altos cargos em Brasília.

Sua opinião sobre os rumos do País tem, portanto, um grande peso. E ele alerta para o risco de a tão falada retomada econômica não acontecer, caso o Brasil não comece logo a vacinar a população. “Esse deveria ser o grande foco do País nesse momento”, diz Olympio ao NeoFeed.

“O México, a Argentina e o Chile estão vacinando. Estamos ainda sem conseguir começar a nossa vacinação, com muita ‘bateção’ de cabeça, uma lástima. A vacinação não só protege as pessoas como permite a recuperação da economia, a volta à normalidade”, afirma.

Na opinião dele, só uma ampla vacinação poderá conter o avanço da Covid-19 e diminuir a frágil situação fiscal do País. “Como a gente faz se tiver um novo lockdown e precisar, de novo, dar auxílio emergencial? O Brasil não tem mais condições para isso”, diz o banqueiro.

Nesta entrevista exclusiva ao NeoFeed, Olympio fala sobre o cenário nos Estados Unidos, os desafios macroeconômicos do Brasil, privatizações, investimentos estrangeiros, aberturas de capital, fusões e aquisições, a saída de um grupo de executivos do banco da área de wealth management, a competição com as empresas digitais e os setores que podem movimentar a Bolsa neste ano.

Olympio, que é membro do conselho da Fundação SOS Mata Atlântica há mais de duas décadas, também aponta para os riscos ambientais e que o governo brasileiro deveria se atentar para isso. “Isso é muito sério. Estamos sendo cobrados pelos nossos parceiros não só comerciais como investidores sobre a responsabilidade ambiental”, afirma. Acompanhe a entrevista:

Tudo o que acontece nos Estados Unidos reflete na nossa economia. Como você enxerga os mais recentes eventos no país, como a invasão do Capitólio e o pedido de impeachment de Donald Trump?
Estou enxergando com muita perplexidade. É o reconhecimento de que há um país bastante dividido e polarizado, o que é muito ruim. Mas, ao mesmo tempo, acho que o Trump se excedeu e, com a atitude dele, perdeu um apoio importante dentro do próprio partido republicano. Mesmo assim, vejo isso tudo com preocupação porque, no fim do dia, ele teve 75 milhões de votos, tem um percentual da população americana que reza da cartilha dele e não se sabe o que isso vai causar.

E em relação às discussões sobre a vacinação aqui no Brasil, qual é a sua opinião?
Precisamos aplicar as vacinas. Com relação ao Brasil, os fatos falam por si. Se você olhar nossos pares na América Latina, o México, a Argentina e o Chile estão vacinando. Estamos ainda sem conseguir começar a nossa vacinação, com muita “bateção” de cabeça, uma lástima. A vacinação não só protege as pessoas como permite a recuperação da economia, a volta à normalidade. O Roberto Campos Neto (presidente do BC) colocou, de uma forma muito feliz, que vacinar é muito mais barato do que dar auxílio. Acho que todos os nossos esforços tinham de estar em vacinar a maior parte da população no menor prazo possível. Esse deveria ser o grande foco do País nesse momento.

E, mesmo com todas essas questões, a Bolsa continua subindo…
Em relação à Bolsa, temos uma injeção de recursos mundial gigante, temos juros ou zero ou negativos no mundo inteiro, o que causa um movimento para ativos alternativos e bolsa é o primeiro deles. Aqui no Brasil estamos surfando a onda de fora. E é curioso.

“Todos os nossos esforços tinham de estar em vacinar a maior parte da população no menor prazo possível. Esse deveria ser o grande foco do País nesse momento”

Por quê?
Porque a gente surfa a onda na Bolsa, mas os comportamentos do câmbio e dos juros estão descolados da Bolsa. Tivemos uma piora grande no câmbio, nas duas primeiras semanas do ano, nossa moeda já tem a pior performance, os juros abriram bastante. Isso também devido a fragilidade fiscal na qual a gente se colocou. Então, temos uma situação dicotômica no Brasil: juros negativos no CDI, juros de longo prazo ainda muito baixos e busca por ativos alternativos. Do ponto de vista de moeda e juros, o juro atual não remunera o investimento aqui. No passado, havia muito fluxo de investimento estrangeiro em título público brasileiro, para a nossa moeda. Isso a gente não vê mais.

Você tocou na questão da fragilidade fiscal do Brasil. O País precisa resolver isso. Qual é a solução?
Sem dúvida, a questão fiscal é a grande geradora de preocupação. E a questão de saúde não está descolada da questão fiscal. O número de casos e óbitos por conta do coronavírus voltou a níveis recordes. Como a gente faz se tiver um novo lockdown e precisar, de novo, dar auxílio emergencial? O Brasil não tem mais condições para isso. No ano passado, se você olhar o nosso auxílio versus a nossa situação fiscal, fomos excessivamente generosos. A dívida cresceu 15% do PIB nesse período. A gente não tem mais condição de aumentar a dívida e sair gastando. Mas, ao mesmo tempo, o que você faz se tiver lockdown? Então, é uma situação complicada que podemos nos meter. A solução para ela, volto a esse ponto novamente, é vacinar e segurar a expansão da Covid.

Mas não é de hoje que se fala do problema fiscal no Brasil. De quem é a culpa por isso não ser resolvido, do governo ou do legislativo?
Acho que é uma combinação. Vamos analisar que essa questão já era um problema pré-pandemia. E esse diagnóstico estava muito claro para a equipe econômica. Em 2019, tivemos a aprovação da reforma da previdência, que foi importante. Ao mesmo tempo, tinha também o programa de redução do tamanho do Estado, que foi realizado até certa parte. Temos que reconhecer as vendas de participações que a Caixa Econômica e o BNDES fizeram da ordem de dezenas de bilhões de reais. A gente gostaria de ter visto mais privatizações de empresas grandes e importantes. A principal delas é a Eletrobrás, que estava na pauta desde o governo anterior. Acho que, por dificuldades tanto do legislativo e do executivo, não conseguimos progredir com essa pauta. Por outro lado, tivemos a nova lei do saneamento que trouxe um movimento importante de concessões. Agora, a gente sempre quer mais e mais rápido. Eu compartilho da frustração do ministro Guedes (Paulo Guedes, ministro da Economia) de que poderíamos ter feito mais.

“Como a gente faz se tiver um novo lockdown e precisar, de novo, dar auxílio emergencial? O Brasil não tem mais condições para isso”

Faltou habilidade para o ministro Paulo Guedes na hora de negociar?
Fica difícil julgar porque não estou do lado dele. Acho que faltou um convencimento maior da nação da importância desses movimentos. Uma mobilização coletiva do governo e da sociedade para mostrar a importância disso ao Legislativo que, em última instância, é quem tem o poder de aprovar.

Quando perguntados sobre o fim do auxílio emergencial, muitos membros do governo afirmam que a retomada econômica vai suprir a ausência do auxílio. Diante do aumento do número de casos da Covid-19, você acha que essa retomada está em risco?
Acho, é claro. Se continuarmos a ver os números subindo, o que vai se fazer? Há um risco, sim. Por isso que atribuo tanta importância para a vacinação. A solução definitiva é a vacinação. Temos de iniciar esse processo o mais rápido possível.

Falando novamente de Bolsa, no ano passado, vimos um recorde de IPOs. Você acredita que teremos esse mesmo cenário neste ano?
Acredito, sim. Os mesmos fatores que levaram ao aumento de IPOs continuam presentes: baixa taxa de juros e o tamanho pequeno do nosso mercado acionário. Então, existe uma demanda grande por histórias novas. No ano passado, a Bolsa acabou o ano perto do zero a zero, um pouquinho para cima, mas você vê vários fundos de ações com performances extraordinárias. Isso é justamente escolhendo empresas e não investindo no índice. Ora, quanto mais empresas você tiver para escolher, mais oportunidades você dá aos gestores de recursos. Para você olhar o quão receptivo o mercado está para IPOs, você tem sempre que olhar para a performance dos IPOs recentes. Está ganhando dinheiro com IPO? Foi um bom negócio comprar IPO?

E foi?
Em algum período do ano passado, não foi. A grande maioria estava debaixo d’água. Vários papéis já recuperaram. Tivemos IPOs gigantes como o da Rede D’Or, que performou muito bem, e mesmo IPO pequeno, que tivemos a honra de fazer, que foi o da Neogrid, foi um sucesso, a ação subiu mais de 50% depois. Essas experiências positivas reforçam o apetite por novas operações.

Quais setores vão buscar mais a Bolsa?
Um setor que acho pouco representado na Bolsa é o do agronegócio. Poderíamos ter mais empresas desse setor. Mas todos vão entrar. A gente viu neste ano varejo, tecnologia, saúde. E, quanto mais bem sucedido é um IPO de um determinado setor, mais demanda você tem por outras história do mesmo setor. Rede D’Or foi um sucesso inacreditável no segmento hospitalar. Não tenho dúvidas que no vácuo dela virão outras do mesmo setor.

“Um setor que acho pouco representado na Bolsa é o do agronegócio. Poderíamos ter mais empresas desse setor”

O setor de M&As vai continuar aquecido?
Vimos situações importantes no ano passado, como o movimento da Stone com a Linx. Agora a Hapvida com a NotreDame Intermédica. As previsões de ganhos de sinergia publicadas pelos analistas são enormes. Acho que vão continuar acontecendo em setores onde há espaço para consolidação e não esbarram em restrições previstas pelo Cade.

No fim do ano passado, os investidores estrangeiros começaram a voltar. Você acha que é para ficar?
O que assistimos, na maior parte do ano, foi a substituição do investidor estrangeiro pelo investidor local. Nos dois últimos meses do ano, teve uma reversão dessa tendência com dinheiro entrando. Se vai continuar, depende do cenário externo e da nossa situação, do que vai acontecer aqui dentro. Se não tiver muita marola aqui dentro e o cenário externo continuar bom, o dinheiro vai continuar vindo.

Quando o presidente diz “que o País está quebrado e não pode fazer nada” não atrapalha para trazer recursos do exterior?
Acho que essa questão é um reconhecimento da nossa fragilidade fiscal, e é importante reconhecer isso. Talvez não tenha sido articulado da melhor forma, mas nós temos uma fragilidade fiscal que tem de ser endereçada. Todo mundo sabe disso. Nós, obviamente, não estamos quebrados, mas também temos uma fragilidade fiscal importante e, por conta disso, não podemos sair gastando tudo o que gostaríamos.

“Se não tiver muita marola aqui dentro e o cenário externo continuar bom, o dinheiro vai continuar vindo”

Falando da operação do Credit Suisse, no ano passado alguns executivos deixaram a área de wealth management do banco e há uma disputa grande por talentos nessa área com BTG, XP e outros. Isso mexeu com o banco?
Tem que fazer uma distinção do segmento que estamos, de private banking, de pessoas físicas mais afluentes, desses outros segmentos mais digitais, de agentes autônomos e etc, com esses competidores como BTG Digital e XP, que não é o nosso. Na nossa parte de private banking, tivemos esse movimento de mudança de liderança que ensejou a saída de um pequeno grupo de profissionais que a gente rapidamente repôs, business as usual. Sempre que acontece isso, é interessante porque você tem sempre uma oportunidade de melhorar, rever processo e oxigenar a estrutura. Foi o que fizemos. Estou muito feliz com a equipe que a gente tem, com a qualidade dos talentos que vieram para cá e muito animado com o momento que o banco está vivendo.

Essa troca não gerou ruído entre os clientes?
Gerou, sim, é natural. Obviamente, a administração sênior do banco teve um papel importante de tranquilizar a nossa clientela. Eu, o Ilan (Ilan Goldfajn) e outros profissionais estivemos bastante ativos em dizer que o interesse dos clientes estava preservado. E, vamos combinar, é a saída de 12 pessoas num grupo que tem 150. Então, ninguém ficou manco.

Você falou dos concorrentes, de suas plataformas digitais para o varejo, mas eles estão montando operações mais robustas. A própria XP levou o José Berenguer, que era presidente do J.P. Morgan, para comandar seu banco…
Nós estamos vendo, e esse é um fenômeno muito saudável, novas instituições financeiras emergindo. É interessante porque você tem situações distintas. Tem aquelas que entraram com um produto e estão diversificando suas ofertas. Stone e PagSeguro entraram via adquirência e estão se diversificando. XP, que começou como plataforma de investimentos, e está ampliando suas atividades. O Nubank, que entrou com cartão de crédito, e comprou uma plataforma de investimentos. E tem outros que começaram mais completos, como o C6 e o Banco Inter. Isso é extremamente salutar para o mercado, a gente tinha uma concentração bancária muito grande e isso cria mais competição no sistema. Faz parte, a concorrência está aí e, sinceramente, isso é bom. Ajuda a gente a estar sempre estar melhorando, estar na ponta dos cascos.

A compra de participação no Modalmais está em linha com esse novo cenário digital?
A gente ainda não comprou. Fizemos uma parceria estratégica com eles pela qual temos o direito de comprar até 35% do banco. Estamos explorando as sinergias existentes entre o nosso negócio e o deles, que são basicamente a capacidade de a gente originar produtos financeiros para serem distribuídos na plataforma do Modalmais e utilizar a tecnologia deles para oferecer essas plataformas digitais para os nossos clientes mais afluentes.

E a questão do ESG, o mercado está, de fato, engajado com isso?
Vou te dizer do ponto de vista de quem é um defensor e amante do meio-ambiente há muito tempo, participo do conselho da Fundação SOS Mata Atlântica há 23 anos. Estou muito feliz em ver a importância que o ESG ganhou no mundo. Não é uma moda que vai passar, veio para ficar. É muito gratificante ver o setor do agronegócio e o meio-ambiente, que sempre viveram às turras, se dando os braços e trabalhando em conjunto por uma causa comum. O agronegócio entendeu que, se a gente quiser continuar a ser fornecedor de alimentos para o mundo, temos de ter responsabilidade não só para os nossos produtos serem bem aceitos como também para não mudar o ciclo de chuvas da Amazônia e o nosso Cerrado virar um deserto.

Faltam ativos no Brasil com esse foco?
No ano passado, fizemos um financiamento em conjunto com o Santander para uma empresa, a FS Bio, que foi um dos primeiros financiamentos verdes. A taxa do financiamento caía de acordo com as performances ambientais ligadas ao negócio dela. Isso só vai crescer. A Klabin acabou de fazer um green bond, participamos do green bond do BTG Pactual. Estou feliz com isso e, cada vez mais, líderes empresariais e investidores serão continuamente cobrados por isso.

“O governo precisa entender a importância do meio-ambiente e o impacto que isso tem na imagem do Brasil no exterior. Isso é muito sério”

Como você avalia a atuação do governo em relação ao meio-ambiente?
Vou me ater aos fatos: é uma lástima. O governo precisa entender a importância do meio-ambiente e o impacto que isso tem na imagem do Brasil no exterior. Isso é muito sério. Estamos sendo cobrados pelos nossos parceiros não só comerciais como investidores sobre a responsabilidade ambiental.

Para terminar, na sua opinão, quais são os grandes desafios do País neste ano?
Número um, dois e três é atacar a Covid-19 via uma vacinação em massa. Se você resolver bem esse problema, os outros ficarão mais fáceis. Não vai precisar de lockdown, não vai precisar de gastos. Nesse momento, a grande prioridade do País é saúde, vacinação.

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