O que está por trás do “melhor trimestre da história” de JBS, Suzano, BTG e Positivo?

As quatro empresas registraram o melhor desempenho de suas trajetórias como companhias listadas no segundo trimestre de 2021. Do preço das commodities ao câmbio favorável, da digitalização à diversificação de portfólio e de geografias, uma série de fatores ajuda a explicar essas máximas históricas

0
505
Leia em 9 min

Antes da Olimpíada de Tóquio, um dos temas discutidos era o impacto que o atraso de um ano, devido à Covid-19, teria no desempenho dos atletas. A resposta veio com o fim do evento, realizado entre 23 de julho e 8 de agosto:: das piscinas às pistas, foram 67 recordes olímpicos e 18 mundiais.

No mesmo período, mas bem longe dali, outra coleção de resultados era aguardada com bastante ansiedade: a temporada de balanços das empresas no segundo trimestre, período no qual as restrições e números de mortes e internações pela Covid-19 começaram a recuar no País.

Encerrada na segunda-feira, 16 de agosto, essa agenda trouxe um saldo surpreendente. Mesmo sob esse ambiente extremamente adverso, empresas como JBS, Suzano, BTG Pactual e Positivo Tecnologia não só cresceram sobre a base, muitas vezes fraca, do mesmo período de 2020, como foram além e registraram o melhor trimestre de suas histórias.

Uma série de fatores ajuda a explicar os recordes obtidos em indicadores como lucro, receita e Ebitda. Do impulso dos novos padrões de consumo ao preço das commodities e o câmbio favorável, passando por internacionalização e diversificação de portfólio.

Um componente, no entanto, parece unir essas histórias: todas elas têm origem em estratégias e planos que começaram a ser executados bem antes da pandemia.

“Nós vínhamos realizando muitas coisas nos últimos anos”, afirma Guilherme Cavalcanti, CFO global da JBS, em entrevista ao NeoFeed. “E isso fez que nós conseguíssemos aproveitar os ventos a favor com mais intensidade.”

Entre abril e junho, a JBS reportou um lucro líquido recorde de R$ 4,4 bilhões, alta de 29,7% na comparação anual. Em outras máximas históricas para a companhia, o Ebtida ajustado foi de R$ 11,7 bilhões e a receita líquida de R$ 85,6 bilhões, saltos de 10,3% e de 26,7%, respectivamente.

Os ventos favoráveis para a empresa sopraram, especialmente, a partir dos Estados Unidos. A operação no país se beneficiou de fatores como o preço “bem comportado” do gado, a maior demanda por carne bovina e a recuperação nos canais de food service, que impactaram positivamente o negócio de frangos.

Com uma operação que foi ganhando peso a partir de diversas aquisições, o desempenho em solo americano ajudou a JBS a compensar o cenário e os resultados menos positivos em mercados como o Brasil, onde a empresa registrou uma queda de 63,4% no Ebitda, para R$ 439,4 milhões, e Austrália.

“Isso mostra a beleza do modelo da companhia, que é a diversificação de geografias e de proteínas”, afirma Cavalcanti. “Se o cenário é positivo, você se beneficia com mais intensidade. Mas se o vento é contrário, você também tem um bom hedge para a sua operação.”

Entre abril e junho, a JBS reportou um lucro líquido recorde de R$ 4,4 bilhões, alta de 29,7% na comparação anual

Atualmente, 47% da receita reportada pela JBS vêm dos Estados Unidos; 17%, da Ásia; 15%, do mercado brasileiro; 7%, da Europa; México e Austrália, têm 4% cada; Canadá, 3%; Oriente Médio, 2%; e América do Sul, 1%. Avaliada em R$ 79,5 bilhões, a empresa acumula uma valorização de 33,9% em suas ações em 2021.

“Companhias como a JBS, que tem boa parte da receita no exterior, estão surfando a onda da reabertura mais acelerada da economia em mercados como Estados Unidos e Europa”, diz Henrique Castro, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV). “E se beneficiando com o câmbio favorável e os preços das commodities.”

Outro nome que embarcou nessa onda foi a Suzano, de papel e celulose. No período, a companhia brasileira reportou o maior Ebitda trimestral de toda a sua história, de R$ 5,9 bilhões, e uma geração de caixa operacional recorde de R$ 4,9 bilhões.

“O preço da celulose, que vinha depreciado, começou a se recuperar no Brasil e no exterior, no fim de 2020”, afirma Camila Nogueira, diretora de relações com investidores da Suzano. “E o câmbio médio do trimestre, de R$ 5,30, também ajudou e foi essencial na nossa capacidade de geração forte de caixa.”

Camila destaca outros componentes nesse contexto. Entre eles, o fato de as mudanças de hábito dos consumidores e a explosão da digitalização abrirem um campo de novas oportunidades que já estão influenciado positivamente no desempenho da empresa, avaliada em R$ 77,8 bilhões e cujas ações acumulam uma desvalorização de 1,4% no ano.

“O aumento do e-commerce e, consequentemente, do consumo de embalagens de papel já era uma demanda emergente nesse mercado, mas ganhou velocidade com a pandemia”, observa. “Esse é um vetor estrutural, inclusive, de um aumento relevante do nosso mercado endereçável”, diz Camila.

Bola da vez

Se esse contexto acelerado pela Covid-19 está trazendo novas perspectivas para a Suzano, para a Positivo Tecnologia, ele é ainda mais forte. E vem se mostrando a cada resultado, desde a chegada da pandemia, culminando em um trimestre no qual a companhia estabeleceu diversas marcas históricas.

“Nós atuamos com dispositivos para a economia digital. Quando se tem um aumento expressivo nessa área, somos a bola da vez”, diz Hélio Rotenberg, CEO da Positivo. “E isso não beneficiou só o nosso core, mas todas as demais sete linhas de negócio.”

Rotenberg se refere à estratégia de diversificação do portfólio que vem sendo implantada pela fabricante de computadores desde 2017. E que começou a ser capturada, de fato, na pandemia, com linhas como casa conectada, tecnologia educacional, hardware como serviço e servidores.

Com crescimento em praticamente todas essas frentes, a Positivo reverteu a perda registrada há um ano e divulgou um lucro líquido de R$ 51,5 milhões no trimestre.

Já a receita líquida cresceu 88,5%, para R$ 785,8 milhões, enquanto o Ebtida ajustado avançou 1.138,8%, para R$ 101,9 milhões. Em 2021, os papéis da Positivo, avaliada em R$ 1,5 bilhão, têm uma alta acumulada superior a 123%.

“Estamos vivendo uma forte retomada, não há muita dúvida nisso”, afirma Rotenberg. “As pessoas estavam em casa e gastaram menos. Agora, essa economia de dinheiro está voltando para a economia real.”

Em 2021, os papéis da Positivo, avaliada em R$ 1,5 bilhão, têm uma alta acumulada superior a 123%

Estrategista-chefe do Itaú BBA, Marcelo Sá entende que, apesar de um nível mais elevado de mortes pela Covid-19, a segunda onda teve um efeito menor na atividade econômica quando comparada à primeira escalada do vírus no País.

Ele também destaca que o investimento efetivo das empresas em expansão no digital também já rende frutos. “Esse foi um movimento comum entre as empresas, que passaram a buscar a venda de seus produtos por novos canais.”

Esse foi o caso do BTG Pactual, que investiu tanto na criação de produtos quanto na entrada em segmentos como o varejo, além de ofertas no plano digital. Esses movimentos ajudam a explicar a sucessão de recordes reportada pelo banco entre abril e junho, com crescimento em todas as suas linhas de negócio.

“Esse foi um trimestre que comprovou o nosso novo patamar de receita e resultado”, afirmou Roberto Saloutti, em teleconferência com analistas sobre o balanço do BTG Pactual no período, realizada na semana passada.

Entre as diversas máximas históricas do período, o banco, avaliado em R$ 171,5 bilhões e cujas ações têm alta acumulada de 59,5% em 2021, reportou um lucro líquido ajustado de R$ 1,7 bilhão, uma receita líquida de R$ 3,7 bilhões, e uma captação de novos recursos – o chamado Net New Money – de R$ 98 bilhões.

Para Pedro Leduc, analista de bancos do Itaú BBA, um dos destaques do BTG no trimestre foi a área de wealth management, que registrou R$ 54 bilhões em captações e alcançou R$ 378,9 bilhões sob custódia, com uma receita recorde de R$ 375 milhões.

O segmento em questão é o palco dos investimentos em série que o banco tem feito para incorporar escritórios de agentes autônomos à sua base, em uma disputa cada vez mais intensa que vem sendo travada com a XP. “A divisão quase dobrou de receita e de ativos sob custódia no trimestre, enquanto o mercado foi bom, mas não foi assim gigantesco”, ressalta Leduc.

Ele acrescenta que a área não só está crescendo como entregando um retorno melhor. “Isso mostra que, ao contrário do que muitos dizem, eles não estão jogando dinheiro pela janela ao pagarem luvas para trazer agentes autônomos associados a outras casas.”

Com o objetivo de diversificar ou reforçar o portfólio, as aquisições parecem ser outro traço comum entre as empresas por trás dos recordes. Com os resultados obtidos, a Positivo, por exemplo, planeja dar peso a essa abordagem para dar mais velocidade aos seus novos negócios.

Uma das companhias que já tem uma estratégia bem ativa nessa frente é a JBS. Na quinta-feira, 12 de agosto, a empresa enviou uma proposta de compra da totalidade das ações da Pilgrim’s Pride, produtora americana de frangos e de carne suína, na qual a JBS tem uma fatia de 80,21%.

Uma semana antes, a companhia já havia anunciado a compra de 100% da australiana Huon, marcando sua entrada em salmão, outra iniciativa na área de diversificação de proteínas. Entre junho e julho, a JBS divulgou outras três aquisições: Vivera, fabricante europeia de produtos plant based; Kerry Consumer Foods, líder no mercado de produtos preparados da Inglaterra; e a Rivalea, produtora de suínos da Austrália.

“Sempre que temos um momento positivo como esse, aproveitamos para reinvestir na companhia e torná-la mais diversificada na proteína e na geografia”, afirma Cavalcanti, da JBS. Como um legado da pandemia, a empresa também tem destinado recursos para ganhar mais eficiência em sua operação.

Depois de sofrer com os impactos na produção por conta das restrições da Covid-19, a empresa está investindo para estender as iniciativas de automação já adotadas em mercados como a Austrália, onde robôs operam todas as etapas de produção de carne suína.

A busca por aprimorar a gestão do caixa e dos custos é também uma herança da pandemia na Suzano. “Passamos a revisar toda a estrutura de custos e a buscar o que poderíamos fazer com mais eficiência”, diz Camila. “E, hoje, quando olhamos nosso negócio, nos tornamos mais resilientes.”

Apesar de ressaltar os resultados obtidos e o bom momento vivido por essas e outras empresas, Castro da FGV, faz uma ressalva. “A pandemia ainda não foi embora e a vacinação, em muitos casos, está sendo lenta”, afirma. “Então, é preciso ter muita cautela para avaliar se esses ótimos resultados vão ser repetidos. E se eles são consistentes ou apenas pontuais.”

Leia também

Brand Stories