Paulo Bilyk, da Rio Bravo, desconstrói mitos do mercado

Em entrevista ao NeoFeed, o CEO da gestora vai contra a corrente e diz que uma possível eleição de Lula não será um desastre, que é preciso discutir a desigualdade – e a distância – de ganhos e afirma não ver razão nos atuais aportes milionários no mercado de venture capital

0
392
Leia em 11 min

Paulo Bilyk, CEO da gestora Rio Bravo

Ex-Itautec, ex-Banco Pactual, sócio-fundador, CEO e CIO da gestora Rio Bravo, que hoje faz parte da gigante multinacional chinesa Fosun e conta com R$ 13 bilhões sob gestão, Paulo Bilyk é o exemplo de executivo com voz ativa no mercado.

E ele crê que, embora os movimentos eleitorais exijam atenção, mesmo uma eventual vitória de um candidato como o ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva não traria risco de mudanças dramáticas na ainda gerenciável gestão das contas públicas.

Bem-humorado, brinca com a ideia de que se possa dizer o que o mercado pensa: “como não existe, não pode dizer: ‘não é nada disso que eu acho’”. O que Bilyk acha é que há condições de apontar para um horizonte de estabilidade fiscal, desde que o governo não ceda às pressões para ações populistas que serão severamente punidas pelo mercado.

Os recentes movimentos positivos nas bolsas e no mercado de câmbio são atribuídos por Bilyk a um fator externo visível, que ele detalhou na entrevista ao NeoFeed. “O Brasil está muito barato”, afirma.

Otimista com as perspectivas de investimentos em infraestrutura – um dos poucos aspectos positivos que cita no atual governo – Bilyk anunciou que a Rio Bravo deve relançar, ainda no primeiro semestre, o fundo de empréstimos em regime de condomínio fechado, listado em Bolsa, para projetos de infraestrutura – que, por falta de “ambiente de mercado” teve adiado seu lançamento previsto para o ano passado.

O executivo explica, porém, por que a euforia com empresas de tecnologia recém-criadas no Brasil com a bênção de generosos investidores de venture capital está, para ele, “além do razoável”. A seguir, os principais trecho da entrevista exclusiva ao NeoFeed:

Já há algum tempo crescem as expectativas de aperto monetário nos EUA, com reflexos negativos para mercados como o do Brasil. Como vê esse cenário?
Quase certamente não vamos viver na próxima década os mesmos bons ventos internacionais que vivemos na década passada. Mas não vejo que os mercados, os agentes econômicos (embora ninguém nunca possa falar em nome do mercado, uma entidade que não existe, não vai poder dizer: ‘não é nada disso que eu acho”)… não vejo um desespero com a situação fiscal brasileira, por mais que as trapalhadas políticas sejam recorrentes. Também, honestamente, não acredito mesmo que, a essa altura do campeonato, alguém realmente imagine que, se o Lula for eleito presidente, nós vamos, no Brasil, reverter todas as coisas.

Não?
Até porque esses últimos anos foram muito longe de ser qualquer idílio pró-mercado, a gente está vendo que o Brasil tem um problema com liberdade econômica que vai muito além dos partidos, das pessoas; é uma espécie de cultura, que permeia todos os setores. Preferem um país fechado, protegido; você vê a luta que é qualquer tipo de liberalização. Não vai ser o Lula que vai desfazer o que temos. E, pessoalmente, não compro isso.

Mas é exagero dizer que a forte reação da comunidade internacional contra a pandemia também balançou certas certezas do antigo receituário econômico?
Acho verdade. Quando Silvio Berlusconi foi eleito a maior liderança política na Itália, o mundo riu, disse ser fenômeno italiano, aquelas manipulações populistas evidentes… Depois cada um ganhou seu Berlusconi: Donald Trump, Boris Johnson, nós aqui também. O modelo Berlusconi, de populismo escrachado, na cara, sem censura, usando canais de mídia social, vingou. E aí ficam dizendo: “ah, se todo mundo tivesse alguém como a (Angela) Merkel… É engraçado, como se todo mundo tivesse uma espécie de Geraldo Alkmin, um governo previsível, técnico, burocrático, sem estripulias. Mas muitos optaram pelo contrário, o caos, o festival, a esbórnia.

Mudou a maneira de ver a política econômica?
O mundo parece repensar a questão das distâncias sociais. Depois dos anos 60 e 70, (Margareth) Thatcher, (Ronald) Reagan, até com o papel do (papa) João Paulo II, a queda do muro de Berlim, o consenso pró-mercado estava muito forte, com toda razão de ser: a riqueza na China se deve a ela ter aderido, pelo menos em parte, a esse consenso. Mas, com o tempo, isso leva a extremos de disparidade de renda, que levou Thatcher dizer: “não importa a diferença entre as pessoas, o que importa é o nível de renda mais baixo”. O mundo está dizendo que isso não é verdade; que não existem só indivíduos e famílias, existem sociedades, e na dimensão social, importa, sim, o quanto a sociedade está disposta a tolerar distâncias sociais.

Qual a consequência?
A gente vê que a sociedade não funciona bem quando uma pequeníssima parcela acumula uma quantidade de renda – e de poder – que a vicia, digamos assim, esgarça as relações de confiança e gera dúvidas inclusive em relação ao sistema político. Foi o que gerou, um pouco, esse turbilhão que estamos vendo. Existe, sim, uma ideia de que políticas econômicas precisam, sim, resolver não só a questão da renda absoluta da sociedade, mas também a questão da distância (entre os rendimentos); que a meritocracia não é uma entidade absoluta, quase religiosa; ela é relativa: quem estabelece os critérios de mérito?

No caso do Lula, vemos, ao lado de sinais amistosos ao mercado, como a especulação sobre o Alckmin como vice, rumores de chegada de economistas com ideias bem distantes do mainstream, como o André Lara Resende, para chefiar a equipe econômica, que já defendeu até financiar gastos com emissão de moeda…
Isso eu acharia muito perigoso. Ainda que o André Lara Resende seja um ótimo nome, se for o caso, para estar em um eventual governo Lula. Existe uma dimensão do debate teórico, e outro de execução prática; essa discussão toda sobre teoria monetária, no caso do Brasil, o buraco é um pouco mais embaixo. Certamente temos menos espaço para brincar com essa questão e já cansamos de saber que, sem a âncora fiscal, não há política monetária que resolva aqui, a gente terminaria com juros nos píncaros e a sociedade quebra.

“Existe, sim, uma ideia de que políticas econômicas precisam, sim, resolver não só a questão da renda absoluta da sociedade, mas também a questão da distância (entre os rendimentos); que a meritocracia não é uma entidade absoluta, quase religiosa; ela é relativa: quem estabelece os critérios de mérito?”

Não é o que dizem os defensores da chamada Moderna Teoria Monetária.
Uma vez estabelecido o equilíbrio fiscal de longo prazo, muito bem estabelecido, essa discussão é até cabível no Brasil. Hoje, estamos muito longe dessa situação. Não sei, não falo pelo André Lara, mas são pessoas de muita competência intelectual e responsabilidade pública; não vejo que o Brasil vá ser uma espécie de laboratório para aplicação dessas teorias.

O teto já foi rompido, na prática. Como falar em responsabilidade fiscal nesse cenário?
A pior coisa que pode acontecer é o governo operar naquele ambiente de populismo eleitoral e arrombar o caixa para se reeleger.

Já não está caminhando nessa direção?
Isso seria péssimo. Os agentes vão acompanhar isso todos os meses e vai se refletir no preço dos ativos. Os juros tendem a subir, e os valores dos ativos tendem a cair, a cada mês em que houver brincadeira de aumento salarial para uns, subsídios para outros, ajuda aqui, ali. Mas a gente imagina que, a despeito da volatilidade do comando econômico, há pessoas técnicas, existe muita gente no Ministério da Fazenda que sabe muito bem o que está fazendo e defenderão o que é melhor para o país. Seria uma tragédia se personagens que sabem da importância do equilíbrio fiscal optassem por abraçar uma causa. Até minha filha, com 18 anos, viu o que foi o fim do governo Dilma e seu custo para a sociedade brasileira. Não interessa a ninguém.

A que você atribui os recentes movimentos de melhoria nas bolsas e queda na cotação do dólar?
Houve um influxo positivo de capital estrangeiro para o Brasil; volta do dinheiro que vinha saindo, mas para ativos muito específicos, os grandes ativos universais brasileiros: notadamente os que compõem o índice Bovespa e aqueles em volta desses. O Brasil está muito barato em termos de dólar, que é o reverso que qualquer pessoa percebe se vai viajar ou compra lá fora, no Alibaba, ou na Amazon: como é possível custar tanto em reais? Não vi um aumento de apetite em relação ao Brasil, mas rebalanceamento, de fato, em coisas que estão muito evidentemente baratas em termos internacionais.

“Não vi um aumento de apetite em relação ao Brasil, mas rebalanceamento, de fato, em coisas que estão muito evidentemente baratas em termos internacionais”

Há algum setor particularmente atrativo?
Há os ativos seguros brasileiros, que o Brasil inequivocamente sempre performou bem: bancos, empresas de celulose, mineração. O que tem de original e extraordinário e confesso eu mesmo não entender bem o motivo, é o dinheiro entrando em venture capital no Brasil, em empresas muito, muito novas, no comércio eletrônico, em coisas que têm a ver com Software as a Service, que estão sendo precificadas num nível que está no mundo do bitcoin, para mim. Não há fundamentalismo que explique.

Pode ser uma bolha?
Ela existe lá fora, estamos comendo a migalha da bolha, vai. Quem vive nesse mundo e faz parte da bolha não acha que é uma bolha. Mas a maioria dos investidores fundamentalistas, de longo prazo veteranos no mercado, acredita que esses ativos de tecnologia estão precificados além do razoável. Isso gerou uma hiper disponibilidade de liquidez para venture capital. Nunca, no Brasil, colhemos muito disso, pelo ambiente de negócios desfavorável; só que, de repente, descobriu-se o Brasil, e esses investidores grandes passaram a alocar volumes importantes de dinheiro. Vou ficar surpreso se isso se provar uma estratégia vencedora nos preços que estão pagando. Essas empresas teriam de crescer numa velocidade muito superior ao normal aqui, dados os entraves para uma empresa pequena se transformar em grande. Há raros casos de sucesso, talvez a XP, que passou de pequena a gigante numa geração.

“O que tem de original e extraordinário e confesso eu mesmo não entender bem o motivo, é o dinheiro entrando em venture capital no Brasil, em empresas muito, muito novas”

Vocês, na Rio Bravo, anunciaram em 2020 a criação de um fundo para empréstimos na área de infraestrutura; qual a perspectiva para o setor?
Esse nosso veículo faria captações no segundo semestre de 2021, e tivemos de suspender o processo, por causa do ambiente de mercado: não havia oferta de liquidez para ele naquele momento; juros subindo, imprevisibilidade na frente fiscal, volatilidade política, eleição americana. Muitas ofertas de IPOs a fundos foram suspensas. Vamos voltar com o fundo nesse primeiro semestre de 2022. Agora temos um ambiente mais previsível para os juros, ainda que com uma curva ascendente. A gestão pública nessa administração tem dois pontos fortes: o que se fez de desregulamentação na área financeira permite muito mais liberdade entre agentes e aumenta a concorrência no mercado de serviços financeiros, e, de fato, na frente de privatizações e liberdades no campo da infraestrutura.

Mas houve frustração em várias concessões e leilões anunciados pelo governo…
Não é nota dez, é seis e meio, ok. Mas há uma expectativa grande na área de saneamento, em relação à Eletrobras. Qualquer administração terá de cuidar da infraestrutura envolvendo capital privado; não há hipótese de usar apenas capital público. Terá de atrair capital estrangeiro e viabilizar veículos de mercados de capitais, na forma de dívida e de ações. Queremos ser um dos principais operadores do mundo, de dívida no Brasil. Porque essa ambição nasce também de uma competência que temos na área de dívida imobiliária. O quanto vai acontecer de fato vai depender, claro, das competências políticas.

Há algum fator influente hoje, que o investidor no Brasil deveria prestar maior atenção?
Me estarrece a falta de informação brasileira em relação ao tema da Rússia e da Ucrânia. O brasileiro é muito mal informado do que está implicado nesse jogo. Pode-se gerar ali um evento da natureza d(o ataque a)as torres gêmeas (em Nova York, em 2001). Cairiam sanções violentas sobre a Rússia, um provedor importante de commodities internacionais; haveria uma reprecificaçao para baixo de todos os ativos do mundo. No limite, seria o primeiro confronto direto entre nações com armas nucleares, tropas da OTAN contra as da Rússia. Nossa premissa central é de que não vai haver conflito; mas quanto maior o risco, qualquer posição ilíquida se torna coisa menor no seu portfólio.

Leia também

Brand Stories