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Trabalho sem fronteiras: o passaporte de internacionalização da Revelo

Depois de lançar uma plataforma para a contratação de brasileiros por empresas estrangeiras, a startup de recrutamento planeja agora consolidar sua operação no exterior, conectando candidatos de toda a América Latina a oportunidades nos Estados Unidos e na Europa

 

Lucas Mendes, cofundador da Revelo

Conectar as vagas de tecnologia disponíveis em empresas e os profissionais com o perfil ideal para essas funções. Com essa proposta, a Revelo, startup de recrutamento, chegou ao mercado em 2015, apostando em uma plataforma com recursos de inteligência artificial para estabelecer esse match.

Em seis anos, o modelo atraiu mais de 1,5 milhão de candidatos e 20 mil empresas, entre elas, B2W, Mercado Livre e Vivo. E passou no processo de seleção de fundos como o IFC, braço de investimentos do Banco Mundial, Valor Capital e FJ Labs, captando, em cinco rodadas, mais de R$ 100 milhões.

Com esse currículo, a Revelo planeja agora construir uma “carreira” internacional. A ideia é consolidar sua presença e o uso de seus algoritmos por companhias e profissionais de outros países. E o pano de fundo para essa escalada são as mudanças impulsionadas pela pandemia no mercado de trabalho.

“Com a Covid-19, questões como o trabalho remoto deixaram de ser tendência. E o mercado de trabalho se tornou, efetivamente, global”, diz Lucas Mendes, cofundador da Revelo, ao NeoFeed. “Por isso, estamos reposicionando o negócio para encarar esse desafio.”

Para dar vazão à sua ambição global, a Revelo está buscando inspiração no modelo adotado por outras startups brasileiras que já seguiram esse caminho e não investem, necessariamente, em grandes estruturas físicas no exterior. Mas sim, em equipes remotas e na gestão das operações a partir do Brasil.

“Hoje, internacionalizar é diferente do que era há duas décadas. Queremos aprender com empresas como Gympass e Wildlife”, conta Mendes. “Nosso time de tecnologia aqui no Brasil é capaz de criar produtos para voar nesses mercados, como já está acontecendo.”

Para Renato Valente, sócio da Iporanga Ventures, a decisão da Revelo é acertada. “Essa área de tecnologia tem defasagem no mundo inteiro”, diz. “E muitas empresas brasileiras já provaram que tem condições de brigar de igual para igual. É preciso olhar para fora. O mercado é muito maior.”

Ainda em fase inicial, o modelo que está sendo estruturado pela Revelo nessa direção terá dois formatos. O primeiro, focado em países como Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha, e na formação de times remotos para captar e atender à demanda das empresas.

A contratação de agências locais para trabalhar iniciativas de marketing também está nos planos. Na outra frente, o foco é montar equipes dedicadas e distribuídas em países da América Latina para atrair candidatos da região.

Demanda aquecida

O passaporte para chegar a essas fronteiras leva o carimbo da Revelo Internacional, ferramenta lançada em novembro de 2020 para conectar, a princípio, brasileiros com vagas no exterior. BBC, Foursquare, GitHub e Pluto TV, da ViacomCBS, são algumas das companhias que já usaram o serviço desde então.

“Com o tempo, passamos a ser procurados também por candidatos mexicanos, colombianos, argentinos, costa-riquenhos, uruguaios, chilenos e peruanos”, conta o empreendedor.

Mendes não revela quantos profissionais já foram contratados, mas diz que há cada vez mais procura, por parte de empresas de tecnologia dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Holanda. Essa busca crescente tem sido alimentada por algumas razões, em particular.

Assim como acontece no Brasil, não há talentos suficientes nesses mercados e os profissionais mais qualificados são disputados a peso de ouro. Com o trabalho remoto, o País surge como uma opção para ampliar esse escopo, com a vantagem de ter o fuso horário alinhado com boa parte dessas operações. Sem contar, obviamente, a questão cambial. O Brasil está barato para os estrangeiros.

“Começamos a receber, naturalmente, abordagens dessas empresas, porque a pressão é grande”, diz Mendes. Desenvolvedores, programadores, cientistas de dados, designers e profissionais ligados à experiência do cliente são as funções mais buscadas. A faixa salarial média é de R$ 30 mil.

BBC, Foursquare, GitHub e Pluto TV, da ViacomCBS, são algumas das companhias que já usaram o serviço da Revelo para contratar brasileiros

Há outras startups fazendo a ponte entre profissionais remotos e vagas em diferentes países. É o caso da americana Deel, que acaba de desembarcar no Brasil, depois de receber um aporte de US$ 156 milhões, liderado pelo Andreessen Horowitz e o YC Continuity.

Outra empresa que, assim como a Revelo, também aposta em inteligência artificial para refinar os processos de seleção é a Gupy. A startup já levantou US$ 10,3 milhões junto a investidores como Maya Capital, Canary, Wayra e o próprio Valor Capital.

Para se diferenciar no segmento, a Revelo tem outras iniciativas em andamento. Um primeiro projeto-piloto envolve o conceito de RH como Serviço e é inspirado no modelo de empresas como Uber. No entanto, no lugar de motoristas, a empresa está plugando recrutadores em sua plataforma.

No Brasil, já são mais de 200 profissionais cadastrados e outros 160 em países como Argentina e México. A ideia é alocar esses headhunters em projetos com prazos determinados. Hoje, o piloto está sendo testado em quatro clientes brasileiros, nos segmentos de beleza e cosméticos, serviços financeiros, energia

“Há startups levantando rodadas grandes e ampliando seus times exponencialmente”, diz Mendes, destacando outro perfil de empresa alvo dessa iniciativa. “Não faz sentido para essas companhias manter uma estrutura robusta de RH, porque essas ondas de recrutamento passam.”

Um segundo projeto-piloto vai ao encontro da busca de parte das empresas em ampliar a diversidade em seus quadros. “Muitos dos nossos clientes estão fazendo processo de seleção sob essa orientação”, conta Mendes. “Mas não estão conseguindo preencher as vagas.”

Nesse cenário, a startup está recorrendo ao Revelo Up, programa de reposicionamento e desenvolvimento de carreira que identifica lacunas nos conhecimentos de candidatos. E que financia cursos para desenvolver essas habilidades, por meio de parcerias com 30 instituições, em cinco países.

A lista inclui nomes como Harvard, MIT, Udacity, Gama Academy, IronHack e Digital House. Os alunos podem quitar o financiamento com a Revelo posteriormente, em até 24 vezes, com a primeira parcela emitida em até 30 dias após a conclusão do curso.

No caso específico dos programas de diversidade, a ideia é usar o programa para identificar e aprimorar os conhecimentos de profissionais que chegarem às etapas finais dos processos de seleção nessas companhias.

Posteriormente, essas pessoas serão reencaminhadas para novas oportunidades nessas empresas que, por sua vez, irão financiar os cursos em questão. Iniciativas nesses moldes já estão sendo testadas em uma multinacional de tecnologia, um grande banco e três startups, duas delas, unicórnios.

“É uma maneira de estimular e tornar o recrutamento, de fato, mais diverso”, destaca Mendes. “Nossa expectativa é que esse produto possa representar 30% do Revelo Up ainda esse ano.”

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