Um negócio a cada dois dias: por que o setor de saúde está tão quente?

Dados da consultoria Ondina Investimentos mostram que o setor teve 48 M&As no terceiro trimestre, quase o mesmo número dos seis primeiros meses de 2021

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Das redes de hospitais aos planos de saúde, passando pelas empresas de diagnóstico e healthtechs, é fato que o setor de saúde vem se mostrando como um dos mais ativos quando o assunto é consolidação.

O terceiro trimestre de 2021 não apenas confirmou esse cenário, como traduziu uma movimentação ainda mais intensa de fusões, aquisições e investimentos nesse mercado. É o que mostra um levantamento realizado pela Ondina Investimentos, consultoria especializada em fusões e aquisições.

Segundo o balanço, entre julho e setembro, foram fechados 48 acordos envolvendo empresas do setor. Além de um crescimento de 50% sobre o segundo trimestre, o número se aproximou das 50 transações realizadas em todo o primeiro semestre de 2021 e registrou uma média de um investimento realizado a cada 1,8 dias.

Rede D’Or, Hapvida e Kora Saúde foram as empresas que mostraram mais apetite, com três transações cada no período. Levando-se em conta apenas os acordos fechados pelo trio, o valor investido pode chegar a até R$ 1,88 bilhão.

“O setor de saúde é extremamente necessário, perene e ainda muito fragmentado”, diz Ítalo Miranda, sócio da Ondina Investimentos, ao NeoFeed. “As maiores operadoras de planos de saúde do País, por exemplo, têm apenas 20% do mercado.”

Além dos números que traduzem esse aquecimento, Miranda destaca outra questão que resume boa parte das estratégias de aquisições e investimentos dos representantes de diferentes segmentos da cadeia de saúde.

“Os grandes players estão vendo uma oportunidade de criarem plataformas no entorno de seus negócios tradicionais”, diz. “A Oncoclínicas começa a olhar para hospitais, assim como a Dasa está indo além de diagnósticos, e a Rede D’Or ampliou a fatia na Qualicorp, entre outros exemplos.”

Nesse contexto, o trimestre mostrou uma predileção pela aquisição de hospitais, que assumiram o topo pela primeira vez em 2021 e responderam por 27,1% dos acordos. As transações envolvendo healthtechs tiveram uma fatia de 22,9% e as de empresas de diagnóstico 10,4%.

“É algo que chama atenção, pois os investimentos em healthtechs, em sua maioria, estão abaixo de R$ 50 milhões e tendem a ser mais numerosos”, observa Miranda. Ele ressalta que as negociações envolvendo hospitais geralmente passam dos R$ 100 milhões e demandam muito mais tempo.

“Não é raro que uma transação desse porte leve mais de um ano”, afirma. “E isso mostra que muitas dessas negociações foram feitas durante a pandemia e estão se concretizando somente agora, quando todos começam ver um horizonte mais favorável.”

Sob a ótica das plataformas, ele destaca que os hospitais são vistos como a joia da coroa das aquisições. Pelo fato de o cadastramento de novas instituições estar mais restrito, pelo próprio custo de construir uma estrutura do zero e também pelo desafio de construir uma nova marca em cada região.

“Mas dentro dessa visão de ecossistema, os hospitais não são a única prioridade”, observa. “Healthtechs e diagnósticos, e a sinergia e o olhar conjunto para esses três segmentos, vão seguir direcionando os investimentos.”

Entre as empresas que se destacaram no período, a Rede D’Or confirmou sua média de três aquisições a cada trimestre, desde quando abriu capital em dezembro de 2020 e levantou R$ 11,3 bilhões no maior IPO do ano na B3 e o terceiro da história da bolsa de valores brasileira.

A rede ainda reforçou seu caixa com um follow on realizado em maio deste ano, quando captou R$ 4,9 bilhões. Entre abril e junho, a Rede D’Or desembolsou R$ 787,2 milhões nas aquisições dos hospitais Santa Emília, na Bahia, Novo Atiba, em Atibaia (SP) e Proncor, em Campo Grande (MS).

“A Rede D’Or está entregando o que prometeu no IPO e só com essas aquisições somou mais de 200 leitos à sua operação”, afirma Miranda. “Ao mesmo tempo, o grupo está investindo na construção de estruturas próprias, em mercados como Recife e Rio de Janeiro.”

Se a Rede D’Or seguiu em sua toada, quem voltou ao balcão foi a Hapvida. Uma das mais ativas nesse processo de consolidação, com destaque para a fusão com o Grupo Notre Dame Intermédia, anunciado em fevereiro deste ano, a empresa passou o segundo trimestre sem anunciar um acordo.

Para marcar esse retorno, a Hapvida saiu vencedora em uma disputa com a SulAmérica pelo Grupo HB Saúde, de São José do Rio Preto, na qual subiu sua oferta de R$ 450 milhões para R$ 650 milhões. No trimestre, o grupo comprou ainda o Hospital Madrecor, em Uberlândia (MG) e o Cetro, em Alagoinhas (BA).

Capitalizada pela abertura de capital realizado em agosto, quando levantou R$ 770 milhões em uma oferta primária, a Kora Saúde também se destacou no período com três aquisições pós-IPO. A empresa desembolsou R$ 298 milhões nas compras dos hospitais Gastroclínica e São Mateus, em Fortaleza (CE), e do ING, em Goiânia.

Quem também fez seu IPO em agosto, captando R$ 2,6 bilhões, sendo R$ 1,7 bilhão, foi a Oncoclínicas. A empresa foi a responsável pelo acordo de maior valor no período, com a compra da rival Unity, com presença em cinco estados e no Distrito Federal, por cerca de R$ 1,2 bilhão.

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