Soja, café, algodão, proteína animal e... descarbonização. A pauta de exportações do agronegócio brasileiro está prestes a incorporar uma nova (e para muitos inesperada) fonte de receita.

Graças à adoção de processos mais sustentáveis de produção a agropecuária passou a ocupar papel de protagonista nos debates sobre soluções capazes de mitigar os efeitos das mudanças climáticas e contribuir para que empresas e nações atinjam suas metas de redução de emissões e sequestro de carbono.

Os números variam conforme a fonte e o método utilizado, mas as previsões são de que, até 2030, dezenas de bilhões de dólares cheguem ao campo através da negociação de títulos verdes ou créditos de carbono, atraídos pelo impacto positivo de uma série de tecnologias que estão transformando a atividade rural, seja em seus sistemas de produção, seja em sua imagem perante o mundo.

A consultoria especializada em sustentabilidade e em projetos de descarbonização WayCarbon, por exemplo, estima em até US$ 100 bilhões o potencial de receitas com créditos de carbono nos setores de agronegócio, florestas e energia até o fim da década. Segundo estudo feito sob encomenda da International Chamber of Commerce Brasil (ICC Brasil) para mapear oportunidades nessa área, isso equivaleria a projetos que reduziriam emissões em 1 bilhão de toneladas de carbono equivalente.

“Apenas em projetos diretamente relacionados à agropecuária brasileira estimamos em US$ 9 bilhões, com a redução de 90 milhões de toneladas de carbono até 2030”, afirma Henrique Pereira, fundador da WayCarbon. O restante estaria relacionado a projetos de bioenergia, silvicultura e preservação de florestas, com redução de desmatamento.

“Não existe outro setor com tanta capacidade de contribuir para descarbonizar o planeta”, concorda Cleber Oliveira Soares, secretário de Inovação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). “Ao mesmo tempo em que é o setor mais frágil a ser atingido pela insegurança climática, a agropecuária é o que possui mais ferramentas para enfrentá-la”.

AGRO DE BAIXO CARBONO

O tema está na pauta do Mapa há pelo menos uma década, embalado na forma do Plano ABC (Plano Setorial para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária). A segunda etapa do programa de incentivo à adoção de tecnologias descarbonizantes, batizada de ABC+, é mais ambicioso do que as previsões da WayCarbon.

A meta é retirar da atmosfera, até o fim da década, 1,1 bilhão de toneladas de carbono equivalente apenas com a implementação pelas cadeias produtivas do agro das tecnologias listadas dentro do ABC+, como foi batizada a nova versão do plano. “É o mais moderno e ousado plano setorial do mundo”, afirma Soares. O otimismo do secretário se baseia nos resultados obtidos na primeira fase do ABC, que vigorou entre 2010 e 2020.

Na época do lançamento, a meta era atingir 35,5 milhões de hectares com sistemas agropecuários descarbonizantes, que utilizam pelo menos uma das seis tecnologias incluídas no plano – recuperação de pastagens, plantio direto, fixação biológica de nitrogênio (FBN), florestas plantadas, manejo de dejetos animais e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), com redução mínima de 32 milhões de toneladas de carbono nas emissões.

Os dados apurados em 2021 revelaram um avanço bem maior: 52 milhões de hectares impactados, com 170 milhões de toneladas de CO2 a menos. “Naquele momento não se falava tanto de clima e não havia tanto engajamento dos produtores e da própria sociedade”, diz Soares. “Por isso vislumbramos, para a nova etapa, resultados ainda mais positivos”.

Além de uma maior participação, o Mapa ampliou o conceito do plano, reforçando o conceito de transformar o ABC+ em um plano setorial de mitigação das mudanças climáticas.

As seis tecnologias originais foram revisadas – o que antes era focado apenas em FBN agora trata de uso de bioinsumos – e outras duas foram incorporadas, introduzindo práticas que contribuam para a resiliência e a adaptação de sistemas produtivos aos eventos extremos do clima.

Assim, passaram a ser compreendidos no ABC+ investimentos em sistemas irrigados e a terminação de bovinos de forma intensiva, que permite a redução da idade de abate dos animais, refletindo em aumento de produtividade e redução de emissões como a do metano resultante da digestão do gado.

RIQUEZA SUBTERRÂNEA

O grande ativo do agro brasileiro para conquistar espaço no mercado de soluções climáticas é justamente a diversidade de possibilidades a oferecer a investidores e consumidores. A começar pelo potencial de sequestro de carbono no solo.

“Conservar os solos é contribuir para mitigar as mudanças climáticas e para reduzir os gases de efeito estufa. É importante lembrar que os solos são um dos maiores sumidouros de carbono do ecossistema terrestre”, afirma Celso Moretti, presidente da Embrapa.

Plantio direto sobre a palha da cultura anterior protege o solo, retém umidade e ajuda a aumentar a biomassa nas lavouras

Segundo o Mapa de Carbono dos Solos, elaborado pela instituição de pesquisa, o Brasil armazena hoje em seus solos cerca de 5% do carbono orgânico do mundo. “Se hoje já alimentamos 800 milhões de pessoas, preservando dois terços do território brasileiro e conhecendo apenas 5% dos solos brasileiros, imagina o que poderemos fazer conhecendo 50% dos solos”.

Não por acaso, o grande pano de fundo do programa ABC+ e de outras iniciativas privadas nesse setor é a recuperação de pastagens degradadas, seja com sua conversão para agricultura ou para florestas plantadas.

Para cumprir suas metas de descarbonização, segundo estudo do Instituto Escolhas, o país precisaria restaurar cerca de 30 milhões de hectares em áreas degradadas. Isso corresponde a cerca de 18% dos 165 milhões de hectares destinados à pecuária no Brasil.

Deste total, cerca de 100 milhões de hectares já estão parcial ou totalmente degradados e podem ser recuperados. Em contrapartida, já há mais de 17 milhões de hectares convertidos para o sistema ILPF, uma inovação brasileira que combina produção agrícola, pecuária e florestas plantadas em uma mesma área, gerando benefícios em escala.

VIABILIDADE COMPROVADA

Uma série de projetos já realizados e mensurados indica que, na prática, a meta é viável e pode proporcionar os resultados desejados. Um dos pioneiros foi realizado pela Liga do Araguaia, iniciativa que reúne propriedades rurais da região do médio Araguaia, no Mato Grosso.

Criado em 2015 com o objetivo de difundir o uso de práticas de intensificação sustentável na pecuária – que incluem recuperação de pastagens, conservação e restauração de áreas florestais e estímulo a práticas que reduzam as emissões de gases de efeito estufa – o projeto foi apresentado como um case de sucesso já no ano seguinte, durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Cinco anos depois, o Carbono Araguaia, que monitorou com metodologia reconhecida internacionalmente a redução de emissões de GEE em 24 fazendas, somando 79 mil hectares de pastagens, havia evitado a liberação de cerca de 282 mil toneladas de carbono equivalente (CO2e).

Mais da metade das pastagens (43 mil hectares) foi recuperada, o rebanho foi ampliado de 73,1 mil para 107 mil cabeças e a idade de abate reduzido de 28 para 24 meses.

“Temos aqui um exemplo comprovado de que nossa pecuária é a mais eficiente do mundo”, afirma o pecuarista Caio Penido, proprietário da Fazenda Agua Viva, em Cocalinho (MT) e um dos idealizadores da Liga Araguaia. “A pecuária mais intensiva exige um investimento mais baixo que o de outras práticas e resulta em baixa emissão. Associada com ILPF, é o melhor instrumento para a fixação do carbono no solo”.

Roberto Giolo de Almeida, pesquisador da Embrapa que participou da mensuração do impacto dos projetos no Araguaia, constatou que o sistema ILPF tem potencial para sequestrar até 23 toneladas de CO2e por hectare/ano. É quase 20 vezes mais que o consórcio realizado apenas entre pecuária e agricultura, que já melhora o balanço de emissões em relação à pecuária tradicional e sequestra cerca de 1,3 toneladas de CO2e.

Além disso, mais carbono orgânico indica mais fertilidade e disponibilidade de água no solo. Outro benefício do sistema ILPF para a pecuária é permitir pastos de qualidade durante todo o ano, inclusive no período seco, em que faltam boas pastagens. “O carbono é a salvação da lavoura, da pecuária e do Brasil”, afirma Giolo.

NOVAS FRONTEIRAS

Antes vista como um passivo, a oferta abundante de áreas degradadas deslumbra agora uma grande oportunidade para o setor. “Com a recuperação dessas áreas e o avanço das tecnologias de produção, temos capacidade de utilizar áreas que são pouco produtivas e regiões subutilizadas para produzir mais alimentos sem avançar em áreas de preservação”, afirma Pereira, da WayCarbon.

A recuperação do solo abre, assim, uma nova fronteira para a produção agrícola, com ganhos ambientais. Reduz-se, assim, a pressão pelo desmatamento e ganha-se em resiliência aos eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis.

Outro estudo da Embrapa, demonstrou que, em um mesmo evento de estresse hídrico, áreas que utilizam técnicas de agricultura de baixo carbono tiveram perdas de 15% da safra, enquanto as propriedades da mesma região que não as adotaram perderam 25% da produção.

“A integração lavoura-pecuária-floresta permite ao produtor aumentar a produção de alimentos em até 40% e, ao mesmo tempo, capturar gases de efeito estufa da atmosfera, em vez de emitir”, afirma Maurício Bauer, diretor de Sustentabilidade da JBS. “O desafio do Brasil é dar escala a essas soluções, apoiar os pequenos produtores com recursos técnicos e financeiros para que não fiquem para trás e coibir os casos de irregularidades ambientais”.

COMPROMISSO DO AGRO

Maior empresa global do setor de alimentos, a JBS foi uma das primeiras a assumir um compromisso a zerar o balanço de emissões de suas operações e de toda a cadeia de fornecimento, tornando-se Net Zero até 2040.

A exemplo da JBS, outras empresas do agronegócio brasileiro têm seguido no mesmo caminho. Uma pesquisa global da consultoria PwC com mais de 4.400 CEOs de 89 países e de diversos setores apontou que executivos do setor, aqui no Brasil, estão mais comprometidos com a agenda de descarbonização que os de outros segmentos.

O levantamento revela que 37% das empresas do setor consultadas assumiram compromissos para zerar as emissões de carbono. A média nacional, que inclui outros setores, foi de 27%. Já a média global, de 22%. Cerca de 170 CEOs brasileiros foram entrevistados.

“Nossa responsabilidade é evidente: temos de ser parte da solução e estimular toda nossa cadeia de valor, assim como o nosso setor de alimentos, a se tornar mais eficiente e sustentável”, diz Bauer.

Assumir o compromisso, no entanto, é apenas o primeiro passo. O engajamento das empresas, indicado na pesquisa, precisa agora ser efetivado na prática, com ações efetivas que as levem a atingir as metas de descarbonização.

A JBS, por exemplo, anunciou investimentos de US$ 1 bilhão associados ao cumprimento dessa meta e, há uma década, estabeleceu uma política de monitoramento para assegurar que sua cadeia de fornecimento respeite os critérios socioambientais estabelecidos.

Uma das primeiras medidas foi determinar que os pecuaristas que fornecem para seus frigoríficos não atuem em áreas de desmatamento ilegal, terras indígenas ou unidades de conservação ambiental.

A empresa já bloqueou 15 mil fornecedores por estarem em desacordo com esses critérios socioambientais. “Mas entendemos que só bloquear não basta”, diz Bauer. “É preciso estimular e oferecer apoio para que produzam de maneira mais eficiente e sustentável”.

Esse apoio é dado através de 16 Escritórios Verdes, que oferecem assistência técnica gratuita aos produtores, além conectá-los a duas instituições financeiras que facilitam o acesso ao crédito.

Os DESAFIOS DA INOVAÇÃO

Em outra frente, a da inovação, a JBS prevê investimentos de US$ 100 milhões em pesquisas para desenvolver novas soluções sustentáveis. Um dos focos principais é a redução da presença dos gases de efeito estufa na pecuária através de aditivos alimentares que melhoram a dieta dos animais e reduzem a emissão de metano entérico.

Além de uma parceria nesse sentido com o Instituto de Zootecnia, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, a empresa fez um acordo com a holandesa DSM, uma das maiores fabricantes de nutrientes do mundo, para usar um suplemento nutricional desenvolvido com esse mesmo objetivo.

As duas empresas conduzem, juntas, a primeira aplicação em larga escala do Bovaer, produto que adicionado à ração dos bovinos inibe a produção do metano no processo digestivo dos animais, reduzindo significativamente as emissões do gás, considerado 28 vezes mais nocivo do que o CO2.

O Brasil foi, ao lado do Chile, o primeiro país a conceder, no fim do ano passado, a licença comercial para o produto, cujo desenvolvimento começou há mais de uma década. Mais de 50 estudos científicos sobre seus efeitos foram publicados em todo mundo.

Um deles foi realizado pela Unesp e indicou uma redução entre 45% e 55% nas emissões de metano pelos rebanhos. A variação se deve às diferentes dietas aplicadas a cada grupo monitorado.

A parceria JBS-DSM envolve cerca de 30 mil animais de um confinamento em Rio Brilhante (MS). Na fazenda vizinha, de propriedade da DSM, a empresa holandesa finaliza um novo estudo, cujos resultados devem ser divulgados em cerca de um mês.

A expectativa é que os confirmem os dados obtidos pela Unesp. Para chegar a dados mais precisos, a DSM importou um equipamento especial para fazer a medição das emissões, o green feed, espécie de cocho inteligente com sensores acoplados.

“A nutrição é um ponto sensível quando se trata de emissões pelos bovinos”, afirma Sérgio Schuler, vice-presidente do negócio de Ruminantes da DSM e também presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), organização que reúne empresas e pecuaristas em torno da promoção das melhores práticas na criação de bovinos. “O Bovaer permite uma conversão alimentar mais eficiente, com menos emissões. Assim, é mais sustentável e mais produtivo”.