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Na sucessão do Itaú Unibanco, uma reflexão sobre a hora de parar

Cedo demais ou é o momento certo de sair de cena? O CEO Cândido Bracher deixará o cargo pelo fato de completar, em dezembro, 62 anos, a idade limite definida no estatuto do banco para que um executivo permaneça no posto

 

Cândido Bracher, CEO do Itaú Unibanco

Nas próximas semanas, o Itaú Unibanco escolherá o sucessor de Cândido Bracher. O nome que substituirá o executivo, à frente da operação desde maio de 2017, será definido por um comitê de governança corporativa e passará pelo crivo do Conselho de Administração do banco.

A passagem de bastão no maior banco privado do País desperta, claro, a atenção de todo o mercado. Mas além das especulações sobre quem ditará os rumos da empresa, outro componente nesse processo, o motivo pelo qual Bracher sairá de cena – ao menos do papel de CEO, é pouco discutido.

O marco para que a sucessão aconteça agora não está relacionado diretamente ao desempenho do banco. Mas a uma data e dois números. Em 5 de dezembro, Bracher completa 62 anos. E pelo estatuto do Itaú Unibanco, essa é a idade limite para que um executivo permaneça no posto.

Até 2013, o estatuto do Itaú Unibanco determinava os 60 anos como limite. Mas esse prazo foi ampliado quando Roberto Setúbal ocupava o cargo e a empresa começava a planejar a sucessão que culminaria na escolha de Bracher.

O fato é que, à parte dessa pequena alteração, a troca no comando traz uma questão à tona: nos dias de hoje, faz sentido estabelecer uma idade para a aposentadoria dos executivos do alto escalão de uma operação?

Mais comum em multinacionais, essa prática ganhou corpo a partir das décadas de 1970 e 1980 e fixa, em média, um limite entre os 60 e 65 anos. No Brasil, ela não é tão usual. Ao menos, não oficialmente. O Itaú Unibanco não é, porém, o único a colocá-la no estatuto. A lista inclui ainda nomes como Bradesco e B3, que estabelecem a faixa dos 65 anos.

Oficial ou não, há quem entenda que essa política não condiz com o mundo de hoje. Há algumas décadas, a expectativa de vida era menor e um executivo dessa faixa etária provavelmente já tinha cumprido a sua trajetória. Atualmente, no entanto, com o aumento da longevidade, esse cenário não descreve fielmente a realidade.

“Hoje, uma pessoa de 60, 65 anos ainda tem muito a contribuir”, diz Marcelo Apovian, sócio-fundador da Signium, consultoria de recrutamento de executivos. “Aposentar um executivo que está no auge da sua carreira e intelectualidade pode ser, em muitos casos, prematuro.”

Dados da Crist Kolder Associates mostram que muitas empresas estão alinhadas com essa visão. Segundo um estudo da consultoria americana, a idade média dos CEOs das empresas S&P 500 no momento de suas contratações subiu de 54 anos, em 2018, para 58 anos, em 2019.

Segundo a consultoria Crist Kolder Associates, a idade média dos CEOs das empresas S&P 500 no momento de suas contratações subiu de 54 anos, em 2018, para 58 anos, em 2019

O Brasil também tem exemplos de empresas que estão de olho nessa tendência. Mesmo que com mudanças ainda tímidas. No fim de 2016, a Porto Seguro decidiu ampliar a idade limite para que um executivo ocupasse a presidência da companhia de 70 para 72 anos.

Em contrapartida, outra corrente defende que, estabelecida ou não no estatuto, a renovação dos quadros é cada vez mais uma estratégia essencial para as empresas dos mais variados segmentos da economia.

“Os 60 anos ainda são o número mágico para algumas empresas”, afirma Luiz Marcatti, CEO da consultoria de gestão Mesa Corporate. “Mas a sucessão estará cada vez mais atrelada à demanda por oxigenação das lideranças do que necessariamente a uma limitação de idade.”

A troca das cadeiras também deve ser impulsionada no mundo pós-pandemia, a partir da aceleração de demandas como a tão falada transformação digital, que já estava no centro das estratégias de muitas empresas.

“As companhias vão pesar os prós e os contras”, diz Flávio Pestana, CEO local da empresa britânica de recrutamento de executivos Odgers Berndtson. “Mas é inevitável que procurem executivos preparados para liderar essa transformação. E isso independe de idade.”

No caso do Itaú Unibanco, no entanto, a mudança está relacionada exclusivamente à idade limite definida pelo estatuto. E não à capacidade de Bracher, considerado um executivo brilhante pelo mercado, de conduzir o banco nessa jornada digital.

Segundo o jornal Valor Econômico, quatro nomes estão no páreo para substituí-lo: Márcio Schettini, diretor-geral do varejo, 56 anos; Caio Ibrahim David, diretor-geral do atacado, 52 anos; André Sapoznik, vice-presidente de tecnologia, 48 anos; e Milton Maluhy Filho, vice-presidente de finanças e riscos, 44 anos.

Independentemente de quem será o escolhido, o destino de Bracher é seguir na ativa, assim como boa parte de seus pares em outras empresas. “Provavelmente, ele assumirá um assento no Conselho”, diz Marcatti. “E seguirá contribuindo, mas  agora, com um outro papel, na retaguarda e pensando no longo prazo.”

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