No fim de fevereiro deste ano, a Prosus, controladora do iFood, comprou a britânica Just Eat por € 4,1 bilhões, criando o quarto maior grupo de delivery do mundo. Agora, a sua joia da coroa no Brasil vai sofrer um ataque da maior empresa de delivery do planeta: a chinesa Meituan.

A gigante chinesa de delivery está se preparando para ter uma operação no Brasil, apurou o NeoFeed com fontes que conhecem os planos da empresa.

A companhia vem sondando o mercado brasileiro há muitos anos. Um exemplo disso é que desde março de 2020, a Meituan tem marca registrada no Brasil. Mas só agora decidiu que chegou a hora de entrar no País, o que deve acontecer até o fim deste ano ou no máximo no começo de 2026.

Nos últimos meses, executivos da Meituan têm visitado empresários brasileiros e conversado sobre o mercado local. A companhia já negocia com operadores logísticos e está montando sua estrutura tributária para atuar no Brasil.

A chegada da Meituan no Brasil vai criar uma situação curiosa. A Prosus, que hoje é comandada pelo brasileiro Fabricio Bloisi, tem uma fatia estimada em 4% na companhia. É uma circunstância semelhante a de Didi e Uber, na qual a empresa americana chegou a ser dona de uma participação de sua concorrente.

A movimentação da empresa chinesa, no entanto, não está sendo feita de forma discreta. O iFood tem conhecimento dos planos da companhia de entrar no mercado brasileiro. “Esse é um sinal de que existe competição e tem sempre gente entrando no Brasil”, diz Diego Barreto, CEO do iFood, ao NeoFeed.

A Meituan atua em diversas áreas na China, como delivery, reserva de hotéis, turismo digital e transporte urbano. Mas seu core é a entrega de comida – tanto que seu lema é “ajudar a todos comer melhor e a viver melhor”.

Em 2024, a receita foi de aproximadamente US$ 46 bilhões. E, segundo estimativas, a companhia fez quase 30 bilhões de entregas neste período. Seu valor de mercado é superior a US$ 130 bilhões. “O GMV do Meituan é 12 vezes maior do que o do iFood”, diz uma das fontes.

A companhia foi fundada por Wang Xing, um empreendedor que fez diversas tentativas de copiar empresas ocidentais antes de criar o Meituan. Foi ele quem lançou o Xiaonei, uma versão chinesa do Facebook, e o Fanfou, inspirado no Twitter. Nenhum deles vingou.

Em 2010, apostou no modelo de compras coletivas, em mais uma cópia de uma empresa ocidental, no caso o GroupOn. Essa foi a origem do Meituan. Dessa vez, o negócio deu certo e prosperou. Em 2015, se fundiu com a Dianping, expandindo seus serviços para entrega de alimentos, reservas de hotéis e outros serviços locais.

Três anos depois, abriu o capital na Bolsa de Hong Kong, e levantou US$ 4,2 bilhões. Com atuação predominantemente na China e em alguns países da Ásia, o Meituan tem mais de 200 milhões de usuários.

Um empresário brasileiro que conhece Xing disse ao NeoFeed que ele é um dos “empreendedores mais brilhantes da China”. De perfil reservado e workaholic, já foi comparado a Jeff Bezos, da Amazon, pelo seu estilo e por ser focado em produto.

O desafio do Meituan, no entanto, será grande. Apesar de os números do iFood serem pequenos quando comparados ao da empresa chinesa, a empresa da Prosus é gigante no Brasil.

O iFood, segundo o último dado divulgado, faz 100 milhões de entregas por mês. Mas, de acordo com Barreto, esse número já foi superado. Sua plataforma movimenta aproximadamente R$ 8 bilhões por mês, conta com 350 mil entregadores, 400 mil comerciantes e está presente em todas as cidades com mais de 50 mil habitantes – são cerca de 1,5 mil municípios.

Além disso, o iFood se enveredou por outras áreas. No segmento de benefícios está perto de chegar a 1 milhão de clientes. E o seu “banco digital” já tem uma carteira de crédito de mais de R$ 1 bilhão. “Estamos emprestando acima de R$ 100 milhões por mês. Estamos começando a ganhar um relevância grande nessa área”, afirma Barreto.

No Brasil, o iFood é praticamente soberano e conta com uma fatia de mercado de mais de 80%. Barreto, no entanto, diz que compete com telefone, WhatsApp e aplicativo. E se todos forem levados em conta, o aplicativo brasileiro detém um market share entre 20% e 25%.

Entre os aplicativos, um dos concorrentes é o aiqfome, do Magazine Luiza, que está presente em mais de 700 cidades, tem mais de 6 milhões de usuários, aproximadamente 30 mil restaurantes em sua base e uma média superior a 2 milhões de pedidos mensais.