Se dirigir bem, pague menos: a insurtech que atraiu os fundadores e CEOs de seis unicórnios

David Vélez, do Nubank, Sergio Furio, da Creditas, e Patrick Sigrist, do iFood, são alguns dos nomes por trás do aporte de R$ 15 milhões liderado pela Kaszek na Justos, startup que prepara seu lançamento no País, com um modelo de precificação das apólices baseado no comportamento do motorista ao volante

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Antonio Molins (à esq.), Jorge Soto Moreno e Dhaval Chadha, os fundadores da Justos

Ainda em fase pré-operacional, a Justos tem uma lista de espera em seu site para cadastrar possíveis futuros usuários de seus produtos e serviços. Mas antes mesmo de chegar oficialmente ao mercado, a insurtech já atraiu nomes de peso para o seu negócio.

A empresa anuncia nesta quinta-feira um aporte inicial de R$ 15 milhões, liderado pela Kaszek e com a participação da Big Bets. Além dos dois fundos, a rodada inclui Brian Requarth, fundador da VivaReal. Mas o que chama a atenção é a lista de fundadores e CEOs de seis unicórnios que apostaram na insurtech.

Do Brasil, essa relação traz David Vélez, do Nubank; Sergio Furio, da Creditas; e Patrick Sigrist, do iFood. Completam esse time seleto Carlos Garcia, da mexicana Kavak; Assaf Wand, da americana Hippo Insurance; e Fritz Lanman, CEO da também americana ClassPass.

“Seguros é um mercado inevitável para startups, pois já é gigante e pode ser três vezes maior”, diz o indiano Dhaval Chadha, cofundador da Justos, ao NeoFeed. “E o fato de a Kaszek decidir entrar no aporte e de termos uma equipe experiente também ajudou a abrir as portas com esses investidores.”

Boa parte dos recursos será aplicada na composição do time da insurtech, formado, atualmente, por 20 pessoas. Além do maior foco em profissionais de data science, as contratações envolverão vagas para áreas como tecnologia, produto, marketing, regulação, precificação e operações.

Em estruturação há cerca de seis meses, a startup ainda não tem uma data oficial para chegar ao mercado, o que deve acontecer no segundo semestre. “Seguros não tem MVP”, diz Chadha. “Antes de lançarmos, precisamos garantir que a operação está totalmente redonda.”

O ponto de partida para esse lançamento será a oferta de seguros automotivos. Inicialmente, de parceiros cujos nomes não foram revelados, em função dos acordos ainda não estarem assinados. No médio prazo, a Justos avalia trabalhar com um portfólio próprio.

A insurtech vai ofertar planos mensais e modulares, com a opção de o próprio usuário escolher as coberturas incluídas em sua apólice. O grande apelo, no entanto, está em outros componentes desse modelo.

Dentro do conceito conhecido como “Pay how you drive”, a startup vai capturar dados para avaliar o comportamento ao volante e definir preços personalizados para cada motorista. As informações serão coletadas via telemetria, por meio de recursos e sensores instalados nos celulares dos usuários.

“Vamos cruzar esses dados com outras informações e estatísticas de mercado”, conta o empreendedor. “Nós estimamos reduções, em média, no preço entre 20% a 30%. Em alguns casos, até mais do que isso.”

Entre outros recursos, o formato também prevê o uso de inteligência artificial para reduzir o prazo de regulação de eventuais sinistros. No caso de qualquer dano ao carro, o proprietário poderá enviar imagens que serão analisadas para agilizar esses processos.

O plano inicial da Justos é consolidar esse produto. Mas a empresa já avalia estender esse portfólio assim que essa meta for alcançada. Além de ofertas para segmentos como motoristas de aplicativos, frotas e motos, podem entrar nesse cardápio seguros residenciais, de bikes e saúde, entre outros.

“Primeiro, temos que escalar nossa base e conhecer o perfil dos clientes, para entender o que eles querem”, observa Chadha. Em uma segunda etapa, provavelmente em 2023, a empresa estuda também chegar a outros países na América Latina e, eventualmente, em mercados como a Ásia.

Do Vale do Silício para o Brasil

Esse modelo começou a ser desenhado em agosto do ano passado, no Vale do Silício, quando Chadha se juntou ao mexicano Jorge Soto Moreno e ao espanhol Antonio Molins. Além de um histórico de startups da própria lavra, o trio trazia no currículo passagens por empresas como Netflix, Airbnb e ClassPass.

Dispostos a começar um novo negócio, mas ainda sem um norte definido, eles estabeleceram alguns critérios para decidir o que fariam. Entre eles, o fato de que a startup seria baseada fundamentalmente em dados. E sua operação teria como foco o mercado latino-americano.

“Nós pesquisamos e entendemos que o mercado de seguros vive um momento muito parecido com o setor bancário, de sete anos atrás”, diz Chadha. “É muito concentrado, tem baixo nível de uso de tecnologia, baixa penetração e os reguladores estão começando a incentivar uma maior abertura.”

Para construir um modelo no setor, o empreendedor diz que o trio buscou referências em insurtechs de seguros automotivos, como as americanas Root Insurance e Metromile que, recentemente, abriram capital nos Estados Unidos por meio de Special Purpose Acquisition Companies (SPACs).

Além do tamanho do mercado, um dos motivos que pesaram para que o Brasil fosse escolhido para o lançamento da operação foi o fato de que, entre idas e vindas, Chadha morou no País por oito anos. Primeiro, por meio de um intercâmbio da faculdade. Depois, como empreendedor e executivo.

No mercado brasileiro, a Justos vai encontrar poucos concorrentes com uma proposta similar. Entre eles, a ThinkSeg. Já a relação de insurtechs que também exploram os seguros automotivos, mas com outras abordagens inclui, por exemplo, a Youse, startup da Caixa Seguradora.

Apesar de enxergar boas perspectivas para a adoção do modelo da Justos no mercado brasileiro, Gustavo Leança, head da área de insurance da consultoria Capgemini destaca alguns desafios no caminho da startup.

O primeiro deles é a baixa quantidade de dados à disposição para precificar os seguros, especialmente nos primeiros passos da startup no mercado. Com pouca massa crítica, a insurtech pode ter dificuldades para diferenciar o que é padrão e o que é distorção no comportamento dos motoristas brasileiros.

“Outro desafio é garantir que o cliente não desligue o celular caso queira ocultar uma direção indevida”, diz Leança. “Nesse caso, o risco é que a empresa só veja o lado bom do cliente, o que a levaria a ter um preço baixo, onde qualquer sinistro acima da média comprometeria a margem do seu produto.”

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