A nova empresa de Totvs e B3 vai se chamar Dimensa. E Dennis Herszkowicz dá os detalhes

Em entrevista ao NeoFeed, Dennis Herszkowicz, CEO da Totvs, explica a estratégia da nova empresa de infraestrutura para o mercado financeiro criada em parceria com a B3 e que nasce com clientes como Itaú, Bradesco e Santander, e uma forte agenda de aquisições, além de um IPO no radar

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Dennis Herszkowicz, CEO da Totvs

CEO da Totvs, Dennis Herszkowicz costuma dividir o tempo reservado à empresa brasileira de software de gestão com as horas dedicadas ao tênis. E é no esporte que o executivo busca uma forma de explicar a mais nova tacada da companhia.

Na noite da segunda-feira, 12 de julho, após o fechamento do mercado, a Totvs divulgou um fato relevante anunciando a criação de uma nova companhia, a partir da Totvs Financial Services (TFS), sua divisão de infraestrutura para o mercado financeiro.

Na nova empreitada, cujo nome, Dimensa, foi escolhido em votação online com a participação de todos os funcionários, logo após o anúncio, a Totvs terá como sócia a B3, que vai aportar R$ 600 milhões para deter uma fatia de 37,5% na operação, avaliada em R$ 1,6 bilhão. A transação ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

“Quando você está jogando tênis, mesmo parado ou quando devolve a bola, é preciso ficar com as pernas em movimento, para ter mais condições de pegar a bola no lado ou na profundidade que ela vier”, diz Herszkowicz, ao NeoFeed.

O executivo acrescenta: “É um conceito que estamos tentando replicar na Totvs”, afirma. “Então, esse acordo é uma mensagem muito forte de que a companhia não vai medir esforços para estar em movimento permanente, tentando o tempo todo destravar cada vez mais valor.”

Sob a nova composição, a Dimensa terá como CEO Denis Piovezan, executivo com passagens por empresas como Linx, Walmart, Banco Plural e Losango. Já o Conselho de Administração será presidido por Caio Ibrahim David, ex-vice-presidente e CFO do Itaú Unibanco.

Em entrevista ao NeoFeed, Herszkowicz fala sobre os racionais por trás da criação da Dimensa, o mercado e o perfil de clientes que a empresa quer alcançar e dá pistas de como a nova companhia vai atuar no segmento. Acompanhe:

Como e quando se iniciaram as conversas com a B3 para esse acordo?
Levou um bom tempo pra gente poder costurar esse acordo, o que significa que foi algo muito maduro de ambos os lados. Isso começou no ano passado, um pouco antes da pandemia. O Laércio (Cosentino, fundador e presidente do board da Totvs) já esteve no Conselho da B3, temos hoje um conselheiro em comum (Eduardo Mazzilli de Vassimon) e eu conheço o Gilson (Finkelsztain, CEO da B3) e o Daniel Sonder, CFO da B3, há muito tempo. Então, são empresas e managements que se conhecem, se respeitam, se admiram e percebemos, desde as primeiras conversas, que o encaixe estratégico e encaixe de ambição eram absolutamente alinhados.

Qual é, em linhas gerais, o campo de atuação da Dimensa e como ela se difere da área de techfin da Totvs?
O foco da Dimensa é exclusivamente prover a infraestrutura para o mercado financeiro. Ela nunca vai dar um passo para chegar a oferecer serviços financeiros ela mesma. É o que a separa ela da nossa techfin. Então, são deals e estruturas completamente diferentes.

Como essa separação do negócio se encaixa no contexto estratégico da Totvs?
Eu faço uma comparação com o tênis. Quando você está jogando, precisa, mesmo quando devolveu a bola, mesmo parado no lugar, estar com as pernas em movimento, para ter mais condição de pegar a bola no lado ou na profundidade que ela vier. A gente está procurando replicar esse conceito na Totvs, no sentido de estar o tempo todo em movimento, para tentar sempre encontrar maneiras criativas de destravar valor.

“O peso estratégico maior é exatamente a mensagem para todo mercado de que esse é um caminho potencial para outras coisas”

Quais outras iniciativas nessa direção você citaria antes da Dimensa?
Quando vimos, por exemplo, que a parte de hardware da Bematech não fazia mais sentido, nós não ficamos aqui nos lamentado, nós fomos lá e vendemos o negócio. Quando achamos que não havia aqui dentro da Totvs uma solução de plataforma de e-commerce que fosse a melhor de mercado, nós fizemos uma joint venture com a VTEX. Enfim, quando chegamos à conclusão de que existem negócios dentro da Totvs que, por algum motivo, não estão recebendo toda a atenção, todo o foco e recursos, sejam humanos ou financeiros, para que possam desabrochar completamente, vamos buscar operações como essa e trazer um sócio novo, poderoso, que ponha recursos, expertise e relacionamento dentro.

Então, há espaço para outros movimentos de separação na Totvs?
Sim, é uma possibilidade. O peso estratégico maior é exatamente a mensagem para todo mercado de que esse é um caminho potencial para outras coisas. Agora, para quais, eu não posso revelar.

Nesse caso específico, quais portas a B3 abre para a Dimensa?
Antes de mais nada, a B3 traz um cheque de R$ 600 milhões, o que vai dar oportunidade de a Dimensa fazer um plano de expansão via M&A muito importante. Esse é um primeiro aspecto bem pragmático. O segundo, é que a B3 está diretamente inserida nesse mundo de tecnologias pro mercado financeiro. E ela traz, por consequência, uma expertise, um conhecimento nesse mundo muito relevantes, além de um alto um grau de relacionamento e de respeitabilidade com todas essas instituições financeiras.

A Totvs é conhecida por atender pequenas e médias empresas. Qual o perfil de cliente a Dimensa quer alcançar?
Um dos motivos pelos quais a TFS pôde ser separada é porque ela atende um perfil de cliente um pouco diferente da Totvs. Ela foca, muitas vezes, em instituições financeiras de grande porte. Então, Itaú, Bradesco e Santander são alguns desses clientes. A Dimensa não é uma operação que vai ter milhares de clientes. É uma operação pra ter centenas, talvez mil clientes. Então, é um perfil diferente, na média, maior.

“O trabalho vai girar em torno de plano de crescimento agressivo, orgânico, por parcerias e por M&A, visando um IPO num prazo mais curto possível”

Mas a empresa vai se restringir a esse perfil de instituição?
Também existe uma oportunidade, que vai ser explorada ao longo do tempo, de uma série de novos players que estão tentando oferecer serviços financeiros. Há muitos players novos nesse mundo, desde agentes autônomos de uma XP, de um BTG Pactual, passando por novos bancos que não são bancos do ponto de vista regulatório, até varejistas que hoje oferecem conta digital, crédito e uma série de outros serviços financeiros. Todo esse mundo é potencialmente cliente dessa nova Dimensa.

Qual é o tamanho da carteira hoje da Dimensa?
Hoje, são cerca de 200 empresas. A Dimensa tem hoje basicamente todos os gestores de fundos como cliente e atua, principalmente, com sistemas de gestão de fundos de investimento, cálculo de cota, esse tipo de solução.

O acordo ainda depende de aprovação do Cade. Nesse contexto, quais são os próximos passos da operação?
Os passos são fazer essa separação da operação, o onboarding desse novo management, do Denis Piovezan como CEO, da Daniela Batista como CFO, da nova posição do David Terra (head da TFS) e da Fátima Monteiro (diretora da TFS), como COO e CTO do negócio. Em adição a isso, esse novo management vai desenhar um novo plano de negócios. E posso dizer que o trabalho vai girar em torno de plano de crescimento agressivo, orgânico, por parcerias e por M&A, visando um IPO num prazo mais curto possível.

“A Dimensa é uma empresa rentável, tem capacidade de acessar outros recursos, agora, R$ 650 milhões é um bom cheque pra começar”

Quais serão os critérios adotados na estratégia de aquisições?
Esse mercado está em ebulição. Todas essas mudanças regulatórias, tecnológicas, têm feito com que o mundo de serviços financeiros esteja passando por enormes transformações, o que é maravilhoso pra Dimensa. E isso significa também, por outro lado, que é um mercado extremamente pulverizado. Então, existe uma infinidade de empresas que podem ser alvo da Dimensa. Imagino que o plano vai levar em consideração a ampliação de mercado endereçável e de portfólio, com produtos que estejam focados em áreas do mercado que estejam passando por mais transformações tecnológicas e, portanto, têm oportunidade de crescimento mais forte. E, em termos de tamanho, vai ser uma combinação entre empresas um pouco menores, cheques um pouco menores, e algumas eventuais transações de maior porte.

Já existem ativos mapeados nessa frente?
Já temos um trabalho de mapeamento muito grande. Isso significa que o management novo vai chegar com muita informação disponível. O trabalho deles vai ser olhar tudo isso e começar a tomar decisões.

Como vocês vão financiar essas aquisições?
Com o caixa líquido de R$ 650 milhões da operação. É a principal fonte que a companhia vai ter, mas não necessariamente a única. A Dimensa é uma empresa rentável, tem capacidade de acessar outros recursos, agora, R$ 650 milhões é um bom cheque pra começar.

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