ANÁLISE: Qual empresa clonará o Clubhouse?

O Twitter já testa uma versão parecida com a do Clubhouse. E o Facebook, historicamente, copia recursos de aplicativos que ganham tração entre os usuários. A história do Vale do Silício mostra que é questão de tempo surgirem outras ideias semelhantes

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Quem assistiu ao docudrama “Os Piratas do Vale do Silício”, de 1999, sabe que a história do berço da tecnologia do mundo foi construída na base de muita inovação e de… cópias.

Baseado no livro “Fire in the Valley: The Making of The Personal Computer”, o filme estrelado por Anthony Michael Hall, como Bill Gates, e Noah Wyle, como Steve Jobs, retrata o surgimento do computador pessoal.

O filme mostra como a Apple bebeu da fonte do Parc, o famoso laboratório de inovação da Xerox, localizado em Palo Alto, na Califórnia, para criar seu sistema operacional gráfico para o Macintosh. E como a Microsoft, por sua vez, se “inspirou” no software da empresa de Steve Jobs para desenvolver o Windows, o seu sistema de janelas que tornou Bill Gates multibilionário.

A ação de “Os Piratas do Vale do Silício” se passa no longínquo anos 1970 e 1980. Mas o modus operandi não mudou muito de lá para cá. Uma boa ideia começa a ter tração e, logo em seguida, é copiada por empresas dominantes.

Observe o caso do Clubhouse, a rede social por voz que se tornou a sensação do Vale do Silício e já conta, segundo as estatísticas mais conservadoras, com mais de 3 milhões de usuários.

Em janeiro, ela recebeu um aporte de US$ 100 milhões da Andreessen Horowitz, uma das casas de venture capital mais conceituadas dos Estados Unidos, que a avaliou em US$ 1 bilhão.

Pouco tempo depois, começou a ganhar tração nos Estados Unidos e se tornou uma estrela ascendente ao redor do mundo – em especial no Brasil, onde muitos empreendedores passaram a frequentar as salas do Clubhouse. Até a China já bloqueou o Clubhouse, um sinal de sua popularidade no país asiático.

A questão que se coloca agora é qual empresa do Vale do Silício vai ser a primeira a clonar o Clubhouse – ou mesmo tentar comprá-la? Não se trata de uma questão retórica. Já está acontecendo.

O Twitter testa com um grupo pequeno de usuários, desde novembro do ano passado, um recurso chamado Space, que é um chat por voz igual ao Clubhouse. A interface que vazou no ano passado é praticamente igual ao do aplicativo que agora está na boca de boa parte dos usuários do iPhone, único smartphone no qual ela, por enquanto, funciona.

Spaces, do Twitter

A rede social de 280 caracteres não informou quando o recurso deve estar disponível aos usuários da plataforma, que conta com 187 milhões de usuários diários. Uma reportagem do Business Insider, no entanto, diz que o companhia está acelerando o lançamento do produto dado o sucesso do Clubhouse.

Muito mais influente e poderoso do que o Twitter é o Facebook, que tem mais de 2 bilhões de pessoas acessando seus aplicativos Facebook, Instagram e WhatsApp.

Nos últimos anos, a empresa de Mark Zuckerberg se notabilizou por introduzir recursos que se parecem muito com os seus principais concorrentes na esfera das redes sociais.

Não faltam exemplos que demonstram essa prática. De Snapchat a Tiktok, todos sentiram na pele essa estratégia do Facebook, avaliado em US$ 768 bilhões na Nasdaq.

O Snapchat, de Evan Spiegel, por exemplo, foi lançado em 2011 com um recurso em que os usuários podiam compartilhar fotos, mensagens e vídeos curtos com uma duração máxima de 24 horas. Foi um sucesso imediato entre os jovens a ponto de incomodar o Facebook.

O que fazer? Primeiro, Zuckerberg tentou comprar o Snapchat por US$$ 3 bilhões (hoje, ele vale US$ 95 bilhões). Não  conseguiu. Logo em seguida, o Facebook resolveu desenvolver um recursos semelhante no Instagram, que batizou de “Stories”, lançado em 2016.

Em janeiro deste ano, Zuckerberg revelou que o “Stories” havia atingido 500 milhões de usuários diários. O Snapchat, por sua vez, alcançou 265 milhões, segundo os dados do quarto trimestre fiscal da rede social de Spiegel.

Com o chinês Tiktok, o Facebook mais uma vez resolveu seguir a tática que deu certo com o Stories. A sua aposta para frear a rede social de vídeos curtos é um recurso chamado “Reels”, lançado em agosto do ano passado. Quem usa os dois não consegue ver diferença entre ambos.

Nos Estados Unidos, apesar da perseguição do governo do ex-presidente Donald Trump, que ameaçou bani-lo do país, estima-se que mais de 100 milhões de americanos usem o aplicativo chinês Tiktok.

Até agora, o Facebook não divulgou nenhuma métrica sobre o “Reels” – um sinal que a disputa para conquistar os usuários do Tiktok esteja sendo difícil.

É cedo para saber o que vai acontecer com o Clubhouse. Será que a rede social de voz terá apenas 15 minutos de fama ou sua ascensão será duradoura? Se seguir avançando, seus clones surgirão por todos os lados no Vale do Silício, como mostram os exemplos recentes, assim como os mais antigos.

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