Merama capta US$ 160 milhões para ser a “Unilever das marcas digitais na AL”

Fundada em dezembro de 2020, a startup quer construir um portfólio de operações online a partir da compra de fatias majoritárias em marcas e varejistas. E atraiu o investimento de fundos como Monashees, Valor Capital e Balderton para validar essa tese

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Renato Andrade (à esq.) e Guilherme Nosralla, fundadores da Merama

Fundada em dezembro de 2020 e em operação, de fato, desde fevereiro, a Merama surgiu com a proposta de criar a maior plataforma de marcas digitais da América Latina. O plano da startup pode parecer extremamente ambicioso. Mas já conseguiu atrair o interesse de nomes de peso na região.

A Merama anuncia nesta quarta-feira, 28 de abril, a captação de um investimento de US$ 160 milhões, liderado pelos fundos Monashees, Valor Capital e Balderton, com a participação da Maya Capital, o fundo de Lara Lemann e Mônica Saggioro;

A rodada, que combina, em uma só tacada, aportes seed e Série A, inclui ainda fundadores de unicórnios do País, como Fabien Mendez, da Loggi; Daniel Scandian, da MadeiraMadeira; e Guilherme Bonifacio, do iFood.

O volume do aporte está ligado justamente ao modelo da companhia, intensivo em capital. Para construir o seu portfólio, a startup vai investir na aquisição de fatias majoritárias em empresas e marcas do varejo com presença no e-commerce e em marketplaces.

“A união de um mercado em franca expansão com o time que estamos montando fez os fundos acreditarem na nossa tese”, diz Guilherme Nosralla, cofundador da Merama, ao NeoFeed.

Um de seus sócios na empreitada, Renato Andrade acrescenta: “Ter nomes desse calibre mostra que estamos no caminho certo e que o nosso modelo é consistente.”

Diferentemente de um fundo tradicional, esse formato não prevê a saída do negócio. A ideia é comprar 100% das operações em um prazo de três a cinco anos. Antes, porém, o foco é escalar essas companhias nos canais digitais, a partir da injeção de recursos e das estratégias desenhadas pela equipe da Merama.

“Com a Merama, marcas digitais com times excepcionais terão, pela primeira vez, acesso a recursos com potencial para mudar seus negócios de patamar”, diz Fabien Mendez, cofundador e CEO da Loggi, e um dos investidores da startup.

A Merama começou a tomar forma no fim de 2020. Andrade ainda trabalhava na McKinsey, consultoria onde conheceu Nosralla, alguns anos antes. O sócio, por sua vez, havia deixado a empresa para trabalhar na Wildlife, outro unicórnio brasileiro.

Dispostos a colocar a tese da startup em prática, os dois passaram a buscar investidores. Essas conversas acabaram gerando um contato com Sujay Tyle e Felipe Delgado, empreendedores que começavam a estruturar uma proposta semelhante no México.

O plano da Merama é comprar 100% das operações em um prazo de três a cinco anos

A conexão foi imediata e, em poucas semanas, nascia a Merama, com equipes no Brasil e no México. “Nós vimos que nossas propostas e backgrounds se completavam”, explica Nosralla. Ele, mais voltado à tecnologia, marketing e performance. Andrade, ao varejo e ao omnichannel.

Com um perfil financeiro, Delgado tem passagens por empresas como o J.P. Morgan. E Tyle, uma bagagem como empreendedor, com projetos como o Frontier Car Group, marketplace automotivo comprado, em 2019, pela OLX, por US$ 700 milhões.

“Ele trouxe essa vivência e a conexão com os fundos, o que foi um aprendizado pra nós”, diz Nosralla. Desde a fundação, esse time da startup foi reforçado por executivos de empresas como Amazon, Mercado Livre, Google, Facebook e McKinsey. E, hoje, já é composto por 40 profissionais.

Capital e know-how

Com os recursos captados, a Merama já está conversando com potenciais alvos no mercado e prevê fechar 2021 com um volume de bruto de produtos (GMV) de US$ 100 milhões, a partir do portfólio de marcas que será estruturado.

Os fundadores da startup não revelam o número de negociações em curso e o tamanho dos cheques que serão assinados, mas ressaltam os critérios que vão guiar esse processo e que inclui empresas em toda a América Latina.

Além de mirar ativos que já tenham presença online e receita anual acima de US$ 1 milhão, o recorte da startup envolve companhias saudáveis financeiramente, mas que estejam demandando uma injeção de recursos para levar a operação a um novo estágio.

“Não é uma tese de turnaround, mas sim de crescimento”, explica Andrade. Um terceiro filtro são as categorias de produtos, com maior peso para segmentos como esportes, pet, infantil e eletrônicos. “E o quarto elemento, talvez o mais importante dessa equação, são os empreendedores.”

Os sócios dessas operações serão mantidos nos primeiros anos da parceria. “O mercado de e-commerce cresce a taxas de dois dígitos e tem um potencial gigantesco na região”, diz Andrade. “Mas boa parte desses empreendedores não tem capital e conhecimento para se beneficiar desse cenário.”

Fechado o acordo, a ideia é, a partir do “dia um”, injetar recursos no negócio e, com base na vivência do time da Merana, montar um plano de crescimento para a empresa em questão. “Vamos trazer o know-how de como criar uma marca online e operar nesses canais”, afirma Nosralla.

O leque amplo de estratégias inclui desde o investimento em marketing digital e a presença em novas plataformas e marketplaces até o desenvolvimento de produtos e a expansão internacional, com foco na América Latina.

“Nós poderíamos construir nossa plataforma na América Latina no modelo tradicional, como uma P&G ou uma Unilever”, diz Andrade. “Mas acreditamos que esse formato de parcerias com boas companhias e empreendedores é o futuro da criação de holdings de marcas digitais.”

Para Marcelo Nakagawa, o modelo mescla princípios das SPACs, as chamadas empresas de “cheque em branco”, e de search fund, no qual os investidores atuam ativamente na gestão do negócio.

“É uma lógica que faz sentido, especialmente com a pandemia, que deixou muitas marcas boas descapitalizadas”, diz Nakagawa. “E, ao reunir negócios embaixo de um mesmo guarda-chuva, você tem o benefício da escala e do compartilhamento de estruturas.”

A Merama prevê fechar 2021 com um volume de bruto de produtos (GMV) de US$ 100 milhões

A Merama buscou inspiração em empresas como a americana Thrasio, que investe na compra de marcas que comercializam seus produtos na Amazon. Com essa proposta, a empresa, fundada em 2018, captou mais de US$ 1,7 bilhão junto a investidores como Advent, Goldman Sachs Asset Management, J.P. Morgan e Oaktree Capital Management. E alcançou o status de unicórnio em julho de 2020.

No começo de sua trilha, a Merama ainda está distante desses números. A empresa enxerga, porém, um campo mais amplo na América Latina, onde a arena dos marketplaces é bem diferente do domínio exercido pela Amazon nos Estados Unidos.

“No Brasil, por exemplo, ainda não existe um vencedor nesse segmento e nós queremos ser parceiros de todos esses players”, diz Andrade. “Isso fortalece a nossa tese, pois não nos deixa amarrados a um único canal.”

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