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O plano da Loggi para ocupar o lugar dos Correios

Desde 2016, a startup de entregas constrói uma malha logística para atender o Brasil inteiro. Agora, em meio a uma explosão de 500% do volume de entregas, a companhia começa a transformar suas agências em centros de negócios e vai apostar no modelo de franquias. O CEO e fundador, Fabien Mendez, explica a estratégia

 

Fabien Mendez, fundador e CEO da Loggi

Desde que fundou a Loggi, em 2014, o empreendedor francês Fabien Mendez repete, como se fosse um mantra, que sua missão é criar o correio do futuro, capaz de entregar qualquer coisa, em qualquer lugar, para qualquer pessoa em um ou dois dias.

Não se trata de uma missão fácil. Em especial em um país como o Brasil, que tem dimensões continentais. Além disso, a tarefa é ainda mais difícil para uma startup que está construindo tudo do zero, mesmo que altamente capitalizada, como o caso da Loggi, que levantou US$ 295 milhões de investidores como Softbank, GGV, Fifth Wall, Kaszek Ventures, Monashees, Iporanga Ventures, ONEVC, Velt Partners, entre outros.

Soma-se a esses fatores a concorrência de operadores logísticos internacionais, como Fedex, UPS e DHL, além do próprio Correios, que tem presença nacional, mais de 11 mil agências de atendimento, 99 mil funcionários e faturou R$ 18,3 bilhões em 2019.

Mas, em meio a pandemia do coronavírus, que fez a demanda de entregas de clientes de comércio eletrônico crescer de forma exponencial, a Loggi está dando um passo importante para ser o correio do futuro.

A startup que vale US$ 1 bilhão está começando a fazer testes em suas agências espalhadas em 542 cidades para transformá-las em pontos que, além de fazer as entregas, possam também receber as encomendas de pessoas físicas e de pequenos negócios.

Esses pontos são minihubs que recebem as encomendas da Loggi para fazerem o trajeto da última milha. Até o fim do ano, eles vão também estar aptos para receber pacotes de consumidores, como uma agência de Correios.

“Eles vão poder conquistar clientes localmente para enviar via Loggi”, afirmou Mendez, em entrevista ao NeoFeed. “Esse é o nosso terceiro movimento estratégico: oferecer a entrega de tudo para todos”

O primeiro movimento estratégico foi em 2014, quando a startup começou com entregas locais de diversos produtos, de documentos a remédios. Dois anos depois, a companhia iniciou a implantação de uma malha logística nacional.

Hoje, a Loggi está em todas as capitais brasileiras mais o Distrito Federal e conta com sete crossdocking, centros de triagens em que algoritmos de inteligência artificial e robôs fazem a roteirização da entrega, localizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre.

Crossdocking de Cajamar, em São Paulo

Desses locais, os pacotes saem por avião, caminhões e até ônibus para serem entregues nos minihubs espalhados pelo Brasil. Ao chegarem a esses destinos, motos e carros concluem a última milha até a casa do cliente.

Essa estratégia, até agora, concentrou-se no modelo B2B2C (business-to-business-to-consumer). Difícil de entender? O cliente da Loggi são grandes empresas, como varejistas e e-commercers (é o business). Mas as entregas, em geral, são feitas para os consumidores (o consumer). O terceiro movimento estratégico que a Loggi começa a concretizar agora são as entregas de encomendas para pessoas físicas.

Com os minihubs se transformando em “agências de Correios”, a startup passará a atuar de forma direta com os consumidores e irá atender também pequenos comerciantes que não contam com infraestrutura logística para fazer a entrega dos produtos vendidos em seus sites.

“Todo mundo se preocupa com o last mile, mas esquece do first mile“, afirma Mauro Roberto Schlüter, professor de logística do Mackenzie. “Esses minihubs podem gerar economia de escala para a Loggi.”

Atualmente, aproximadamente metade dos minihubs são próprios. A outra metade são as chamadas Loggi Leve, empresas de logísticas associadas que viabilizam as entregas. “Em breve, eles vão virar franqueados”, diz o CEO e fundador da Loggi, sem dar detalhes de como será o modelo.

De acordo com Mendez, a Loggi já testa o modelo e ele será lançado de forma gradativa até o fim deste ano. O fundador da startup de entregas não diz também quantas franquias pretende ter e em que localidades vão ser implantadas.

Demanda explosiva

O projeto da transformar seus minihubs em agências de negócios, e não apenas de entregas, acontece em meio a uma demanda explosiva pelos serviços da Loggi durante a pandemia do coronavírus.

Para se ter uma ideia, o volume de entregas em julho deste ano foi 500% maior do que o mesmo mês do ano passado. Atualmente, a empresa está fazendo 300 mil entregas diárias. E a meta é chegar em novembro, durante a Black Friday, com capacidade de entregar 500 mil itens por dia.

“Ela teve uma curva de crescimento bastante acentuada e eles conseguiram absorver essa expansão” afirma Guilherme Assis, do fundo Iporanga Ventures, um dos primeiros a apostar na startup, e que faz parte do conselho da Loggi. “Poderia ter vindo essa demanda e eles explodirem, por não conseguirem atender. Mas eles tiveram capacidade de escalar.”

É claro que essa demanda explosiva de uma hora para outra teve um custo – não que Mendez reclame dele. A companhia tinha a meta de chegar a todas 5.570 cidades brasileiras em 2020. Agora, o plano é atingir a cobertura nacional só em 2021.

“Tivemos de correr para construir mais capacidade para atender as necessidades atuais”, afirma Mendez

“Tivemos de correr para construir mais capacidade para atender as necessidades atuais”, afirma Mendez. “E, em vez de expandir a qualquer custo, pausamos os esforços de expansão geográfica.”

Isso não significa que a Loggi tenha ficado estagnada nesse quesito. Ao contrário. Em vez de uma expansão para milhares de cidades, o crescimento foi na casa das centenas. A companhia chegou a 475 novos municípios em 2020 – ela estava em menos de 100 no ano passado.

Essa expansão acelerada fez a Loggi voltar a contratar. Em fevereiro, a startup demitiu 120 funcionários nas áreas de venda e marketing. Mas com o crescimento da demanda, a companhia já conta com mais funcionários do que antes dos cortes  – atualmente são 1,5 mil pessoas.

Mas o grande batalhão de pessoas que trabalham na empresa não é formado por seus funcionários. Hoje, a companhia, que adota um modelo baseado na Uber e na Rappi para seus entregadores, conta com 35 mil profissionais autônomos e centenas de empresas que ajudam na entrega final.

Com isso, a Loggi consegue ter a seu favor um componente que faz parte da economia do compartilhamento: contar com uma frota de aviões, caminhões, carros, motos e até ônibus, que ajudam a startup a fazer as entregas aos seus clientes, sem ser dona de um único veículo.

Mas apesar de não ser dona da frota, a companhia faz com que todos eles usem sua tecnologia no processo de entrega. “A tecnologia é onipresente. Usamos em todas as etapas do processo logístico”, afirma Mendez.

Desde a retirada dos produtos até a entrega ao consumidor final, tudo é rastreado. As rotas são definidas por algoritmos de inteligência artificial e os profissionais autônomos e das agências de atendimento usam aplicativos de celular para acompanhar todo o processo.

Clientes e concorrentes

O desafio da Loggi é que, ao mesmo tempo que cresce de forma acelerada, atendendo principalmente e-commerces e varejistas, os seus clientes estão se transformando em seus concorrentes. Pior: eles estão avançando rapidamente na área de logística à medida que focam seus esforços no crescimento de seus marketplaces.

No Mercado Livre, por exemplo, 96% das vendas totais do marketplace, no segundo trimestre de 2020, passaram pelo Mercado Envios, braço de logística da companhia. Dessa fatia, 51% foram feitas pela Melinet, a estrutura que oferece coleta, entrega e armazenagem de mercadorias.

Nesta semana, o Mercado Livre anunciou também a aquisição de uma participação minoritária na Kangu, startup que habita pequenos comércios de bairro interessados em operar como minihubs de produtos comprados via e-commerce. Em troca, esses lojistas recebem uma comissão por cada pacote estocado em suas lojas.

O Magazine Luiza tem investido na formação de uma estrutura própria de entregas na última milha, com o apoio da Logbee, startup de logística comprada em 2018. Hoje, essa rede conta com 4 mil micro transportadores e motoristas.

A estratégia da B2W, dona das marcas Submarino e Americanas.com, passa pela LET’s, plataforma de logística e distribuição que inclui 17 operações no formato de fulfillment, além de alternativas como clique e retire, que envolvem os pontos de venda da Lojas Americanas.

E até mesmo a Via Varejo, que conta com as marcas Casas Bahia e Ponto Frio, que era considerada a retardatária nessa área, está se mexendo. Em abril, a companhia comandada por Roberto Fulcherberguer comprou a ASAP Log, empresa de tecnologia que conecta lojas e entregadores.

Esses não são os únicos desafios da Loggi. “A privatização dos Correios pode criar um grande competidor”, diz uma fonte do setor de logística. “E sempre há os riscos regulatórios dessa área.”

Mas é apenas isso. “Dá para montar uma capilaridade igual a dos Correios, mas leva tempo e tem um custo altíssimo, principalmente para operar nos rincões do Brasil”, diz Schlüter, do Mackenzie. “Os Correios são hoje o maior operador de e-commerce do Brasil.”

Mendez sabe das ameaças. Mas se apega a exemplos internacionais para assegurar que há muito espaço ainda para todos os competidores. De acordo com ele, na China e nos Estados Unidos, os grandes varejistas online como Tencent, AlibabaAmazon não deram conta de 100% de seus volumes de entregas.

“Esses grandes players conseguiram internalizar 50% do volume de entregas. E deixaram o restante para outros players”, afirma Mendez.

Além disso, o empreendedor diz que existe um mundo a ser explorado além das grandes empresas de comércio eletrônico e de varejo. “São milhões de indivíduos que precisam enviar bens e pacotes todos os dias”, afirma Mendez. “E esse mercado é três vezes maior.”

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