Na volta da temporada de balanços, cenário global desafia empresas e bancos

Inflação, juro alto, preços de commodities metálicas e petróleo compõem o cenário macro que desafia empresas e bancos com o início dos balanços do segundo trimestre de 2022

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O desempenho das ações negociadas em bolsas de valores e o resultado financeiro de bancos e empresas têm um denominador em comum: refletem as expectativas dos mercados para o comportamento da economia.

De olho nesse princípio, investidores e analistas devem acompanhar a temporada de balanços no Brasil que começa nesta terça-feira, 19 de julho. Nos EUA, os resultados começaram a ser divulgados na semana passada e, confirmando a tradição, os bancos saíram na frente.

A safra local tem início com a Indústrias Romi nesta terça-feira, 19 de julho. Em 15 de agosto devem ser publicados os últimos resultados. Os balanços dos maiores bancos privados brasileiros estão previstos para 28 de julho, Santander Brasil; 4 de agosto, Bradesco; e 8 de agosto, Itaú Unibanco.

Lá e cá, analistas recomendam atenção aos efeitos que alguns vetores terão sobre os balanços. Para o bem e para o mal. Entre eles estão as condições financeiras mais apertadas; volatilidade das commodities metálicas; a guerra na Ucrânia, que pressionou sobretudo os preços de petróleo; e a política de Covid-Zero adotada na China, onde lockdowns travaram negócios. No Brasil de Petrobras e Vale, os preços de petróleo e minério de ferro deram alegria e tristeza nos últimos meses.

Requer também atenção por aqui um vetor específico que, dada a sazonalidade, pesa sobretudo nos resultados do 4º trimestre de cada ano, mas que pode ser identificado também no 2º trimestre: o envio de lucros e dividendos por subsidiárias às multinacionais no exterior. Esse movimento pode afetar o resultado das companhias diretamente ou através da taxa de câmbio.

A combinação desses vetores levou ao aumento da inflação e das taxas de juros – lá fora e aqui. No Brasil, porém, o dinheiro encareceu bem mais cedo do que nas maiores economias e pode afetar, de um lado, o desempenho do crédito de varejo e de pequenas e médias empresas de um lado. Mas, de outro, o juro mais alto pode ter propiciado ganhos maiores para as instituições financeiras – em crédito ou tesouraria.

Para o segundo semestre, dois vetores locais devem ser monitorados: a redução do preço da gasolina que puxa a inflação para baixo e a repercussão do aumento de transferência de renda, via Auxílio Brasil, no consumo e também em crédito, lembrando que o juro seguirá bastante elevado 2023 adentro.

Analistas internacionais constataram o poder do juro alto nos balanços de bancos na sexta-feira passada, dia de firmes ganhos nas ações do setor em Nova York.

Após a divulgação dos resultados trimestrais do J.P. Morgan Chase, Morgan Stanley, Citigroup e Wells Fargo, todos com quedas no lucro, especialistas avaliaram que eles auferiram expressiva elevação de receitas com juros e mais empréstimos pelo aperto monetário patrocinado pelo Federal Reserve (Fed), o BC dos EUA, a partir de março, informa a Bloomberg. Nesta segunda-feira, os resultados do Goldman Sachs e do Bank of America replicaram a tendência de seus pares

No Brasil, juro maior e expansão do crédito – e também da inadimplência – poderão dar a tônica dos balanços dos bancos que, no 1º trimestre deste ano, registraram um avanço diferenciado de lucros.

Pela ordem de divulgação de resultados, de janeiro a março deste ano, o Santander Brasil apurou lucro de R$ 4,005 bilhões, alta de 1,3% em relação ao mesmo período de 2021; o Bradesco lucrou R$ 6,8 bilhões, aumento de 4,7% também ante o 1º trimestre do ano passado; e o Itaú Unibanco contabilizou lucro líquido de R$ 7,361 bilhões, 15% maior na comparação com o mesmo trimestre de 2021.

“O tema principal para os bancos [brasileiros] continuará a ser o declínio na qualidade do crédito”, afirma Pedro Leduc, especialista do Itaú BBA, em relatório sobre a preferência da instituição em serviços bancários e financeiros do Brasil antes dos resultados do 2º trimestre que devem trazer “tendências mistas para os grandes bancos”.

O Itaú BBA prevê aceleração da inadimplência no varejo, afetando o crescimento da carteira de crédito. E alerta que a contaminação de pequenas e médias empresas deve ser monitorada.

Em contraponto, Leduc vê como fator de equilíbrio para as carteiras o “crédito empresarial sólido de grande dimensão e rápido crescimento e a receita líquida de juros mais [receitas] com serviços”.

O Itaú BBA aponta o Banco do Brasil como o “relativo vencedor” da temporada, com uma carteira menos cíclica e tendências mais fortes de receita líquida de juros. O Bradesco – preparado para reportar ganhos estáveis – poderia ver algum alívio se os empréstimos problemáticos de varejo desacelerassem o suficiente para compensar uma provável pressão sobre a carteira de pequenas e médias empresas. O Santander Brasil poderá reportar um declínio nos lucros com provisões mais elevadas.

A Stone e o PagSeguro devem continuar a se recuperar, mas com menos vigor do que nos trimestres anteriores, diz o Itaú BBA, que aumenta suas estimativas para a Cielo. O relatório da instituição reforça o BTG como sua melhor escolha nos mercados de capitais, enquanto o Banco ABC é a primeira escolha entre os pequenos, pela expansão dos lucros e qualidade estável do crédito.

Para os neobancos, diz o relatório, o cenário é mais difícil, porque essas instituições estão suportando o peso do cenário macroeconômico com inflação e taxas de juros elevadas.

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