O que esperar do setor tech no Brasil? Um estudo do Itaú BBA traça cenários

Relatório do Itaú BBA sobre o setor no Brasil prevê bons ventos para a área de software e desaceleração no e-commerce. E alerta: investidor vai olhar mais para rentabilidade do que para crescimento de receita

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A Meta (ex-Facebook) perdeu quase US$ 240 bilhões em valor de mercado em um único dia, o maior tombo da história das bolsas americanas na semana passada. O serviço de streaming Spotify despencou 18% no pós-mercado ao divulgar a previsão de uma quantidade menor de assinantes para o atual trimestre (efeito Joe Hogan?). Desapontaram também o PayPal, com lucro abaixo do esperado, e a Netflix, com expectativa de novas contas aquém dos anseios de Wall Street, o que deve levar a empresa ao crescimento anual mais lento desde 2015.

Há um consenso entre os analistas de que o fim das políticas de estímulo à economia e o aumento de juros nos Estados Unidos foram os principais “culpados” pelo derretimento de alguns bilhões de dólares das big tech na última semana. E no Brasil dos juros elevados e da economia retraída, quais as perspectivas para o setor?

Um estudo do Itaú BBA, o Tech Chart Book, obtido com exclusividade pelo NeoFeed, avalia a performance das techs brasileiras em 2021 e traz as perspectivas para 2022, um ano que ainda será marcado por aperto monetário, provável recessão (estimativas de queda de 0,5% no PIB, segundo o Itaú Unibanco) e uma eleição presidencial no meio do caminho. Incerteza é artigo em estoque no Brasil.

“Ainda assim, observamos muitas empresas resilientes, sobretudo no setor de software”, diz Enrico Trotta, head de tecnologia do Equity Resarch do Itaú BBA, um dos autores do estudo.

Na visão de Trotta, essa característica tem a ver com a natureza do setor, historicamente resistente às tormentas – os gastos com softwares ficaram acima da curva de crescimento do PIB durante 2020, um ano difícil para a economia -, mas também com uma maior procura por digitalização em tempos de operações remotas, uma tendência que deve se manter, em maior ou menor grau, nos próximos anos.

Uma simples comparação dos gastos com tecnologia das empresas brasileiras em relação as de países mais maduros – 8,2% contra 26% nos Estados Unidos, por exemplo – revela o potencial de crescimento na área de softwares.

Já o setor de e-commerce, pontua o relatório do Itaú BBA, deve desacelerar, com uma pressão maior sobre os custos de aquisição de clientes em virtude da retomada de consumo em lojas físicas e maior competição com empresas freemiuns. Estima-se um crescimento de 12,7% na comparação 2022/2021 ante os 13% registrados no balanço do biênio anterior.

Logtechs terão um bom ano, com pouco impacto de custos e com o e-commerce e M&As patrocinando o crescimento. Para os segmentos relacionados às telecomunicações, a sorte não é mesma: as interrupções na cadeia de suprimentos e a escassez de chips continuam e vão afetar a performance em 2022.

O Itaú BBA também avaliou um grupo de empresas, listadas em bolsa, de cada um dos setores. Deu um destaque positivo para Totvs e Sequoia Logistics e recomendação de cautela para empresas com VTEX, Locaweb e WDC – ainda com incertezas sobre recuperação de margem e problemas com provável aumento de custos de captação de cliente.

Mas Trotta faz um adendo. “A Locaweb já se reajustou bem em relação às aquisições feitas nos últimos anos (foram 13, ao custo de R$ 1,2 bilhão) e vem negociando múltiplos de EV/Ebitda (capacidade de gerar lucro) muito próximo de uma Totvs. Se os ventos da economia mudarem um pouco, podemos ver uma recuperação mais rápida da companhia.”

O analista também registra no Tech Chart Book que Totvs e Sequoia Logistics vão com vento a favor. “A primeira apresentando um sólido crescimento de receita recorrente e a segunda recuperando margens com um custo mais baixo e volumes crescentes dos players asiáticos.”

Capitalizada com os recursos da oferta restrita subsequente de ações feita em setembro do ano passado, de R$ 1,4 bilhão, a Totvs fez aquisições importantes para os negócios relacionados às áreas de fintech e business performance.

Também avançou no segmento de pequenas e médias e melhorou a eficiência tecnológica, o que deve ter um impacto na redução de custos. “Novas parcerias são prováveis para acelerar ainda mais a performance em suas verticais de negócios”, anota Trotta.

Em compensação, deve enfrentar uma competição ainda mais acirrada no ano que vem, principalmente com a Omie, que em agosto do ano passado levantou R$ 580 milhões em rodada de investimento liderada pelo Softbank.

No caso da Sequoia, os recentes resultados apontam para um ano promissor. A empresa registrou um crescimento de 135% do volume de entregas e de 108% de receita bruta na semana do Natal de 2021, em comparação com o mesmo período do ano anterior

Também investiu em inovação e pretende expandir os serviços SFx (plataforma de soluções integradas de coleta e entrega rápida, lançada em outubro) para mais de 20 cidades, o que aumentaria em 40% seu volume de entrega.

Além disso, pretende reajustar em 90% seus contratos B2B no primeiro trimestre de 2022 – uma medida crucial para recuperar as margens perdidas com a inflação e a escalada dos preços de combustível nos últimos meses. Aliás, a Sequoia já havia feito um reajuste de 50% no terceiro trimestre de 2021 para aliviar os custos.

Por fim, o relatório alerta as empresas techs brasileiras para a mudança de mentalidade do investidor, que passou a olhar para a rentabilidade com muito mais atenção do que para o crescimento. “O investidor está adotando múltiplos mais modestos de valuation para empresas muito focadas em ganhar share e aumentar receita”, diz Trotta.

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