Negócios

Trump ou Biden? Para o agronegócio brasileiro, o que importa é ser sustentável

Independentemente de quem vencer a eleição nos Estados Unidos, o setor já entendeu que é preciso investir em práticas alinhadas com a agenda ambiental para atender às demandas de outros destinos importantes das exportações, como o mercado europeu

 

O ano de 2020 ficou marcado como o período em que a pauta de sustentabilidade dominou, definitivamente, as discussões nas reuniões de executivos de companhias de grande porte.

No Brasil, o respeito às melhores práticas ambientais, sociais e de governança, expresso no jargão do mercado financeiro pela sigla ESG, foi puxado pelo ecossistema formado por clientes, acionistas e fornecedores, ávidos por mudança após o avanço exponencial do desmatamento na Amazônia e no Pantanal.

Nesse contexto, o que esperar da agenda ambiental brasileira em função do vencedor da eleição presidencial americana? Como o País deve se comportar caso o republicano Donald Trump se reeleja ou o democrata Joe Biden leve o pleito?

“Sem pensar no aspecto ambiental, uma vitória de Donald Trump, do ponto de vista político e econômico, seria mais favorável ao Brasil”, afirma Luiz Fernando Roque, analista da consultoria Safras & Mercado. “Para Trump, o meio ambiente acaba sendo algo secundário.”

Sócio-diretor da Scot Consultoria, Alcides Torres, que também faz projeções sobre o mercado de commodities agrícolas, lembra que o partido Republicano tem um histórico de negociações mais favorável ao Brasil em comparação aos democratas.

No caso de Biden, a situação seria diferente. Os democratas são mais sensíveis às questões ambientais, de direitos humanos e com foco na recuperação do PIB por meio de metas da chamada economia verde.

Essa postura foi evidenciada no primeiro debate da corrida final à Presidência dos Estados Unidos, organizado pela rede americana Fox News, quando Biden falou em oferecer US$ 20 bilhões para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia e em “consequências econômicas significativas”, caso não haja uma correção nos rumos.

Mas, independentemente do cenário que se desenha nos Estados Unidos, o agronegócio brasileiro já entendeu que a questão ambiental é fundamental para o negócio e resolveu adotar medidas concretas.

Um exemplo disso é que a JBS, maior empresa de proteína animal do mundo, anunciou a meta de rastrear todos os seus fornecedores indiretos na Amazônia e zerar o desmatamento na região até 2025.

Outro caso é o da Bunge, uma das maiores empresas do agronegócio global, que controla 100% da compra direta de fornecedores e prevê a rastreabilidade de toda a cadeia também no prazo de cinco anos.

Outro claro por parte de corporações foi a criação, em agosto, do Conselho Consultivo Amazônia, formado por Itaú Unibanco, Bradesco e Santander – os três maiores bancos privados do País -, em parceria com pesquisadores, biólogos, ex-ministros do Meio Ambiente e entidades como a Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura e a Sociedade Rural Brasileira (SRB).

Para Roque, da Safras & Mercado, independentemente da postura de maior diálogo ou não com o novo presidente americano, as grandes empresas devem se adaptar e estar um passo à frente nas negociações diretas. Em especial, com os europeus, que são mais exigentes na questão ambiental. “As empresas não vão deixar de fazer negócios por conta de uma eventual demora do governo brasileiro em agir”, afirma Roque.

Levando-se em conta a postura do presidente Jair Bolsonaro para a formação de uma base aliada no Congresso, com acordos com os partidos que formam o chamado Centrão, Roque acredita que haverá um pragmatismo maior na agenda ambiental.

O entendimento é similar ao de Felippe Serigati, pesquisador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Agro). “O governo foi prático na construção de sua base aliada. A tendência é seguir o mesmo caminho na política externa se o Biden vencer”, observa Serigati.

A razão para esse posicionamento é simples. Se Trump vencer, ele pode fazer vistas grossas à questão ambiental. Mas isso não deve mudar muito a situação, porque a pressão deve vir de outros lugares. Os países que integram o bloco europeu cobram uma postura firme do governo brasileiro contra o avanço de grileiros na Amazônia.

A pressão sobre produtores e multinacionais exportadoras aumentou depois que países como França e Alemanha fizeram duras críticas sobre a devastação nos biomas nacionais, como a Amazônia e o Pantanal. Os países do velho continente ameaçam ainda não ratificar o acordo comercial entre Mercosul e a União Europeia pelas questões ambientais do Brasil.

Outro agravante foi a ameaça de redes de supermercado do Reino Unido e varejistas de peso da Alemanha, como Lidl, Edeka e Aldi Nord, de barrar a venda de produtos originários do Brasil se o projeto de lei 2.633/2020, conhecido como “PL da Grilagem”, fosse aprovado.

Para se ter ideia da importância de americanos e europeus na pauta do setor agrícola brasileiro, as vendas externas de commodities do campo somaram 199,6 milhões de toneladas no ano passado, com receitas de US$ 96,8 bilhões, segundo a base de dados do Ministério da Agricultura. Os destaques foram as carnes, com receita de US$16,6 bilhões, e o complexo soja, com um terço do total, US$ 32,6 bilhões.

Do total transacionado em 2019, a China ficou com US$ 30,9 bilhões, o bloco europeu formado por 28 países, com US$ 16,8 bilhões. Os Estados Unidos foram responsáveis por outros US$ 7,1 bilhões.

Em 2019, o agronegócio brasileiro somou US$ 96,8 bilhões em vendas externas. Desse total, os Estados Unidos foram responsáveis por outros US$ 7,1 bilhões

Neste ano, entre janeiro e setembro, já são 171,9 milhões de toneladas exportadas e US$ 77,8 bilhões em faturamento com os embarques externos. Após a China, que soma US$ 28,6 bilhões (36,8%) das compras brasileiras, novamente aparecem a Europa, com US$ 12,6 bilhões (16,20%), e os Estados Unidos, com US$ 4,89 bilhões (6,29%).

No caso das carnes, Torres, da Scot Consultoria, acredita que o Brasil ainda leva vantagem sobre os produtores americanos em aspectos como competitividade e custos na exportação para a China. Sobre a soja, no entanto, o entendimento é diferente: um eventual governo Biden pode favorecer a compra de grãos americanos por parte dos chineses.

Mas uma consequência, no caso dos produtores de soja e milho, levaria mais tempo, já que a demanda mundial por alimentos, em meio à pandemia do coronavírus, reduziu de forma significativa os estoques brasileiros em 2020.

“Os democratas também são mais sensíveis em relação às pautas do campo. O agro americano apoiou Trump e foi um problema. Eles podem estar querendo mudar o rumo”, diz Torres.

Resta saber qual será a decisão dos americanos e a postura do governo brasileiro naquela que é considerada uma das eleições mais polarizadas da história.

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