Com três anos de atraso, N26 chega ao Brasil. Cabe mais um banco digital?

Depois de uma tentativa frustrada em 2019, o banco digital alemão N26 começará a operar no Brasil no primeiro semestre de 2022. O CEO Eduardo Prota diz como pretende se diferenciar em um mercado povoado de competidores

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O N26 tem 7 milhões de clientes no mundo

Quase três anos após anunciar que iria operar no Brasil, o banco digital alemão N26, um dos maiores da Europa, está finalmente chegando ao País, para concorrer em um mercado que já conta com nomes estabelecidos, como Inter, C6, Nubank e muitos outros.

A primeira tentativa de desembarcar no Brasil ocorreu em 2019. No fim daquele ano, porém, a empresa decidiu interromper os planos, conforme publicou o NeoFeed. Na época, contava com um time com 15 pessoas e havia solicitado a autorização ao Banco Central (BC) para operar como Sociedade de Crédito Direto (SCD).

Nesta quinta-feira, 4 de novembro, o N26 anuncia que vai começar a operar no Brasil no primeiro semestre de 2022. A fintech alemã já conta com a licença do BC em mãos, adquirida no início deste ano, e com um time de 50 pessoas no País.

Para tentar se diferenciar dos seus concorrentes, o discurso do N26 será o de que pretende ser protagonista de uma segunda geração de fintechs.

“A primeira geração de fintechs fez com que os brasileiros usassem serviços bancários no celular, melhorando a relação com os bancos”, afirma Eduardo Prota, CEO do banco digital no Brasil. “Já nós queremos ajudar a melhorar a relação do cliente com o dinheiro, para que tomem melhores decisões financeiras.”

No Brasil, há 200 mil pessoas na lista de espera do N26. O banco vai oferecer os principais serviços financeiros, como conta digital, pagamentos, cartão de crédito, empréstimos, investimentos e lançará uma comunidade de clientes na qual todos vão se ajudar em busca de uma maior saúde financeira.

Prota não detalhou como a novidade funcionará, mas disse que haverá uma participação ativa do N26 para usar a inteligência coletiva em favor do indivíduo. “Não será um grupo do WhatsApp ou uma rede social”, afirma o executivo.

Eduardo Prota, CEO do N26 no Brasil

Segundo ele, o banco digital não vai se concentrar em oferecer conteúdo que ensine as pessoas a investir melhor ou apresentar gráficos que mostrem como o dinheiro está sendo gasto, mas irá orientar o que fazer. “Com o avanço dos bancos digitais, a figura do gerente de banco, que te orienta, se perdeu”, afirma Prota.

Um dos focos do N26, segundo Prota, será promover a disciplina financeira do cliente. “Eu, por exemplo, entendo bem do mercado financeiro, mas esqueço de pagar boleto e deixo dinheiro parado na conta. É chato e maçante. As pessoas não fazem isso com qualidade e isso gera ansiedade”, diz o executivo, que antecipou que uma das soluções vai possibilitar a automatização de decisões financeiras.

A solução será exclusiva para o mercado brasileiro, sem ter sido testada em outros países. O desenvolvimento e a tecnologia são 100% locais, disse Prota, que pretende aumentar o tamanho do time brasileiro de 50 para 300, até o fim do ano que vem.

Por uma coincidência numérica, o Brasil será o país de número 26 na história do N26, que já está em 25 mercados – está em 24 países da Europa e nos Estados Unidos. No total, o banco digital tem 7 milhões de clientes.

O banco chega ao mercado brasileiro depois de ter levantado, em outubro deste ano, US$ 900 milhões na sua mais recente rodada de investimentos. A instituição, com isso, passou a ser avaliada em US$ 9,2 bilhões. Na Alemanha, está atrás do só Deutsche Bank, que vale quase US$ 28 bilhões.

O Nubank, que tem 48,1 milhões de clientes e vai abrir capital em dezembro, nos EUA e no Brasil, espera ser avaliado em US$ 50,6 bilhões no IPO. O Inter, que pretende transferir suas ações da B3 para Nasdaq até o fim do ano, tem 14 milhões de usuários e vale US$ 6,1 bilhões. O C6 Bank tem 11 milhões de clientes.

Além deles, o N26 encontrará no Brasil a concorrência de nomes como Neon, Original, BS2, BV, Banco Pan, BTG+ e aqueles que são ligados aos grandes bancos brasileiros, como Next, do Bradesco, e iti, do Itaú.

Sem falar nas carteiras digitais que têm cumprido a função de banco, como o PicPay e a Caixa Tem, aplicativo da Caixa que surgiu em 2020 para distribuir o auxílio emergencial criado pelo governo durante a pandemia.

Na visão de João Bragança, diretor para a área de serviços financeiros da consultoria Roland Berger, o N26 desembarca em solo brasileiro com uma missão desafiadora, pois competirá em um mercado “bastante povoado”.

“Há as soluções mais simples, para o público de baixa renda, como as carteiras digitais; há o Nubank e o Inter para um cliente que está em um nível acima; e temos também o C6 e o Original, para um público ainda mais acima, por exemplo”, diz Bragança.

Não significa, porém, que não haja espaço para o N26. Na avaliação de Bragança, o banco digital alemão poderá ter sucesso se tentar aproveitar a tecnologia e as pessoas que já têm no exterior para reduzir o custo de investir no Brasil e obter margens maiores. “Os players brasileiros tiveram de construir tudo do zero”, afirma.

Sobre o plano do N26 de atacar questões de saúde financeira, Bragança é cauteloso, pois lembra que o mercado brasileiro já tem procurado apresentar soluções para esse tema, mas ressalta que o banco digital alemão pode se valer da sua experiência, na Europa, com o open banking, que ainda está engatinhando no Brasil.

“O N26 pode dizer que aprendeu a interpretar os dados do clientes do mercado alemão e mensurar riscos de uma forma que os brasileiros não sabem, mas uma coisa é o comportamento do alemão, outra coisa é o do brasileiro”, diz Bragança.

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