Fundos internacionais: a próxima fronteira da XP

Com parcerias com casas de renome, como Bridgewater, Wellington Management, BlackRock e Oaktree, a XP tem hoje cerca de R$ 15 bilhões de ativos sob custódia, 101 fundos e 473 mil cotistas nessa frente. E está ampliando essa oferta com a chegada de um fundo quantitativo da Systematica

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Gustavo Pires, sócio e diretor de fundos de investimento da XP

Da modesta sala de 25 metros quadrados que abrigou suas primeiras operações, em Porto Alegre, no ano de 2001, a XP foi longe e conquistou seu espaço no mercado. Em 2019, a companhia levantou US$ 2,2 bilhões ao abrir capital na Nasdaq, quando foi avaliada em US$ 14,9 bilhões. Hoje, seu valor de mercado está em US$ 24 bilhões.

Outros números traduzem essa trilha. Com o discurso de democratizar os investimentos no País, a XP chegou a 2,8 milhões de clientes e a R$ 660 bilhões de ativos sob custódia. Esse mantra segue sendo o pilar da companhia. Mas agora, ele também envolve, literalmente, outras fronteiras: o acesso dos brasileiros aos fundos internacionais.

“O que fizemos em 2010, trazendo para o varejo gestores locais extremamente inacessíveis, é muito parecido com o que estamos propondo agora”, diz Gustavo Pires, sócio e diretor de fundos de investimento da XP, ao NeoFeed. “Em pouco mais de 18 meses, fizemos uma revolução silenciosa no mercado de distribuição internacional.”

Nesse intervalo, a empresa trouxe para o País ofertas de gestoras de renome como BlackRock, Bridgewater e Ashmore. E saiu de uma base de 36,1 mil cotistas de fundos internacionais, em junho de 2019, para 434,7 mil cotistas no fim de 2020, e 473,9 mil neste mês de janeiro.

Mais alguns indicadores dão a medida dessa escalada. De R$ 1,6 bilhão em ativos sob custódia em fundos internacionais, em 2019, a companhia chegou a R$ 13 bilhões, no ano passado, e está próxima de R$ 15 bilhões, nesse início de ano.

Levando-se em conta todo o mercado, os fundos offshore encerraram 2020 com um volume de R$ 55,57 bilhões no País, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). A cifra representa menos de 1% dentro dos R$ 6 trilhões movimentados pela indústria local de fundos no período.

“O produto internacional ainda tem uma penetração irrelevante na carteira dos brasileiros”, diz Pires. No passo para ampliar o portfólio à disposição dos investidores locais, a XP lança nesta semana mais uma opção no mercado. Trata-se do Blue Trend Strategy, em uma parceria com a Systematica, gestora global criada pela brasileira Leda Braga, conhecida como a “rainha dos fundos quantitativos”.

A estratégia, que também conta com a participação da britânica Schroders, marca justamente a estreia da plataforma internacional da XP nessa modalidade, cuja decisão de investimento é baseada em algoritmos e modelos matemáticos. Fundada em 2004 e com negociações em 25 países, a Systematica tem US$ 9,1 bilhões sob gestão.

Já o Blue Trend Strategy tem 16 anos de histórico e investe em 175 mercados globais, com diversas classes de ativos, entre elas, juros futuros, moedas e crédito, que compõem uma carteira de US$ 2,6 bilhões em ativos sob gestão.

Em 2020, o fundo gerou um retorno de 14,02%, acima de benchamarks como o J.P. Morgan Bond Index, de 6,13%, e o SG Trend Index, de 6,28%. Desde o seu lançamento, em 2004, o fundo acumula um retorno anual de 7,43%.

Levando-se em conta todo o mercado, os fundos offshore encerraram 2020 com um volume de R$ 55,57 bilhões no País, segundo a Anbima

A chegada da Systematica também traz outros dois marcos à oferta da XP nesse âmbito. Com a casa, a empresa chega a uma oferta de 101 fundos e 32 gestoras parceiras. No fim de 2019, eram 37 fundos e 11 gestoras internacionais na plataforma da companhia.

“A Systematica é a cereja do bolo de uma segunda fase da estratégia que estamos iniciando agora”, diz Pires. A orientação é sofisticar ainda mais as ofertas nessa seara. “Vamos buscar ofertas de casas menores, mas não menos importantes, e que são extremamente inacessíveis inclusive no plano global.”

Dentro desse escopo, Pires cita que a XP já tem outras 12 conversas em andamento. A princípio, a ideia é trazer ao menos uma novidade por mês ao portfólio. No radar, figuram, por exemplo, vertentes como fundos de private equity e de venture capital.

Com a Systematica, especificamente, as projeções de aderência à carteira dos investidores brasileiros são altas. “Nossa expectativa é chegar a um patrimônio de mais de R$ 1 bilhão no fundo em uma janela de menos de seis meses.”, observa Pires.

Em 2020, outros fundos se destacaram na carteira da XP. Em termos de captação, Pires cita as ofertas costuradas com a Wellington Management e o Morgan Stanley. E, em termos de repercussão no mercado, as parcerias com a Oaktree e a Bridgewater, comandadas, respectivamente, por Howard Marks e Ray Dalio, duas lendas desse mercado.

A busca por nomes fortes e, ao mesmo tempo, por diversificação, foi a tônica da primeira fase da estratégia em fundos internacionais, que começou a ganhar peso em meados de 2019. Nessa direção, além das ofertas já citadas, a XP trouxe ofertas de casas como Moneda, Aberdeen, Axa e Pimco.

No plano da diversificação, o portfólio inclui ofertas em ações, renda fixa, crédito, multimercados e alternativos, além da abordagem centrada em diferentes mercados e temas, como China, América Latina, Mercados Emergentes, ESG Global, Saúde, Tecnologia, Commodities e Empresas com Foco em Lideranças Femininas.

Para colocar em pé cada uma dessas ofertas, a XP compra um share class internacional em Luxemburgo, principal mercado global de feeder funds, juntamente com a Irlanda. A empresa importa o fundo em uma estrutura menos burocrática e mais acessível.

A partir dessa equação, as aplicações mínimas variam entre R$ 100 e R$ 5 mil. Há ofertas disponíveis, por exemplo, em reais, dólar e euro, em opções com e sem proteção cambial. Para investir, não é preciso ter uma conta no exterior. Basta ter uma conta na XP.

Sob esse contexto, o portfólio se divide entre fundos destinados a investidores qualificados e investidores em geral. Nesse último plano, o perfil de alocação do patrimônio fica, em média, entre R$ 5 mil e R$ 50 mil. Considerando todo o leque de cotistas, há casos de investimentos da ordem de R$ 70 milhões.

Para Pires, o casamento entre a estruturação desse modelo com um conjunto de fatores macro, especialmente no ano passado, explica a evolução dos números da XP. Além do cenário de taxa de juros baixa, que vem estimulando os investidores a buscarem maior risco, questões como a oferta ainda limitada no mercado acionário local.

“E, em 2020, com a pandemia, o mercado global, na contramão do Brasil, performou muito bem. Se olharmos a bolsa brasileira, ficamos para trás em diversos aspectos”, afirma. “A volatilidade do mercado veio para ficar e, nesse cenário, vai ser cada vez mais indicado ter um portfólio mais diversificado e menos centrado em poucas posições.”

A XP não é a única empresa que está investindo nesse espaço. Outros nomes como Bradesco, Itaú e, principalmente, BTG Pactual tem reforçado as apostas nesse campo, de olho nas perspectivas de crescimento dos investimentos além fronteiras dos brasileiros.

Além dos bancos, as corretoras também estão reforçando seus portfólios nesse espaço, abrindo as portas do mercado internacional para investidores brasileiros. São os casos, por exemplo, da Stake e da Avenue. Essa última, por exemplo, já tem mais de 230 mil clientes e oferece milhares de produtos que estão disponíveis no mercado americano.

“Esse princípio de diversificar a carteira em ativos que não sejam brasileiros é um caminho sem volta”, diz Ricardo Rocha, professor de finanças do Insper, que aponta ainda outras empresas que estão ocupando esse segmento, a Órama; a Nubank, com a aquisição da Easynvest; e o Credit Suisse, a partir do acordo com a Modalmais.

“O BTG Pactual, no entanto, é o grande player para ficar atento”, observa Rocha. “A XP tem a vantagem de ter saído na frente, mas, ao mesmo tempo, manter-se na vanguarda é uma tarefa ainda mais complicada”, complementa.

A XP entende, de fato, que a concorrência deve se acirrar no segmento. Mas adota o discurso de que esse é um mercado ainda subexplorado, com muito terreno ainda a ser explorado.

“Não acho que o Brasil vá virar, de uma hora para outra, o Chile”, diz Pires, citando o mercado benchmark da região, cujas famílias investem 36% de seu patrimônio fora do país. “Mas os fundos internacionais são um dos mercados de maior potencial e, por consequência, uma das verticais que mais podem crescer dentro da XP nos próximos anos.”

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