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A foodtech que conquistou Jeff Bezos, da Amazon, busca uma fórmula para crescer no Brasil

A startup chilena NotCo investe em fabricação, pesquisa e distribuição para superar a barreira da alta tributação sobre produtos de origem vegetal no País. E não teme a concorrência de gigantes como a suíça Nestlé e a americana Tyson Foods

 

A versão integral do NotMilk, leite de origem vegetal da NotCo

Um algoritmo de inteligência artificial batizado de Giuseppe. Capaz de analisar e mapear uma extensa base de propriedades moleculares de alimentos de origem animal. E de reproduzir seus sabores e texturas em novos produtos, desenvolvidos a partir de ingredientes vegetais.

Com essa fórmula, a foodtech chilena The Not Company, fundada em 2015, criou receitas como a maionese NotMayo e o leite NotMilk. E despertou o apetite do Bezos Expeditions. Em março de 2019, o fundo do bilionário Jeff Bezos liderou uma rodada de US$ 30 milhões na startup, em seu primeiro e único investimento na América do Sul.

Os investidores da startup chilena incluem ainda outros grandes nomes, como a gestora argentina Kaszek e o Maya Capital, de Lara Lemann, filha de Jorge Paulo Lemann.

Na mesma época em que recebeu dinheiro de Bezos, a novata, mais conhecida como NotCo, desembarcou no Brasil. E agora, precisa contornar algumas barreiras para que seus produtos não fiquem restritos ao bolso de poucos consumidores no País, visto como o seu principal mercado nos próximos anos.

“Nós tivemos que mudar um pouco o nosso posicionamento no Brasil”, diz Matías Muchnick, CEO e cofundador da NotCo, ao NeoFeed. Ele cita os impactos da tributação local mais elevada sobre os produtos de origem vegetal na operação. “Hoje, nós somos uma companhia de produtos premium no País.”

Uma embalagem de um litro de NotMilk, por exemplo, é vendida, em média, por R$ 17,90. Para Muchnick, essa é a principal razão da baixa participação do leite vegetal dentro do consumo total de leite no Brasil, na faixa de 2%. Enquanto em países como Estados Unidos, México e Chile, esse índice é de 14%, 7% e 5%, respectivamente.

“É estranho pensar que um produto saudável e sustentável esteja sujeito a essa carga”, afirma. “Mas faremos de tudo para baixar os preços e permitir que mais pessoas possam ter acesso aos nossos produtos.”

A primeira medida foi o investimento na fabricação local. No fim do ano passado, a NotCo fechou três parcerias para a produção de cada um dos itens do seu portfólio – o nome dos parceiros não são revelados. Além do leite e da maionese, esse cardápio inclui um sorvete, lançado em dezembro no Brasil.

Com a rica biodiversidade brasileira, a empresa também procura parceiros para desenvolver pesquisas e ingredientes locais, que proporcionem um custo mais reduzido em comparação aos insumos usados hoje em seus produtos. Ainda em fase inicial, a estratégia busca acordos com produtores e em segmentos como a indústria farmacêutica.

Essa abordagem tem relação direta com o plano de montar um laboratório de pesquisas no País. E com a previsão de ampliação da equipe do escritório brasileiro, hoje composta por 16 funcionários e comandada, desde agosto, por Luiz Augusto Silva, ex-executivo da Danone. A ideia é fechar 2020 com 50 profissionais.

A empresa está investindo ainda na ampliação de sua presença no varejo. Depois da parceria inicial com o Pão de Açúcar, a companhia vem buscando grandes redes e distribuidores, especialmente em São Paulo. E já fechou acordos com bandeiras como Carrefour, St. Marche e Sam’s Club, além das redes Zona Sul, no Rio de Janeiro, e Angeloni, em Santa Catarina.

A expansão dessa cadeia de distribuição, um fator apontado por Muchnick como outro grande desafio da NotCo, também integra os esforços para reduzir os preços na ponta. “À medida que ganhamos escala, nós teremos mais peso para negociar melhores condições com fornecedores e parceiros”, diz o CEO.

Em alta

Se elementos como a tributação ainda dificultam a oferta, para o CEO da NotCo, o mesmo não pode ser dito sobre a demanda por produtos mais sustentáveis. “Essa questão deixou de ser uma tendência para se tornar algo mainstream”, diz. Muchnick. “Cada vez mais, o modo como um produto é fabricado, sua origem e seus impactos no clima e no meio-ambiente têm peso na decisão dos consumidores.”

Algumas projeções seguem essa visão otimista. O banco suíço UBS, por exemplo, prevê que o mercado global de proteínas à base de plantas cresça 28% ao ano até 2030, saindo de uma receita de US$ 4,6 bilhões, em 2018, para US$ 85 bilhões.

Hoje, já há exemplos que reforçam essas boas perspectivas. Uma das pioneiras na produção de hambúrgueres vegetais, a americana Beyond Meat abriu capital em maio de 2019. No processo, captou US$ 241 milhões e foi avaliada em cerca de US$ 1,5 bilhão. E, apesar das oscilações desde então, hoje a companhia tem um valor de mercado de mais de US$ 7 bilhões.

“Nosso modelo se aproxima da proposta da Beyond Meat”, afirma Muchnick. “Mas buscamos um produto melhor. E em quatro categorias, não apenas uma.” Nesse cenário, a NotCo programa para os próximos meses o lançamento de seu hambúrguer. E já está desenvolvendo novas linhas, entre elas, a de atum.

O trio fundador da NotCo: Karim Pichara (à esq.), Matías Muchnick e Pablo Zamora

Enquanto isso, a startup enxerga a movimentação intensa de grandes companhias tradicionais para ganhar presença nesse espaço, seja por meio de parcerias ou da compra de participações em foodtechs.

A Nestlé tem sido uma das mais ativas nesse processo. Em 24 de janeiro, a gigante suíça anunciou sua estratégia mais recente nessa direção, ao fechar uma parceria com as canadenses Burcon Nutrascience e Merit Functional Foods para o desenvolvimento e a produção de proteínas vegetais.

Uma das maiores empresas de proteína animal do mundo, a americana Tyson Foods também está se mexendo. Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, a companhia anunciou a criação da Coalizão para a Proteína Global, com o objetivo de promover proteínas sustentáveis.

Além de lançar uma marca para reunir seus produtos de origem vegetal, a Tyson Foods já investiu em companhias do setor, entre elas, a Beyond Meat e as também americanas Memphis Meats e New Wave Foods.

A longa lista de exemplos inclui ainda parcerias entre o McDonald’s e a Beyond Meat, e entre o Burger King e a americana Impossible Foods, para testar e vender hambúrgueres veganos. Uma das principais foodtechs do mundo, a Impossible Foods já atraiu investimentos de fundos como Temasek e Google Ventures.

Atenta a essa corrida, a NotCo parece não temer o aumento da concorrência. Em especial, das gigantes tradicionais da indústria alimentícia. “Nós estamos à frente dessas companhias em termos de tecnologia e também na forma como falamos com os consumidores”, afirma Muchnick.

Ele ressalta que a NotCo nasceu nesse mundo, diferentemente dessas empresas, que precisam convencer o novo perfil de consumidores de que estão abraçando sinceramente essa causa. E não apenas sob a ótica da oportunidade de mercado.

“Nossa barreira ainda é a distribuição. Mas o desafio deles é maior do que o nosso”, observa Muchnick, que diz estar aberto a parcerias. Ele descarta, no entanto, qualquer proposta de aquisição feita por essas companhias. “Nós somos uma reação ao modelo proposto por elas. Se aceitássemos algum acordo, perderíamos todo o nosso propósito.”

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