Com startups e algoritmos, a Falconi busca um caminho além da gestão

A consultoria de Vicente Falconi renova seu conselho, estrutura um corporate venture capital e vai criar duas novas companhias: uma de segurança digital e outra para atender pequenas empresas

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Vicente Falconi, o fundador da Falconi

Ao longo dos anos, o consultor Vicente Falconi ganhou fama e clientes com o método de gestão PDCA (do inglês Plan, Do, Check, Act). Em seis décadas de carreira, o professor, como é mais conhecido, colecionou pupilos do calibre de Jorge Paulo Lemann, Jorge Gerdau e Roberto Setubal e consagrou a Ambev, a maior cervejaria do Brasil, como um modelo de eficiência.

Agora, isso parece não ser mais suficiente para fazer a consultoria que leva o seu nome a seguir crescendo em meio um mercado de consultoria que resolveu trilhar outros caminhos além da gestão pura e simples. “Num futuro próximo, nossa concorrência virá de produtos e serviços tecnológicos, não de consultorias tradicionais”, diz Viviane Martins, CEO da Falconi, ao NeoFeed.

Para enfrentar esse novo cenário, a Falconi está mergulhando de cabeça em conceitos como inteligência artificial e big data. A adaptação a esse contexto envolve ainda a renovação no seu board, a criação de novos e futuros spin-offs, um corporate venture capital e produtos e serviços digitais vendidos como assinatura.

“Antes, a Falconi entendia que o seu método resolvia tudo”, diz um executivo do setor. “Hoje, a companhia está buscando parcerias onde não tem expertise, inclusive com empresas que, em algum momento, possam ser suas rivais.”

Para essa fonte, o modelo que a Falconi está perseguindo, com boa dose de tecnologia embarcada, está mais em linha com a nova realidade do mercado de consultoria e com a proposta de rivais como americanas Accenture e McKinsey.

“A McKinsey deixou de pensar só no planejamento e partiu também para a execução. E a Accenture passou a investir mais na transformação cultural”, afirma outra fonte do setor. “A Falconi está alguns passos atrás, mas também está seguindo esse caminho, pois percebeu que o argumento anterior de sucesso com empresas como a Ambev já não era suficiente.”

Um exemplo dessa nova postura da Falconi aconteceu com a renovação do board. No fim de abril, três novos membros se juntaram a Vicente Falconi, Márcio Fróes e Silvio Morais no Conselho de Administração da Falconi. Todos eles, donos de uma extensa bagagem nos campos que interessam agora à consultoria.

Um dos assentos passou a ser ocupado por Guga Stocco. Cofundador da gestora Domo Invest e da empresa de capital de risco Futurum Capital, ele tem passagens pelas áreas de inovação e tecnologia de empresas como Buscapé, Banco Original e Microsoft.

Outra integrante é Mônica de Carvalho, que já ocupou cargos de liderança em empresas como DM9DDB e, há 7 anos, é diretora de negócios do Google. Professor emérito do departamento de Ciência da Computação da UFMG, Nivio Ziviani completa o trio.

Viviane Martins, CEO da Falconi

“O Guga tem um olhar de modelos de negócios de base tecnológica e crescimento exponencial”, diz Viviane. “A Mônica traz um ângulo de dados e também de marketing. E o Nivio é uma das grandes referências em inteligência artificial no País.”

A maneira de se relacionar com as startups também mudou. Hoje, a consultoria tem mais de 300 delas mapeadas. A cada projeto que desenvolve, a empresa identifica se há alguma solução criada por esse ecossistema que possa encurtar a obtenção de resultados naquele cliente.

Para a Falconi, um dos ganhos dessa equação é a agilidade. Antes, um projeto durava de 12 a 15 meses, em média. Hoje, leva de 4 a 5 meses. Para as startups, a empresa já gerou uma receita de mais de R$ 43 milhões e plugou essas ofertas em cerca de 90 projetos.

Outra tendência que vem de consultorias internacionais que a Falconi está abraçando é a formação de veículos de investimentos em startups e empresas de outros setores. A americana Bain & Company, nome tradicional do setor, é uma das consultorias que usa esse expediente, por meio dos braços Bain Capital e Bain Capital Ventures.

A Falconi está também estruturando o seu veículo de corporate venture capital que, a princípio, terá 10% do lucro líquido anual da empresa reservado para os seus investimentos.

Em 2020, a Falconi reportou um lucro líquido de R$ 44,4 milhões, contra os R$ 45,8 milhões contabilizados em 2019. A receita líquida da consultoria foi de R$ 261,5 milhões, um recuo diante dos R$ 305,8 milhões apurados um ano antes.

“Nossa tese é encontrar empresas que tenham um diferencial em tecnologia e inteligência artificial”, afirma Viviane. “Serão cheques pequenos e a ideia é buscar investimentos conectados ao desenvolvimento a quatro mãos.”

O pontapé dessa estratégia está sendo dado com dois aportes – de valor não revelado. O primeiro deles, na Innovation Intelligence, startup do Vale do Silício especializada em big data e deep learning. O segundo, na brasileira H:Data, healthtech dona de uma plataforma de dados e de gestão hospitalar.

Spin-offs à vista

O corporate venture capital dá sequência a uma estratégia iniciada em 2019, com a criação da gestora de private equity Falconi Capital. Esse braço tem foco em empresas mais maduras de segmentos como educação, alimentos, cosméticos e cibersegurança.

É a partir de um investimento neste último setor que a Falconi está criando mais um spin-off. No fim do ano, a Falconi vai lançar uma empresa de serviços de segurança da informação, ainda sem nome definido, em parceria com a GC Security, que recebeu um aporte da Falconi Capital no início de 2020.

Em um segundo projeto, a consultoria programa para março de 2022 o lançamento da Step 1, unidade que irá atender pequenas empresas, com faturamento anual de R$ 350 mil a R$ 10 milhões, por meio de um modelo 100% digital.

A divisão nasce dentro da estrutura da Falconi, mas a ideia é que siga o mesmo caminho da FRST, edtech lançada em 2020 e que foi o primeiro spin-off da consultoria, dentro da estratégia de investir em novos modelos de negócio.

Ainda em 2020, uma segunda iniciativa nessa direção veio com a MID, unidade de consultoria para médias empresas, com receita anual entre R$ 10 milhões e R$ 300 milhões, e que já tem mais de 100 clientes e que deve ter uma no México, no primeiro semestre de 2022.

É também nesse intervalo que a Falconi prevê colocar no mercado outra iniciativa, batizada provisoriamente de Falconi Brain. O projeto talvez seja aquele que melhor ilustra o encontro entre o modelo tradicional e os novos ingredientes da consultoria.

Hoje, os mais de 600 consultores da operação dividem espaço com uma recém-formada equipe de ciência de dados e de inteligência artificial. E com um pacote de algoritmos que está sendo desenvolvido por esse time, composto por 25 profissionais e em expansão.

Esses algoritmos serão alimentados pelo conhecimento acumulado pela Falconi em mais de 6 mil projetos. A ideia é oferecer aplicações baseadas nesses e em outros dados, especializadas em segmentos da economia e que serão vendidas como serviço, por meio de assinaturas.

O primeiro fruto é um algoritmo para o agronegócio, focado em ampliar a produtividade no cultivo de soja e de milho. A aplicação foi testada em um projeto-piloto com 1,6 mil produtores.

“Agora, além dos projetos, vamos ter serviços e produtos digitais, com receita recorrente”, diz Viviane. “E a inteligência artificial vai ser o motor por trás dessa jornada, além de ajudar o trabalho dos próprios consultores.”

Para uma fonte do mercado de consultorias ouvida pelo NeoFeed, é justamente no equilíbrio entre o passado e o futuro que reside o maior desafio para a transformação da Falconi.

“O board já está mais diverso e alinhado com os novos tempos. Em contrapartida, ainda carece de uma participação maior dos consultores, que entendem, de fato, desse mercado”, diz essa fonte. “Entretanto, ainda há consultores presos às tradições e que podem tornar essa reinvenção muito mais lenta.”

O desafio da Falconi, que durante seis décadas reestruturou as maiores empresas brasileiras, é fazer a lição de casa em si mesmo. E provar que em casa de ferreiro, espeto não é de pau.

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