Depois de encolher 60%, a Oyo, de hotéis de baixo custo, mira US$ 1,2 bi em IPO

Depois de enxugar suas operações ao redor do mundo, saindo inclusive do Brasil, a startup indiana, conhecida como o “unicórnio dos hotéis de baixo custo”, busca virar a página com o IPO

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Fundada em 2013, a indiana Oyo ganhou o mundo levando na bagagem a bandeira da hospedagem de baixo custo, por meio de acordos com hotéis independentes, que passavam por um banho de loja e adotavam sua bandeira. Em troca, tinham acesso a tecnologias para melhorarem suas operações.

A partir desse modelo, a startup chegou a mais de 800 cidades, em 80 países, atraiu investidores como Softbank, Airbnb e Didi, e foi avaliada em US$ 10 bilhões. Com a pandemia, porém, a empresa fundada por Ritesh Agarwal ingressou em uma temporada nada positiva.

Agora, porém, a Oyo planeja mudar esse destino. E o novo endereço é a bolsa de valores da Índia. Segundo a agência americana Bloomberg, a empresa protocolou documentos preliminares para uma oferta pública de ações que pode acontecer já na próxima semana.

No IPO, a startup que ficou conhecida como o “unicórnio dos hotéis de baixo custo” planeja captar, pelo menos, US$ 1,2 bilhão, mas não descarta buscar uma cifra superior. Entre 20% e 25% da cifra arrecadada envolveria uma oferta secundária, mas Agarwal não deve vender sua participação, estimada em mais de 30%.

A empresa quer aproveitar o bom momento para ofertas públicas de companhias de base tecnológica no mercado indiano. Em julho, por exemplo, a startup de delivery Zomato captou US$ 1,3 bilhão e foi avaliada em cerca de US$ 8 bilhões em seu IPO.

Com a sua oferta, a Oyo estaria buscando uma avaliação entre US$ 12 bilhões e US$ 14 bilhões, acima de sua última avaliação pública, de cerca de US$ 9 bilhões, de acordo com a consultoria americana CB Insights.

A Oyo chegou a essa cifra depois de um aporte estratégico de US$ 5 milhões realizado pela Microsoft, em julho deste ano, como parte do plano da startup de reforçar e de desenvolver novos recursos tecnológicos para a sua plataforma.

No mesmo mês, a empresa levantou US$ 660 milhões em um financiamento de dívida, mesmo caminho adotado três meses antes, quando o Softbank injetou US$ 200 milhões na operação. Desde a sua fundação, a companhia já captou US$ 4,1 bilhões.

Esses recursos e a conclusão de um eventual IPO buscam dar uma virada na operação da companhia, bastante afetada pelos impactos gerados pela Covid-19 no turismo em todo o mundo, a partir de março de 2020.

“Construímos algo por tantos anos e levou apenas 30 dias para que o negócio fosse reduzido em mais de 60%”, afirmou Agarwal, em entrevista concedida em julho deste ano à Bloomberg TV. Na conversa, ele ressaltou que a pandemia atingiu a startup como um “ciclone”.

Esse “fenômeno” se traduziu no encerramento ou no enxugamento de diversas operações da Oyo pelo mundo e na demissão de mais de 5 mil funcionários, além da adoção de medidas como mudanças na política de remunerações dos executivos da empresa.

Nem tudo, no entanto, pode ser atribuído à pandemia. A Covid-19 teve, de fato, grande peso nesse contexto. Mas, ao mesmo tempo, só realçou um pacote de problemas na condução e na governança da empresa, que estava mascarado antes da crise sanitária.

A operação da Oyo no Brasil ilustra esse cenário. Em fevereiro desse ano, a startup deu início a um processo que praticamente encerrou sua presença direta no País e na América Latina, alegando a extensão dos efeitos da Covid-19.

Na região, a empresa também mantinha uma operação no México. Em nota divulgada na época, a Oyo informou que sua estrutura de atendimento a parceiros e hóspedes na América Latina passaria a ser feita por meio de um modelo de serviço exclusivamente digital, a partir da matriz indiana.

Antes, em 2020, a empresa já tinha sua reduzido sua equipe no Brasil para 150 funcionários. O investimento em uma estrutura de grande porte, em tão pouco tempo, era um dos problemas que foram expostos com a chegada da pandemia.

De um time formado por cerca de 50 funcionários quando desembarcou no Brasil, em meados de 2019, a empresa rapidamente deu um salto para 1,7 mil profissionais, nos meses seguintes.

“Existia uma certa prepotência em mostrar para o mercado que a operação era parruda”, afirmou um ex-executivo da empresa, na época, ao NeoFeed. “E, a partir dessa postura, havia coisas fora da realidade, como contratar pessoas de empresas do setor, como Accor, ganhando três vezes mais.”

Essa mesma fonte ressaltou que a intensa queima de caixa na operação ganhou ainda mais fôlego quando, no segundo semestre de 2019, o WeWork, na época a maior estrela do portfólio do Softbank, fracassou em sua tentativa de abertura de capital.

A Oyo teria se transformando, então, na menina dos olhos do Softbank, um status que não perdurou por muito tempo. O caso do WeWork chamou a atenção para os resultados deficitários e os gastos desenfreados no portfólio do fundo japonês. E isso fez com que o Softbank passasse a exigir que todas as companhias investidas priorizassem a última linha do balanço. Entre elas, a Oyo.

Quando a empresa passou a não entregar resultados no País, a pressão ganhou força e foi o estopim para a reestruturação, um cenário que só foi reforçado com a chegada da Covid-19. Resta saber se, com a abertura de capital, o Brasil entrará novamente no roteiro da startup.

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