Itaú Unibanco lucra acima da expectativa, mas o CEO prega cautela para 2022

Depois de reportar um resultado acima das projeções de analistas em 2021, o banco enxerga desaceleração no crescimento de linhas como a sua carteira de crédito, diante de um cenário macro mais difícil

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Em fevereiro do ano passado, Milton Maluhy Filho assumiu oficialmente o comando do Itaú Unibanco. Seus primeiros doze meses no posto foram coroados na noite da quarta-feira, 10 de fevereiro, com a divulgação do resultado de 2021 acima das projeções de analistas.

Entre outros indicadores, o lucro líquido recorrente no quarto trimestre de 2021 foi de R$ 7,16 bilhões, alta de 32,9% e acima das estimativas do mercado, que apontavam para a faixa de R$ 6,6 bilhões. No ano consolidado, houve um crescimento de 45% no indicador, para R$ 26,8 bilhões.

Os números foram seguidos por uma reação positiva do mercado. Na abertura do pregão desta sexta-feira na B3, as ações da empresa estavam sendo negociadas a R$ 26,70, com alta de 6,59%, por volta das 10h15.

Apesar do otimismo dos investidores, Maluhy Filho prefere adotar um tom mais comedido quando o tema são as perspectivas para 2022. Apesar de ressaltar um olhar construtivo para o segmento, um dos panos de fundo para essa visão é a carteira de crédito do banco, que somou R$ 1,02 trilhão em 2021, um salto de 18,1% sobre o volume registrado em 2020.

“Como tivemos um ano muito forte em 2021, é natural que haja um arrefecimento, seja pela base de comparação ou pelo que estamos vendo de perspectivas macro”, disse o CEO do Itaú, em conversa com jornalistas nesta manhã. “Então, vamos operar com um pouco mais de cautela em 2022.”

Esse contexto se reflete no guidance dado pelo banco, que mostra uma previsão de desaceleração no crescimento nessa carteira. No ano, para o resultado consolidado de todas as operações, a projeção é de um avanço entre 9% e 12%. Já no que diz respeito ao Brasil, a estimativa gira entre 11,5% e 14,5%.

“Vamos observar, por exemplo, as grandes empresas. Há uma discussão se o mercado de capitais retoma”, afirmou Maluhy Filho, que prevê um mercado relativamente aquecido nessa esfera. “Dependendo de como estiver a atividade, podemos ‘encarteirar’ mais ou menos crédito no balanço.”

Para o executivo, outra linha que deve apresentar um avanço menos substancial em 2022, em função do aumento da taxa básica de juros, é o crédito imobiliário para pessoas físicas, que registrou um recorde de R$ 46 bilhões no ano passado, alta de mais de 130% sobre 2020.

Em outros indicadores, o Itaú projeta um ROE (retorno sobre o patrimônio) em torno de 20% para 2022, em linha com o índice de 20,2% reportado no quarto trimestre de 2021. Para as receitas de prestação de serviços e resultado de seguros, a expectativa é de alta entre 3,5% e 6,5%, no consolidado, e entre 4% e 7% no Brasil.

Outro ponto abordado pelo CEO foi a inadimplência, que foi de 2,5% no quarto trimestre de 2021, ante 2,2% em igual período de 2020. Ele observou que já há sinais de elevação desses índices, que se refletiram no aumento de 2,8% do custo de crédito entre outubro e dezembro, para R$ 6,2 bilhões.

Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco

“Estamos entrando em um ano com um ciclo de aumento da taxa de juros, uma questão fiscal com pouco espaço para auxílios do governo com uma retomada do consumo”, disse ele. “Isso naturalmente impacta o endividamento das famílias, mas ainda estamos operando com índices bem abaixo dos patamares históricos.”

Fintechs no radar

Ao que tudo indica, os planos do Itaú Unibanco para o ano também não passam por uma eventual aquisição do Banamex. O banco mexicano está sendo vendido pelo Citigroup e o Itaú já foi especulado como um dos possíveis interessados.

“Não vimos os números e não estamos participando ainda, formalmente, de nenhum processo. É claro que olharemos, como fazemos com todas as oportunidades”, afirmou. “Mas o nosso grande foco é consolidar as operações que já temos na região e não necessariamente ampliar esse footprint.”

Isso não significa que o Itaú Unibanco esteja com as portas fechadas para investimentos inorgânicos na região. “Nos países que já estamos, podemos fazer aquisições menores, de fintechs, por exemplo”, disse. “Mas não vejo deals relevantes. Não é a nossa expectativa agora.”

No Brasil, uma aquisição, no entanto, já está certa no radar do banco. Trata-se da compra de uma fatia adicional da XP, negociada em 2017, quando o Itaú tornou-se sócio da empresa fundada por Guilherme Benchimol.

“Isso não é uma opção (não exercer a compra). Há um acordo que foi pactuado em 2017”, ressaltou Maluhy Filho, sobre o acordo que prevê o pagamento de um múltiplo de 19 vezes o lucro da XP em 2021. “Nesse momento, estamos calculando valor da aquisição, que deve acontecer nos próximos meses.”

Em outra frente, o executivo afirmou que o banco dará sequência ao seu programa de eficiência operacional, que inclui 1,3 mil iniciativas. E que ganhou mais velocidade a partir da chegada da pandemia, abrindo caminho para a adoção do modelo de trabalho híbrido e para a redução de cerca de 40% do espaço físico das áreas administrativas.

Ao frisar que essa busca por mais eficiência anda lado a lado com a abertura de novos negócios e receitas, Maluhy Filho também ressaltou o papel cada vez mais preponderante dos investimentos em tecnologia. Seja no back office ou na ponta dos clientes.

“Até o fim do ano, teremos mais de 50% dos nossos sistemas modernizados, operando na nuvem”, observou. “E com um índice de 80% naqueles que são mais relevantes, no ponto de vista de relacionamento com os clientes.”

Nesse plano, o Itaú também ressaltou que os canais digitais responderam por 63% das contratações de produtos por pessoas físicas. Um dos destaques foi o iti, plataforma de conta digital e pagamentos, que alcançou uma base de 14,6 milhões de clientes em 2021, sendo 4,7 milhões apenas no quarto trimestre.

Em relatório, o BTG Pactual destacou o resultado sólido, especialmente na comparação com o desempenho reportado no período por seus principais pares no mercado, Bradesco e Santander, na contramão do que vinha acontecendo nos últimos anos.

“Nos parece que o Itaú é, de longe, o melhor desempenho desta vez”, escreveram os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Thiago Paura, ressaltando que, sob a gestão de Maluhy Filho, o Itaú pode estar retornando ao posto de “banco premium” do Brasil.

“Reiteramos o Itaú como uma das nossas principais escolhas no setor e como nosso player preferido entre os bancos incumbentes para 2022”, acrescentou o trio, que tem recomendação de compra para o papel e preço-alvo de R$ 31 para a ação do banco.

As ações do Itaú Unibanco, avaliado em R$ 240,9 bilhões, estavam sendo negociadas a R$ 26,39 por volta das 12h10 na B3, alta de 5,35%.

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