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Dois IPOs e um destino: a gestora de venture capital por trás de Méliuz e Enjoei

A empresa de cashback Méliuz estreia na B3 nesta quinta-feira. Na sequência, deve ser o brechó online Enjoei. Por trás dessas duas startups está a gestora Monashees, uma casa de venture capital que já investiu em 109 empresas e conta com quatro unicórnios no portfólio

 

Cartão de crédito da Méliuz, que estreia na bolsa nesta quinta-feira

Em tempos de Covid-19, as aberturas de capital não contam mais com a festa acalorada dos empreendedores e executivos, que comemoravam o IPO com abraços e chuva de papéis picados. O sino ainda é tocado. Mas todo o resto é virtual, até o papel picado.

Essa nova forma de celebrar não tira a empolgação dos envolvidos. Mas, na abertura de capital da empresa de cashback e de cupons de descontos Méliuz, que acontece nesta quinta-feira, 5 de novembro, a comemoração foi como nos velhos tempos.

Os empreendedores Israel Salmen e Offli Guimarães, fundadores da startup, optaram por uma cerimônia presencial para comemorar o IPO da empresa, que captou R$ 661 milhões em uma oferta primária e secundária. A empresa chega a B3 valendo R$ 1,2 bilhão, com ação cotada a R$ 10, o piso da oferta. “O IPO é o início, não o fim da jornada”, disse Salmen.

Mas, nos bastidores, a celebração será da Monashees, gestora de venture capital brasileira que investiu na startup mineira desde a primeira hora e está realizando parte de seu investimento – ela detinha uma fatia de quase 10% e deve ficar com menos de 3% depois da oferta.

Mas essa não é a única razão de comemoração da gestora criada em 2005 por Eric Acher, com passagens pela consultoria McKinsey e pelo fundo americano General Atlantic, e por Fabio Igel, herdeiro da família que controla o grupo Ultra.

Nesta mesma quinta-feira, o brechó online Enjoei vai precificar sua oferta inicial de ações. E não há nenhum indício de que não vá conseguir fazer a sua listagem – a expectativa é que possa captar mais de R$ 1 bilhão em uma oferta primária e secundária. Mais uma vez, a Monashees está por trás da Enjoei. Ela detém uma fatia de 15,44% e deve manter um pouco mais de 4% depois do IPO.

Não bastasse isso, a venda do grupo de classificados online de imóveis ZAP Viva Real para a OLX, um negócio de R$ 2,9 bilhões que foi concluído nesta semana, também tinha por trás a Monashees, gestora que é muito conhecida dos empreendedores, mas que foge das lentes públicas – nessa transação, há vários outros investidores de venture capital, como o Kaszek Ventures, entre outros.

Como diz uma fonte que conhece bem os investidores que comandam a Monashees. “Tem gente é que low profile, eles são no profile”, brinca. A ironia tem um fundo de verdade. Quem tenta conhecer mais sobre a gestora não vai encontrar nenhuma informação sobre os investidores, muito menos sobre o seu portfólio no site da empresa, que comemorou em grande estilo os seus 15 anos de atuação no mercado brasileiro no começo de outubro.

Mike Krieger, do Instagram, e Steve Wozniak, da Appe, em conversa sobre inovação em evento da Monashees

Na ocasião, em uma festa online fechada para os empreendedores, na qual o NeoFeed participou, o fundador da Apple, Steve Wozniak, e o fundador do Instagram, o brasileiro Mike Krieger, protagonizaram uma conversa de aproximadamente uma hora sobre inovação. O evento foi o máximo de exposição que a Monashees se permitiu em um momento de celebração.

Dessa forma mineira, sem alarde, a Monashees construiu um portfólio de 109 startups no Brasil e na América Latina. Entre elas, quatro unicórnios, como são chamadas as empresas que atingem uma avaliação privada superior a US$ 1 bilhão.

As startups bilionárias da Monashess são a 99, o primeiro unicórnio brasileiro, investimento do qual ela já saiu em 2018, o aplicativo de entregas colombiano Rappi, a empresa de compra e venda de imóveis Loft e a companhia de logística Loggi.

Os cheques da Monashees podem ser para empresas em estágio inicial, como é o caso da Rocket.Chat, companhia que está captando uma série A neste momento e tem como cliente a Marinha dos Estados Unidos.

Mas a gestora é mais reconhecida no Brasil como um fundo série A, que entra quando a startup precisa de capital para acelerar seu plano de expansão. Foi o caso de recente investimento da Sami, healthtec que captou R$ 86 milhões, em um aporte que reuniu, além da Monashees, a Valor Capital e a Redpoint eventures.

Desde que surgiu, a empesa já levantou nove fundos de venture capital. O mais recente deles foi de US$ 280 milhões, em 2019. Há rumores de que a gestora planeja entrar no que é chamado “late stage”, com cheques mais polpudos e um bolso mais fundo.

Fila de IPOs?

O IPO da Méliuz, que faturou R$ 62 milhões no primeiro semestre, é um marco não só para a Monashees, que está fazendo sua primeira saída pela bolsa. Mas também para o mercado de capitais brasileiro.

Pela primeira vez, uma startup consegue acessar a bolsa, captando não só recursos para seus próximos passos como dando saída aos investidores.

A Méliuz vai usar os R$ 367 milhões que vão para seu caixa para ampliar o seu marketplace, lançar mais serviços financeiros e fazer aquisições. Um dos serviços que a startup testa é um “cashbach as a service”, que vai ser oferecido para os clientes de seu próprio marketplace.

Israel Salmen, um dos fundadores da Méliuz

“Houve um interesse muito grande de fundos locais, por conta do perfil dos fundadores e das oportunidades de crescimento da Méliuz como uma fintech”, diz uma fonte próxima à oferta. “Há uma visão de que há muito upside.”

Até pouco tempo atrás, os investidores de venture capital não tinham muitas opções de saída. A abertura de capital sempre foi coisa para empresas grandes, como os casos de PagSeguro e Stone, que fizeram seus IPOs nos Estados Unidos. A opção, no Brasil, era vender para um estratégico, como os investidores se referem a empresas de grande porte que querem comprar mercado.

Mas o cenário mudou a partir de 2018, quando o aplicativo de transporte 99 se transformou em um unicórnio com a venda para a chinesa Didi Chuxing. De lá para cá, os juros baixos ajudaram os fundos de venture capital a captar recursos. E uma montanha de dinheiro passou a ser injetada nas startups brasileiras.

Nem mesmo a pandemia foi capaz de parar essa tendência. Neste ano, por exemplo, os aportes em startups somaram US$ 2,5 bilhões de janeiro a outubro, segundo levantamento do Distrito Dataminer, braço de inteligência do Distrito, um ecossistema de empreendedorismo aberto. Esse volume de recursos é 3% superior ao mesmo período do ano passado, que já havia sido recorde.

Mas tão importante quanto o capital, foi fechar o gap da “cadeia alimentar” da indústria de venture capital. Hoje, há fundos, e recursos, para todas as fases da vida de uma startup. Começa com o investidor-anjo, passa pelo seed money e chega aos fundos early stages e late stages. Agora, a bolsa é um novo caminho.

A Méliuz é a primeira a puxar a fila, que deve ser engrossa pela Enjoei nesta quinta-feira – a plataforma de aluguel de imóveis Housi e o e-commerce de vinhos Wine, duas empresas desta safra tecnológica, acabaram desistindo de suas ofertas.

Mas, como lembra um investidor que viveu a bolha da internet, no começo dos anos 2000, quando muitas companhias abriram o capital e não entregaram resultado: ser uma companhia aberta é um bicho totalmente diferente de prestar conta a investidores privados. “Você está nu e terá de provar seu modelo de negócios e sua tese a cada trimestre”, diz essa fonte.

(Reportagem atualizada às 10h30 com informações da cerimônia de abertura de capital na B3)

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