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A Acesso quer dar acesso aos sem bancos. Mas há espaço para mais uma fintech?

A empresa, que atua com cartões pré-pagos lança, seu banco digital com foco nas classes de menor poder aquisitivo. A concorrência nessa área é cada vez maior e vem de todos os lados: das startups financeiras de pagamentos até dos grandes varejistas

 

Davi Holanda, CEO da Acesso

Entre crise e sai crise, mas o número o número de fintechs não para de crescer. Um levantamento do Distrito, do qual o NeoFeed teve acesso com exclusividade, contou 742 startups financeiras no mercado brasileiro. Na pesquisa anterior, eram 553 empresas.

A mais recente a fazer parte dessa lista é a Acesso, que lançou sua conta digital sem grande alarde no fim de março deste ano.

A Acesso nasceu em 2013, fundada por Jonathan Whittle, hoje sócio do fundo de venture capital Quona Capital, e por Sérgio Kulikovsky, empreendedor serial que havia criado a corretora virtual NetTrade (comprada pela Patagon) e a empresa de certificação digital Certisign.

Nos seus seis primeiros anos, a empresa focou no mercado de cartões pré-pagos. Nesse período, emitiu 6 milhões de cartões com a bandeira Mastercard. No ano passado, movimentou R$ 2 bilhões.

Os sócios também aumentaram. Em 2017, o fundo InvestTech fez um aporte na empresa, cujo valor não foi divulgado. Paulo Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann, que também tem participação na corretora Vitreo, investiu na companhia.

Agora, no meio da pandemia do coronavírus, a Acesso resolveu acelerar a estratégia de lançar seu banco digital com alvo em clientes das classes C, D e E em um investimento de R$ 50 milhões.

“Os bancos digitais não foram pensados de ponta a ponta para atender os desbancarizados”, diz Davi Holanda, CEO da Acesso ao NeoFeed. “Construir produtos na Faria Lima, em ambientes refrigerados, não retratam a realidade do brasileiro.”

Holanda assumiu a Acesso no fim de 2018. Ele veio do PagSeguro, onde trabalhou de 2012 a 2018, ajudando na implantação da estratégia que tornou a companhia do grupo Folha bilionária – hoje, a companhia vale US$ 8,6 bilhões na Bolsa de Nova York

Na época em que esteve na PagSeguro, a empresa deixou de ser uma carteira digital, no estilo do Paypal, para entrar no mercado das maquininhas, atendendo a um público que estava fora do foco de atenção de Cielo e de Rede: o dos pequenos empresários e de negócios informais.

O desafio de Holanda é fazer o mesmo na Acesso, que tem autorização do Banco Central para operar contas de pagamentos e de liquidação. Só que em vez de vender maquininhas, ele agora vai atrás de clientes que não têm acesso a conta bancárias ou não querem pagar tarifas aos seus atuais bancos.

Não é um mercado pequeno. Pesquisa da consultoria Locomotiva, divulgada no ano passado, estimou que 45 milhões de pessoas não têm conta em bancos. Esse contingente de pessoas movimentou R$ 850 bilhões, o equivalente ao PIB da Argentina e do Chile somados.

“Os bancos tradicionais detém boa parte dos serviços financeiros e de maneira concentrada”, diz Diego Perez, diretor executivo da ABFintechs, associação que reúne as startups financeiras. “Mas, muitas vezes, eles não têm interesse comercial em atender as classes mais populares.”

É neste espaço que a Acesso quer atuar, replicando uma estratégia semelhante a dos cartões pré-pagos, que são vendidos em pontos de vendas físicos, como supermercados e farmácias.

Por conta da pandemia, a Acesso teve, neste início, que se concentrar em atrair clientes digitalmente. Até agora, 50 mil pessoas criaram sua conta no aplicativo do Acesso Bank. Segundo Holanda, a base tem crescido a uma média de mil novos clientes por dia.

Quando as pessoas voltarem a circular, o plano é vender os cartões do Acesso Banking em supermercados do grupo Pão de Açúcar, nas Lojas Americanas e na rede de farmácias Pague Menos, empresas com as quais a Acesso já tem parcerias comerciais no cartão pré-pago. Holanda quer fazer também acordos com redes regionais.

O consumidor comprará o cartão num ponto de venda físico. Depois, carregará o cartão com dinheiro no caixa do supermercado. O passo seguinte é baixar o aplicativo e preencher um cadastro simples, informando nome, CPF, número do celular e a data de nascimento.

Com poucos passos, o consumidor passa a contar com o número da agência e da conta. O crédito feito no ponto de venda já estará na conta corrente. “Ele já pode receber dinheiro nessa conta”, diz Holanda.

Se quiser movimentar o dinheiro, o processo é um pouco mais burocrático, por conta da regulação do Banco Central. Nesse caso, é preciso preencher um cadastro mais completo, além da necessidade de fornecer documentos.

A conta da Acesso é gratuita, dá direito a um cartão sem anuidade, com TED sem custo e com possibilidade de emissão de boletos.

“O desafio de todas essas contas digitais, em especial para as classes C, é fazer com que depois de aberta as pessoas passem a movimentá-la”, diz Gustavo Gierun, cofundador do Distrito. “Muitas ficam inativas.”

A movimentação da conta é parte fundamental da estratégia da Acesso. Como ela é gratuita, o modelo de negócio pressupõe a oferta de outros serviços financeiros ao longo do tempo. “Para ganhar dinheiro, vou oferecer empréstimo de curto prazo, crédito consignado e seguros”, afirma Holanda.

Mas esse não é o único desafio de Holanda. Das 742 fintechs do mercado brasileiro, 16,4% delas atuam em meios de pagamentos, a maior categoria da pesquisa do Distrito. “Esse é um segmento que tem ficado cada vez mais competitivo”, diz Gierun.

E a competição vem de diversos lados, não só das startups financeiras. Varejistas tradicionais estão criando seus próprios meios de pagamentos para atrair os clientes das classes C.

É o caso da Via Varejo, que tem o BanQi, como também da B2W, com a Ame Digital. O aplicativo de entregas Rappi também conta com a sua própria carteira digital. Isso sem falar de empresas de software, que criaram seus braços de fintechs.

Um investidor de fintechs com quem o NeoFeed conversou disse também que o banco Neon tem conquistado clientes na classe C e que o Nubank, através da NuConta, mesmo sem fazer parte da sua estratégia, está atraindo esses consumidores no Nordeste.

Holanda terá um desafio adicional. As classes C, D e E são as mais atingidas pela crise do coronavírus. Muitos vão perder o emprego. A renda, se houver, vai ficar menor. Trata-se um momento bem diferente do auge da classe C, que foi de metade dos anos 2000 até 2014.

Questionado se não é a hora errada de lançar um banco digital para esse público, o CEO da Acesso diz que não. “Talvez seja o momento ideal. Eles estão procurando formas e preços mais adequados para sua nova realidade”, diz Holanda.

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