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Fundos de venture capital avisam: é hora de segurar aportes e de preservar o portfólio

Sob os impactos do Covid-19, Redpoint eventures, Kaszek, Softbank, Monashees e outros importantes fundos com atuação no País voltam os olhos para os seus ativos e preveem, ao menos no curto prazo, uma redução nos investimentos

 

Sócio-fundador da Redpoint eventures, uma das pioneiras de venture capital no Brasil, Anderson Thees já viu o segmento passar por muitos desafios antes de começar a ganhar maturidade e gerar seus primeiros unicórnios. Entre eles, Gympass e Rappi, duas investidas do fundo criado em 2012.

Nada se compara, no entanto, à crise atual, gerada pelo Covid-19. Nesse contexto, Thees ainda não consegue mensurar quais serão todos as consequências da pandemia para os investimentos no ecossistema local de startups. Mas já definiu qual é a sua prioridade nesse momento.

“Tínhamos acordos assinados em fechamento e honramos todos. Mas o foco agora está 150% no nosso portfólio”, disse Thees.

A afirmação foi feita na tarde desta quarta-feira, 1 de abril, durante uma live que reuniu alguns dos principais nomes do mercado local de venture capital. E resumiu qual é o direcionamento de todos eles no curto prazo: preservar os investimentos e o que está dentro de casa.

“Estamos trabalhando para ter certeza que as nossas empresas estão preservando caixa”, afirmou Paulo Passoni, sócio do Softbank na América Latina. “É muito mais provável que, no curto prazo, qualquer dinheiro vá para o nosso portfólio.”

O Softbank desembarcou na região em abril de 2019 e, nesse período, já injetou cerca de US$ 2 bilhões em 20 startups. No País, essa relação inclui nomes como QuintoAndar, Loggi e Vtex.

Para os fundos, ajudar suas investidas a resistirem aos impactos do coronavírus não é o único desafio. A diversidade, tanto nos modelos de negócio quanto no estágio de cada operação, é mais um dilema.

“Para quem está com o caixa apertado, o ideal é pensar que a crise vai ser pior e durar mais tempo”, disse Julio Vasconcellos, sócio da Atlantico, que começou a captar seu primeiro fundo em dezembro de 2019. “Mas, para outros, a hora é de pisar no acelerador. Há várias barganhas no mercado, da compra de mídia a ativos.”

“Para quem está com o caixa apertado, o ideal é pensar que a crise vai ser pior e durar mais tempo”, Julio Vasconcellos, sócio da Atlantico

Michael Nicklas, sócio da Valor Capital, fundo que já investiu em startups como GuiaBolso e Loft, também vem lidando com essa disparidade. “Já sentamos com cada uma das 50 empresas do nosso portfólio para projetar o que aconteceria se elas perdessem 25%, 50%, 75% ou mesmo 100% de faturamento”, disse Nicklas.

Para algumas empresas, o Valor Capital está trabalhando com outros investidores para montar um turnaround e dar ao menos 18 meses de fôlego. “Mas também temos visto companhias que estão aproveitando as oportunidades que a crise traz”, afirmou Nicklas.

Nessa última vertente, ele citou o caso da In Loco, empresa de geolocalização que está desenvolvendo projetos em parceria com o Ministério da Saúde e o Facebook para medir o grau de participação dos brasileiros na questão do isolamento social durante a pandemia.

Cofundador da Monashees, outra pioneira do venture capital no País, Eric Acher também destacou as oportunidades inseridas nesse cenário. “Temos empresas de e-commerce do nosso portfólio que estão crescendo absurdamente”, afirmou. MadeiraMadeira, ContaAzul, Loggi e Rappi são algumas das startups que contam com investimentos do fundo.

Acher ressaltou ainda que o “experimento social” que todos estão vivendo, por conta do isolamento social, abre caminho para que os negócios digitais ganhem corpo na economia. E apontou outro ponto positivo para as startups locais diante da crise: a resiliência. “É bom lembrar que muitas dessas empresas foram criadas durante a pior recessão vivida pelo Brasil.”

“É muito mais provável que, no curto prazo, qualquer dinheiro vá para as empresas do nosso portfólio”, Paulo Passoni, sócio do Softbank na América Latina

Há quem prefira adotar, no entanto, uma postura mais cautelosa. “Temos reforçado aos empreendedores a importância de preservar caixa e o fato de que estar vivo quando isso passar é a opção mais valiosa”, observou Thees, da Redpoint.

Ele estende essa abordagem mais conservadora até mesmo para as novatas que estão se beneficiando dessa crise. “Há muitas startups no mercado ampliando suas estruturas para atender a uma demanda pontual e isso pode trazer problemas lá na frente.”

Ajustes

Com os olhos e recursos mais voltados para seus próprios ativos, os investidores esperam, ao menos no curto prazo, reflexos nas rodadas realizadas nesse ecossistema.

“Sempre buscamos investir de 30% a 40% no primeiro cheque e o restante em follow ons. Isso continua”, disse Hernan Kazah, cofundador da Kaszek Ventures, que startups como Creditas e QuintoAndar no portfólio. “Mas, para todos nós, nesse momento, é melhor esperar. O mercado está um pouco desfocado.”

O provável impacto na atividade dos fundos também é reforçado por Marcos Toledo, cofundador do Canary, que tem entre suas investidas novatas como Volanty e Docket. “O mercado vai ter falta de liquidez e os prazos entre as rodadas vai se alongar”, afirmou Toledo.

Para o investidor da Canary, esses reflexos serão mais sentidos no estágio de growth, fortemente marcado pela participação de investidores estrangeiros. “Quando o mercado descongelar, esses fundos estarão focados em oportunidades próximas deles, nos Estados Unidos e na Ásia”, observou, ressaltando que os empreendedores precisarão ser mais realistas.

Thees, da Redpoint, reforçou essa projeção: “Vamos passar, ao menos no curto prazo, por mudanças nos critérios de seleção das startups”, afirmou. “E por ajustes dos preços. O mundo mudou. E a valuation que estávamos acostumados vai precisar ser revista.”

O cenário traçado vai ao encontro, em boa parte, da visão de Edson Rigonatti, fundador e sócio da Astella Investimentos, dona de um portfólio de startups como Resultados Digitais e Omie. “Para os investimentos que estávamos prestes a fazer, estamos pedindo um pouquinho de tempo para entender o real fluxo do dinheiro”, afirmou Rigonatti, em entrevista concedida nesta semana ao NeoFeed.

Ele projetou ainda que o venture capital deve retomar a atividade, “com uma certa normalidade”, em até nove meses. Mas ressaltou: “Parta do princípio que normalidade é uma readequação de “valuation”. O principal ajuste vai ser no preço e não no nível de atividade.”

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