Próxima parada: Wall Street – a supertemporada de IPOs das startups

Em um ano recorde para as bolsas americanas, Airbnb, DoorDash e Wish vão abrir o capital nos próximos dias, testando o humor dos investidores na reta final de um ano marcado por uma pandemia que provocou uma crise sanitária e econômica

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Em um ano marcado por uma grave crise econômica e sanitária, o mercado de ações protagonizou – e ainda protagoniza – um número recorde de captação em bolsa de valores.

Abastecido pelo desempenho das listagens de empresas de tecnologia, o volume de dólares captados nas bolsas americanas este ano, até agora, já ultrapassou US$ 140 bilhões. O resultado já supera o recorde de 1999, quando foram levantados US$ 108 bilhões, de acordo com dados da Dealogic IPO.

Nesta semana, esse desempenho será reforçado por duas estrelas da nova economia: o site de hospedagem Airbnb e o de entregas DoorDash, vão começar a ter suas ações cotadas na bolsa de valores. Menos reluzente, mas não menos importante, a Wish, um marketplace que comercializa de tudo, vai também testar o apetite dos investidores na bolsa em dezembro.

Se tudo sair conforme o programado, as três empresas vão captar mais de US$ 7 bilhões, aproximando-se do recorde para o mês de dezembro, quando o volume levantado em IPOs nos EUA chegou a US$ 8,3 bilhões em 2001 e 2003, segundo dados da Bloomberg.

Nada, até agora, indica que o apetite dos investidores esteja baixo em relação a essas aberturas de capital. Um exemplo é que o preço das ações da DoorDash, que começam a ser negociadas nesta quarta-feira, 9 de dezembro, na Bolsa de Nova York (Nyse), saíram por US$ 102, acima da faixa de referência, que era entre US$ 90 e US$ 95 e já havia sido alterada. A companhia captou US$ 3,3 bilhões.

O site de hospedagem Airbnb, que será listado na Nasdaq na quinta-feira, 10 de dezembro, também alterou a sua faixa de referência de US$ 56 a US$ 60 a ação – antes, era entre US$ 44 e US$ 50.

A DoorDash chega à Nyse valendo aproximadamente US$ 39 bilhões, uma valorização de 160% em comparação a sua avaliação privada. Se sair pelo preço máximo, o Airbnb valerá US$ 43 bilhões e ganhará 139% em comparação a sua última avaliação privada.

Curiosamente, as duas startups viveram momentos opostos durante a pandemia. O Airbnb foi um dos mais prejudicados durante à Covid-19, por conta da queda de mais de 90% em suas reservas.

A startup fundada por Brian Ckesky, Joe Gebbia e Nathan Blecharczyk, em 2008, teve de demitir 1,9 mil funcionários, o equivalente a 25% de seus empregados. Ao mesmo tempo, os fundadores abriram mão de salários e os executivos reduziram em 50% seus ganhos. As ações de marketing foram paralisadas em um esforço para poupar US$ 800 milhões.

As medidas ajudaram a companhia a passar pela mais grave crise do setor de turismo neste século. Mas o preço foi alto. Nos primeiros nove meses de 2020, o Airbnb faturou US$ 2,5 bilhões, uma queda de 32% em relação ao mesmo período do ano passado. O prejuízo somou US$ 697 milhões, alta de 116%.

O que explica então esse otimismo em relação ao Airbnb? Uma hipótese pode estar na análise de Scott Galloway, escritor, empreendedor, professor da Stern School of Business da Universidade de Nova York e um crítico contumaz dos gigantes do Vale do Silício, como Facebook, Google, Apple e Amazon.

“Acredito que nesta época do próximo ano, o Airbnb será a empresa de hospitalidade mais valiosa do mundo e uma das dez marcas mais fortes do mundo”, escreveu Galloway, em seu blog, em outubro. “A plataforma de São Francisco, provavelmente, valerá mais do que os três maiores hotéis-empresas combinados.”

Em sua análise, Galloway escreve que as únicas companhias que têm demanda e oferta global, além de um negócio de margem alta com poucos ativos, são as empresas de cartão de crédito, que negociam a múltiplos de mais de 20 vezes a receita. O Airbnb projeta receitas entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões, o que faz com que se gere uma avaliação potencial entre US$ 100 bilhões e US$ 120 bilhões. Dá para imaginar a valorização, se as previsões de Galloway estiverem corretas?

O DoorDash navegou por uma situação completamente diferente da experimentada pelo Airbnb durante a pandemia. A empresa de delivery se beneficiou do isolamento social, que aumentou a demanda de seu serviço de entrega – a empresa é líder nos EUA com um fatia de 48% do mercado em outubro deste ano, segundo a Edison Trends, muito a frente da segunda colocada, a Uber Eats, com 28%.

De janeiro a setembro deste ano, a DoorDash fez 543 milhões de entregas, um volume três vezes superior ao mesmo período do ano passado. Mas tal qual a maioria das startups de tecnologia que vai à bolsa, a companhia dá prejuízo.

Nos três primeiros trimestres, a receita cresceu para US$ 1,92 bilhão, contra US$ 587 milhões no mesmo período de 2019. O prejuízo foi reduzido de US$ 534 milhões, nos nove primeiros meses de 2019, para US$ 149 milhões, em 2020. No segundo trimestre, a companhia conseguiu o primeiro lucro de sua história, de US$ 23 milhões.

A questão que se coloca: conseguirá a DoorDash repetir o desempenho do segundo trimestre de 2020 mais para frente? David Trainer, fundador da New Constructs, um veterano de Wall Street, acredita que não.

Em entrevista ao site Business Insider, ele disse que o IPO da DoorDash é o “mais ridículo do ano”, já que a companhia só deu lucro por conta da pandemia. Em sua avaliação, a startup não exibe qualquer perspectiva de dar lucro no pós-crise e a abertura de capital só servirá para dar saída aos atuais investidores.

Corrobora a análise de Trainer, o desempenho dos rivais da DoorDash. A Uber luta também para encontrar um caminho para a lucratividade no ramo de entregas. Até agora, não descobriu uma fórmula para tingir o balanço de azul de forma sustentável.

Correndo por fora nessa maratona na preferência dos investidores está a Wish, uma plataforma de e-commerce com 100 milhões de usuários ativos em 100 países. Trata-se de um e-commerce que disponibiliza 150 milhões de produtos de 500 mil revendedores. Cerca de 1,8 milhão de itens são negociados ali diariamente.

Fundada em 2010 pelo ex-engenheiro do Google, Peter Szulczewski, a companhia tem 90% de seu tráfego concentrado em seu aplicativo. Com técnicas de gamificação, ferramentas interativas e preços atrativos, a companhia consegue reter a atenção do usuário, que passa, em média, mais de nove minutos por dia navegando no ambiente digital da Wish.

Apesar disso, a Wish nunca registrou lucro. Em 2017, o prejuízo foi de US$ 207 milhões, subindo para US$ 208 milhões no ano seguinte e recuando para US$ 129 milhões em 2019. Nos primeiros nove meses deste ano, as perdas foram de US$ 176 milhões.

A companhia justifica sua estratégia mirando no mercado de comércio mobile, que foi avaliado em US$ 2,1 trilhões em 2019 e pode chegar a US$ 4,5 trilhões em 2024. Segundo a Wish, seus competidores são Amazon, Shopify e Alibaba – todas empresas bilionárias, com operações saudáveis. A Wish também diz que está concorrendo com varejistas de descontos como Walmart Inc. e Dollar General e varejistas de preços baixos como TJ Maxx, Ross e outras.

Pesa contra a Wish sua dependência chinesa. “Inicialmente, nossa plataforma cresceu com foco nos comerciantes da China, o maior exportador mundial de mercadorias na última década, devido à força desses comerciantes em vender produtos de qualidade a preços competitivos”, disse a Wish em seu prospecto de IPO.

A relação estremecida entre os governos dos Estados Unidos e China, que impõem novas tarifas em uma guerra comercial ainda sem data para acabar, pode ser uma barreira para a operação da Wish. Por isso, segundo a empresa, seu foco agora é expandir sua base de vendedores em outros países. O número de comerciantes da América do Norte, Europa e América Latina registrados na plataforma subiu 234% desde o ano passado.

A expectativa é que a Wish levante US$ 1,1 bilhão em seu IPO. A faixa indicativa das ações vai de US$ 22 a US$ 24. Se sair pelo topo, isso daria à empresa um valor de mercado de US$ 14 bilhões, uma valorização de 25% em relação a sua avaliação privada.

Esses três IPOs fecham um ano histórico no mercado de capitais dos Estados Unidos. “Acho que essa movimentação só mostra que o mercado olha para o novo coronavírus como um problema de curto prazo”, afirmou Tom Taulli, autor de livros sobre IPOs e colunista da Forbes, ao NeoFeed.

Os destaques de 2020 foram as Special Purpose Acquisition Company (SPAC), as famosas “empresas cheque-em-branco”. Segundo dados da consultoria Refinitiv, Wall Street contou 165 aberturas de capital via SPACs entre janeiro e outubro, o dobro de 2019 e cinco vezes mais que 2015.

Entre as startups levadas à bolsa por meio desses veículos estão a empresa de carros elétricos Fisker, a startup de apostas online Draftkings e a seguradora digital Metromile.

Das companhias que chegaram ao mercado pelas vias “tradicionais”, as mais populares de 2020 foram a Palantir, startup de análise de dados, que acumula alta de 294% desde que estreou na Nasdaq, em setembro; e a Snowflake, um banco de dados na nuvem, que avança 62,1% desde o IPO na Nasdaq, em setembro.

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