Nem mesmo o mais otimista poderia ter esperado um desempenho tão positivo da economia brasileira no segundo trimestre de 2022. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta quinta-feira, 1º de setembro, mostram que o PIB cresceu 1,2% em relação ao primeiro trimestre e 3,2% frente ao mesmo período de 2021.
O resultado superou as medianas das expectativas do mercado reunidas pela agência de notícias Bloomberg, que apontavam para aumentos de 0,9% em base trimestral e 2,8% na anual. O PIB do segundo trimestre também mostrou que a economia brasileira cresceu pelo quarto trimestre consecutivo, levando o País a expandir 2,5% no primeiro semestre.
A boa notícia não passou incólume, com os economistas anunciando revisões positivas para o PIB acumulado em 2022 ou que estão em vias de realizar ajustes para cima. Apesar do bom resultado visto nos três meses até junho, alguns destacam que o ritmo de expansão não deve se sustentar adiante.
Uma das principais revisões veio do Bank of America, que passou a projetar uma expansão de 3,25% da economia brasileira, depois de estimar um crescimento de 2,5%. Segundo o relatório assinado por David Beker, chefe de economia para o Brasil e estratégia para América Latina, o destaque do período foi o setor de serviços, que responde por 70% da economia brasileira e cresceu 1,3%.
Outro ponto positivo para Beker foi o consumo das famílias, que subiu 2,6% no segundo trimestre, a maior alta desde o quatro trimestre de 2020. “Isso aconteceu antes dos cortes no ICMS, o aumento do Auxílio Brasil e a redução dos preços dos combustíveis, que devem ter uma grande influência positiva ao longo dos resultados do segundo semestre”, diz trecho do relatório.
O Goldman Sachs também elevou as expectativas para 2022, de 2,2% para 2,9%, citando que a economia brasileira teve um desempenho “surpreendentemente positivo” ao longo da primeira metade do ano, mesmo com o aperto das condições financeiras e a aceleração da inflação.
Além da parte de serviços e do consumo das famílias, Alberto Ramos, chefe de pesquisa macroeconômica do banco para a América Latina, afirmou que o agronegócio e a indústria também foram bem, crescendo 0,5% e 2,2%, respectivamente. Do lado da demanda, ele citou como ponto positivo os dados de investimentos, que aumentaram 4,8%.
“A resiliência do crescimento do primeiro semestre foi graças ao tamanho significativo das políticas de estímulos fiscais, ao mercado de trabalho estar mais robusto, bons preços de commodities, fluxos de créditos resilientes, redução da poupança acumulada do setor privado e o impacto de curto duração e mais fraco do que o esperado da onda de ômicron na mobilidade e na atividade”, diz trecho do relatório.
Outros bancos e economistas ainda estão incorporando os efeitos do crescimento apurado no segundo trimestre em seus modelos para a economia, mas já informaram que os números colocam pressão positiva sobre suas projeções para o acumulado de 2022.
Rodolfo Maragato, economista da XP Investimentos, escreveu em relatório que o crescimento de mais de 1% pelo segundo trimestre consecutivo deve impulsionar as projeções de crescimento econômico no curto prazo.
Segundo ele, o desempenho tem um efeito de carrego estatístico para o PIB do ano de 2,6 pontos percentuais, acima do 1,5 ponto percentual calculado anteriormente. Além do resultado do trimestre encerrado em junho, o chamado carry over foi influenciado pela revisão para cima do PIB do primeiro trimestre – a comparação trimestre passou de alta de 1% para 1,1%. “Nossa expectativa para o crescimento do PIB em 2022, atualmente em 2,2%, tem viés de alta”, diz trecho do relatório.
O bom momento vivido pela economia brasileira também levou a XP a revisar para cima sua projeção para o Ibovespa. Combinado com a queda dos juros futuros (DIs) de longo prazo, a atividade econômica deve ajudar o principal índice da Bolsa brasileira a fechar o ano em 130 mil pontos, acima dos 120 mil que se vislumbrava anteriormente. O Ibovespa fechou o pregão de hoje em 110.405,3 pontos, alta de 0,81%.
Pressão
Enquanto o desempenho da economia brasileira no primeiro semestre está resultando em revisões positivas nos cenários dos economistas, a segunda metade do ano deve ser marcada por desaceleração, com a política monetária contracionista começando a fazer efeito e a economia global perdendo força.
Os economistas do Itaú BBA destacaram que o resultado do segundo trimestre coloca um viés de alta na projeção de expansão de 2,2% para a economia no acumulado do ano. Mas afirmaram que a atividade começou a desacelerar em julho e agosto.
“Mantemos nossa projeção de que a economia permanecerá relativamente estável até o final do ano, crescendo 0,1% no terceiro trimestre e contraindo 0,1% no quarto”, diz trecho do relatório assinado por Natalia Cotarelli e Matheus Fuck.
“Até o momento, não vemos efeito significativo do aumento de pagamentos e de beneficiários do programa Auxílio Brasil. No entanto, esperamos algum crescimento nos gastos reais ao longo dos próximos meses”, complementam.
Para o Santander, os dados do segundo trimestre aumentam a possibilidade de o PIB fechar o ano acima de 1,9%, colocando a economia 3% acima do patamar pré-pandemia. No entanto, o economista Lucas Maynard afirmou que a atividade já começou a esfriar em junho, algo que ficou claro em julho e agosto.
“Em relação ao segundo semestre, nós esperamos que a atividade doméstica azede assim que os efeitos da política monetária mais apertada começar a fazer efeito”, diz trecho do relatório.
Já o Credit Suisse acredita que o crescimento permaneça elevado nos próximos trimestres, em função dos benefícios fiscais do governo e a redução dos tributos sobre eletricidade e combustíveis. O banco elevou sua estimativa para o PIB de 2022 de 2% para 2,9%.
"Além disso, a forte retomada nas condições do mercado de trabalho, com o desemprego em julho atingindo o menor nível desde agosto de 2015 e a população economicamente ativa fora do mercado de trabalho estando 0,7% acima do nível pré-pandemia, cria boas condições para o crescimento econômico em 2023", diz trecho do relatório assinado pelos economistas Solange Srour e Rafael Castilho