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A “guerra” de Trump contra os estrangeiros pode sair cara aos EUA

Determinação do republicano afetou também a emissão dos vistos H1B, para profissionais altamente qualificados. Além de compor boa parte do quadro de funcionários do Vale do Silício, trabalhadores com esse documento tendem a impulsionar a inovação, produtividade e lucro

 

Cerca de 580 mil profissionais em solo americano têm visto H1B, de alta qualificação

Mesmo sendo exceção à nova regra decretada por Donald Trump, a comunicadora Priscila Paulino prefere não arriscar: trocou as viagens internacionais pelas domésticas e até 2021 não pretende sair dos Estados Unidos nem em caso de emergência. “Fui orientada pelo departamento jurídico da minha empresa a agir dessa forma”, conta a brasileira ao NeoFeed.

Toda cautela é para evitar problemas com a ordem assinada pelo presidente americano em 22 de junho, em que suspende a emissão de novos vistos de trabalho – inclusive o famoso H1B, destinado a profissionais altamente qualificados, que conseguem comprovar um conhecimento aprofundado na área em que atuam. Estão isentos dessa “barreira” imigratória trabalhadores da saúde e pesquisadores envolvidos nos estudos da Covid-19.

De acordo com as novas determinações, profissionais que já tenham o documento em mãos, como no caso de Priscila, não seriam afetados. “Mas os advogados estão temerosos com tanto vai-e-vem dessas ordens e, como o Trump tem uma plataforma anti-imigratória, a empresa onde trabalho nos aconselhou a não correr riscos e ficar em solo americano até que as coisas estejam mais claras”, explicou ela, que possui visto H1B desde 2015 e confirma nunca ter passado por situação semelhante.

Segundo as autoridades americanas, essa nova ordem, combinada com as restrições impostas à emissão de novos green cards, deve impedir que cerca de 525 mil trabalhadores estrangeiros entrem no país até o final do ano.

Trump justifica sua decisão com a taxa de desemprego, que bate na casa de 11%. A lógica do presidente americano é que, se as companhias não puderem contratar estrangeiros ou transferirem seus funcionários para bases americanas, então seria quase que obrigatório empregar um cidadão ou residente local.

O problema é que a equação não contempla todo o potencial desses estrangeiros. “Apesar do H1B ser um programa pequeno, a categoria é importante para a economia americana. Não apenas para que empregadores supram carências em suas equipes, mas porque portadores do visto H1B promovem inovação, produtividade e lucro”, declarou a ONG National Foundation for American Policy em nota ao NeoFeed.

A escola do programa é abordada pela organização sem fins lucrativos porque trata-se de uma categoria limitada. Apenas 65 mil vistos H1B são concedidos por ano, com um adicional de 20 mil vistos, caso o profissional em questão tenha feito mestrado ou doutorado numa instituição americana.  

Dados da agência de imigração americana mostram que, até setembro de 2019, pouco mais de 580 mil profissionais mantinham residência fixa nos Estados Unidos graças ao H1B. 

A região com a maior concentração de trabalhadores com esse documento é o Vale do Silício. Cerca de 71% dos profissionais de tecnologias ativos na região nasceram em outro país, de acordo com dados do último censo americano. Da mesma maneira, 50% dos trabalhadores de tech da área de São Francisco também são estrangeiros. 

E esses “gringos” não estão apenas no “chão de fábrica” – muitos estão em cargos de liderança, como fundadores ou CEOs, como de novo prova a National Foundation for American Policy. A ONG apurou que, em 2018, 55% das startups unicórnios tinham um imigrante no quadro de fundadores. 

Os nomes mais “quentes” de Wall Street, aliás, não nasceram nos Estados Unidos. Elon Musk, o criador da Tesla e SpaceX, é sul-africano. O homem por trás do aplicativo de investimento Robinhood, Vlad Tenev, nasceu na Bulgária. O WhatsApp foi fundado por Jam Koum, um imigrante ucraniano. DoorDash e Zoom têm chineses em sua fundação, enquanto a plataforma de ecommerce Poshmark foi criada por um indiano. 

No comando da toda poderosa Microsoft, está um outro indiano: Satya Nadella. E o CEO da gigante Alphabet, a empresa controladora do Google, também é indiano. Trata-se de Sundar Pinchai, que, aliás, não ficou calado diante da suspensão dos vistos de trabalho.

“A imigração contribuiu imensamente para o sucesso da economia americana, fazendo-na líder em tecnologia. A imigração fez do Google o sucesso que é. Estou desapontado com essa proclamação – nós continuaremos ao lado dos imigrantes e vamos trabalhar para expandir as oportunidades para todos”, escreveu Pinchai em seu Twitter, poucas horas após o pronunciamento de Trump.  

Pinchai tem mesmo do que se queixar: as empresas de tecnologia são as que mais exploram o H1B. Em 2019, o Google contava com 8,5 mil profissionais com esse visto, enquanto a Apple tinha 3,1 mil e o Facebook 1,7 mil. 

Educação a (muita) distância

O mau-humor de Trump com os imigrantes não se restringe apenas aos trabalhadores. Há poucos dias, o republicano decretou que todos os estudantes estrangeiros voltem aos seus países de origem se as aulas dos cursos em que estão matriculados não voltarem ao modelo presencial. Desde março de 2020 as instituições de ensino mudaram para as aulas online por conta da pandemia. 

Dados do International Student Enrollment Statistics apontam que pouco mais de 1 milhão de alunos estrangeiros buscavam educação nos Estados Unidos em 2019, o que corresponde a 5,5% do corpo estudantil nacional. Juntos, eles movimentam quase US$ 50 bilhões ao ano na economia americana porque pagam mais caro para ter acesso aos cursos locais. 

Essa decisão tão cara ao país tem um único intuito: “obrigar” que as instituições de ensino retomem as aulas presenciais no outono do hemisfério norte. Sabendo que boa parte das universidades americanas não pode correr o risco de perder o “investimento” estrangeiro, a estratégia de Trump poderia funcionar. Como o próprio presidente escreveu em seu Twitter, em 6 de julho, “as escolas têm que abrir no outono!”. 

Para driblar a sanção considerada absurda por muitas escolas, visto que o número de casos do novo coronavírus não estão diminuindo em território nacional, algumas instituições criaram uma brecha: oferecer uma matéria genérica, que vale um único crédito, presencialmente. Apenas para estudantes internacionais. 

Alguns jornais indicam que Columbia, a Universidade de Nova York e a Universidade da Califórnia Berkeley adeririam a essa estratégia, mas não há nenhuma declaração oficial em seus respectivos sites.  

Outras instituições, como a Harvard e o MIT optaram por uma via judicial. As universidades estão processando a gestão de Trump, argumentando que essa decisão coloca os estudantes em risco. 

“Essa ordem foi baixada sem nenhum tipo de aviso, e sua crueldade só é ultrapassada pela irresponsabilidade”, escreveu Larry Bacow, reitor da Harvard, em carta à imprensa. 

O estado da Califórnia também vai acionar judicialmente a Casa Branca. O advogado geral da região, Xavier Becerra, alega que esse decreto faz das escolas e universidades focos da pandemia e também cita irresponsabilidade por parte do governo.

Maior escritório de advocacia pro bono do mundo, o Public Counsel também entrou para a briga, e protocolou mais um processo contra Trump, mas dessa vez em nome de sete estudantes internacionais na Califórnia. 

“A ação busca uma medida cautelar para que os alunos estrangeiros possam continuar seus estudos, mantendo as melhores práticas no que diz respeito à saúde pública”, respondeu a agência ao NeoFeed

Como respostas aos ataques, Donald Trump disse que as universidades estariam “doutrinando” seus alunos, e ameaçou reavaliar a isenção de impostos concedida às instituições de ensino. A briga, ao que parece, vai longe.

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