Negócios

Menos maduro, o mercado brasileiro de tecnologia ainda não surfa na onda digital da Covid-19

Com modelos de negócio ainda muito ligados ao mundo offline, as empresas brasileiras do setor listadas em bolsa ainda penam para recuperar o valor de mercado que tinham antes da crise. É o que aponta um estudo do Itaú BBA revelado com exclusividade pelo NeoFeed

 

Sob um mapa global de lockdowns e bloqueios, muitas empresas de tecnologia já estão se beneficiando da onda digital gerada pela Covid-19. O mercado americano de capitais é um bom termômetro dessa corrente. De gigantes como Amazon e Microsoft, a startups como a Zoom, não são poucas as companhias listadas do país a sinalizar que sairão mais fortes e valorizadas no pós-crise.

Esse cenário, no entanto, não vem se refletindo com a mesma intensidade no Brasil. Ao menos até o momento. As poucas empresas puramente de tecnologia com ações negociadas na B3 ainda penam para recuperar o valor de mercado que detinham antes da pandemia.

“As empresas de tecnologia no Brasil ainda dependem muito dos negócios offline”, diz Enrico Trotta, analista de tecnologia do Itaú BBA. “Não temos uma empresa no País como a Netflix ou a Zoom, que estão sendo umas das grandes vencedoras nessa tendência de stay-at-home economy.”

O desempenho das companhias brasileiras do setor é um dos temas abordados na primeira edição do estudo “The Covid-19 Series”. Desenvolvido pelo Itaú BBA e adiantado, com exclusividade, ao NeoFeed, o relatório traça os reflexos da pandemia no mercado local de tecnologia.

A Linx, por exemplo, ilustra bem o cenário descrito pelo analista. Com seus negócios atrelados ao varejo, a companhia viu suas ações caírem 32% desde o início da crise, no fim de fevereiro.

A Totvs, outra companhia brasileira de software, também reforça esse contexto mais difícil. As ações da empresa acumulam uma desvalorização de 22% desde que o vírus iniciou sua escalada no País.

Mesmo os ativos de outros setores com forte pegada digital ainda não colheram muitos frutos nesse cenário. É o caso do Magazine Luiza, constantemente associado muito mais à tecnologia do que ao varejo. As ações da empresa recuaram mais de 8% desde que a chegada do coronavírus.

“Empresas como Magazine Luiza e Mercado Livre vêm reagindo e estão mais bem posicionados se comparados a outros nomes do varejo”, observa Trotta. “Mas ainda estão longe de ser uma Amazon. O Brasil ainda tem poucas referências e é natural que essa recuperação seja mais lenta.”

“O Brasil ainda tem poucas referências em tecnologia e é natural que essa recuperação seja mais lenta”, Enrico Trotta, analista de tecnologia do Itaú BBA

Para o analista, o fato de o mercado brasileiro ser menos maduro não é, porém, a única explicação para a disparidade entre a performance das empresas locais e seus pares americanos. “O Brasil também está vivendo uma instabilidade política e tem um aspecto fiscal muito mais frágil”, diz. “Isso afeta muito a perspectiva do investidor.”

Nesse contexto, ele cita, no entanto, dois contrapontos além do Magazine Luiza e do Mercado Livre: a Locaweb e a Arco, edtech brasileira listada na Nasdaq. Com ofertas de computação em nuvem no portfólio, a Locaweb acumula uma valorização de 37% desde que abriu capital na B3, no início de fevereiro. Já os papéis da Arco têm alta de mais de 15% no ano.

Além da Bolsa

No plano dos negócios não listados em Bolsa, o estudo ressalta algumas empresas que estão se beneficiando das políticas de isolamento impostas a partir da pandemia. O número de downloads do aplicativo da colombiana Rappi, por exemplo, cresceu 26% no período. Já o volume de usuários diários do iFood avançou 5%.

“Isso traz mais recorrência”, diz Trotta. “Mas a Rappi tem se beneficiado mais pelo fato de seu modelo abrigar também as entregas de supermercado, que têm crescido mais do que o delivery de comida”, observa.

Ele cita ainda startups como a In Loco e a Hi Technologies como empresas que estão sabendo usar esse momento para ampliarem seu alcance. A primeira criou um índice de monitoramento do isolamento social, a partir de dados de dispositivos móveis. A ferramenta já está sendo usada por alguns estados e municípios.

Já a Hi Technologies, startup curitibana de exames clínicos digitais, desenvolveu um teste de Covid-19 cujo resultado fica pronto em 15 minutos.

Rappi, iFood, In Loco e Hi Technlogies são algumas das startups que estão conseguindo se destacar em meio à crise da Covid-19

“Porém, mesmo no plano das startups, os negócios no Brasil ainda dependem muito do físico”, diz Trotta. “E com essa crise, grande parte das receitas foi zerada.” Nessa frente, ele ressalta, no entanto, algumas empresas que estão agindo rapidamente para adaptarem seus modelos de negócio.

Esse é o caso da Gympass, startup unicórnio investida do Softbank e cujo modelo funciona como uma espécie de Netflix das academias de ginástica. “Eles não tinham um modelo de aula online bem desenvolvido e estão conseguindo evoluir nessa frente a partir desse momento”, diz Trotta.

Venture capital

O relatório traz ainda perspectivas sobre os impactos do coronavírus no mercado de venture capital, a partir de interações realizadas com alguns dos principais fundos atuantes no País, como Valor Capital, Monashees, Kaszek Ventures e Softbank.

Entre os efeitos da crise estão o menor apetite ao risco, o foco em startups geradoras de caixa e a redução dos aportes, ao menos no curto prazo. “Boa parte das empresas investidas por esses fundos captou recursos nos últimos doze meses e o principal lema agora é preservar caixa”, diz Trotta.

Segundo o analista, os fundos têm destacado, porém, um ponto positivo na crise. “De certa forma, a crise elimina muitas pessoas que não eram empreendedores de fato e que, até então, só estavam se aproveitando da liquidez do mercado.”

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