Muito além do Primo Rico: a milionária máquina de negócios de Thiago Nigro

O influencer digital está construindo um ecossistema de negócios no entorno da sua marca, reunido sob o Grupo Primo, que faturou R$ 130 milhões em 2021. E prepara uma plataforma de capacitação em tecnologia e outra de produtos financeiros

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Thiago Nigro, fundador e CEO do Grupo Primo

Poucas pessoas circulam na laje de 1,3 mil metros quadrados instalada no prédio da Avenida Copacabana, 495, em Alphaville, em Barueri (SP). Muito em breve, porém, o vaivém no local, que abriga, entre outros espaços, quatro estúdios profissionais, promete ser intenso.

A nova sede do Grupo Primo simboliza que o antigo escritório ficou pequeno para o negócio criado por Thiago Nigro. Foi com a alcunha de Primo Rico que ele lançou, em 2016, seu canal no YouTube e se tornou um dos pioneiros entre os influencers digitais no mundo das finanças e dos investimentos.

De lá para cá, Nigro foi além do “personagem”, dos likes e dos 5,5 milhões de inscritos no canal. A partir dessa audiência, ele construiu um ecossistema de marcas, cujo valuation é estimado no mercado em R$ 1 bilhão. E que vai dividir espaço com novas plataformas e produtos de investimentos.

“Muitas pessoas acham que o grupo é o Thiago. Em 2022, eu vou fazer 12% da receita do grupo. E, no ano que vem, a expectativa é que essa fatia seja de 6%”, diz Nigro, 31 anos, fundador e CEO do Grupo Primo, ao NeoFeed. “Hoje, nossa operação não depende da minha imagem.”

Essa mudança começou a tomar forma no fim de 2019. Desde então, o grupo trouxe outros influenciadores, como Joel Jota e Bruno Perini, ao seu guarda-chuva. E se tornou sócio de operações como o canal Jovens de Negócios, e da Spiti, casa de análises de investimentos.

Hoje, suas quase 20 marcas têm mais de 11 milhões de seguidores no Instagram e 7,6 milhões de inscritos no YouTube. Com produções como Primocast e Os Sócios, a empresa figura no topo da relação local dos podcasts de finanças e negócios mais ouvidos no Spotify.

A empresa investiu ainda na criação de plataformas de conteúdo via streaming, baseadas em assinaturas mensais. Dessa lavra, em 2021, vieram a Finclass, centrada em finanças e em aulas de nomes como Howard Marks, da Oaktree Capital, e Guilherme Benchimol, da XP, e a Staage, focada em marketing.

Com esses projetos, a equipe foi de 10 pessoas, no fim de 2019, para 240 funcionários, quando o grupo faturou R$ 130 milhões. Neste ano, a previsão é chegar a 400 profissionais, boa parte deles em tecnologia.

“Nós tínhamos zero cliente no começo de 2021. E fechamos o ano com mais de 200 mil clientes únicos”, conta Nigro. “Agora, até o próximo ano, o objetivo é quase triplicar o nosso faturamento.”

Uma das apostas é uma nova plataforma de assinaturas, em streaming, que será lançada no segundo trimestre, sob a marca Staart.

De olho no déficit histórico de desenvolvedores no mercado brasileiro, a Staart vai reunir conteúdos e formações voltadas a esse segmento, com aulas gravadas e ao vivo de grandes nomes – não revelados – do mercado global e local de tecnologia.

“O brasileiro fala português, alguns falam inglês, mas quase ninguém fala as linguagens de programação”, diz Nigro. “E você tem o novo mundo, com conceitos como blockchain, onde esse profissional é ainda mais escasso.”

Um dos espaços da nova sede do Grupo Primo, em Alphaville (Barueri)

Essa tese tem atraído empresas com diferentes abordagens e portes. Da edtech Trybe, que captou R$ 145 milhões, em outubro do ano passado, a players como o BTG Pactual, que prepara o lançamento do Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli).

“É como as corretoras brigando com os grandes bancos lá atrás”, diz Nigro. “Ninguém conseguiu ainda fazer isso de forma massificada. E nós temos um know how de produção e de construção de audiência orgânica que nem todos têm.”

A Staart vai concentrar um investimento de mais de R$ 25 milhões nos próximos dois anos. E não é a única novidade em conteúdo. Em podcasts, por exemplo, o grupo planeja lançar mais 10 produções no decorrer do ano.

Investimentos no radar

A entrada do grupo em produtos e serviços financeiros é mais uma novidade na esteira de lançamentos que Nigro tem na manga. Essa estreia se dará com uma plataforma de investimentos, em fase inicial de definição da prateleira de produtos e ainda sem uma data oficial para chegar ao mercado.

“Nosso plano não é brigar diretamente com fintechs e corretoras, e sim ser um complemento da nossa comunidade”, explica ele. “Estamos preenchendo esse ecossistema com diversas opções para que o usuário escolha o que faz mais sentido para ele.”

Para Alexandre Ripamonte, professor de finanças da Escola Superior de Propaganda e Marketing da ESPM, os passos recentes reforçam essa orientação. “Eles já vendem os cursos que trazem o usuário para dentro. E agora estão fechando todas as pontas”, diz.

Para rechaçar eventuais críticas relacionadas a conflitos de interesse, Nigro diz que a plataforma terá uma estrutura apartada. E revela que o Grupo Primo já tem uma aquisição de uma fintech em fase de assinatura de contrato para acelerar o lançamento dessa oferta.

Com um segundo acordo no forno, as aquisições seguem em pauta. “Qualquer M&A vai passar por três camadas: audiência; educação e assinatura; e ambiente transacional”, ressalta Nigro. “E pelas verticais de finanças, marketing e tecnologia.”

Desde março de 2021, quando se tornou sócio da Bossanova Investimentos, a empresa tem mais um braço para mapear esses ativos. Com esse movimento, o Grupo Primo tem acesso a startups que já passaram por due dilligence e trâmites burocráticos.

“É um aquário de empresas que já passaram por esse filtro para avaliar o que encaixa na nossa tese”, diz. O Grupo Primo já investiu em mais de 20 startups. Entre elas, a TopInvest, escola de certificações do mercado financeiro, e a Paradigma Education, de conteúdo em áreas como NFTs e criptomoedas.

A empresa também vem conversando com fundos globais e brasileiros de venture capital e private equity. E uma rodada deve ser anunciada em breve. “Estamos buscando algo próximo de uma rodada série B”, diz ele, que não descarta, no futuro, um IPO. Hoje, o grupo já tem a XP entre seus sócios.

A nova sede da empresa também terá o “Bar do Primo”

A XP é personagem em outra passagem na trajetória de self made man de Nigro. Esse roteiro teve início quando ele ganhou R$ 5 mil dos pais como presente de 18 anos. E perdeu toda a bolada, uma semana depois, por falta de conhecimento, ao investir no mercado de capitais.

Nigro não se deu por vencido. Passou a estudar o mercado e começou a trabalhar como assessor de investimentos. No primeiro ano, sua renda média mensal era de R$ 232. Para se manter, foi obrigado a vender o Peugeot que também havia ganho dos pais no aniversário, envolto em um laço vermelho.

Disposto a pagar o preço, com o tempo, ele conseguiu abrir seu escritório, associado à XP. Em 2017, vendeu a operação e conquistou, em suas palavras, o que buscava desde o início: sua liberdade financeira.

Essa foi a senha para que ele se concentrasse em seu canal no YouTube. “Foi muito difícil no começo. Eu era alvo de piada em todos os cantos”, conta. Na época, havia apenas 500 mil investidores pessoa física na B3. Hoje, são 4,2 milhões, dos quais, 1,5 milhão engrossaram essa estatística em 2021.

Uma pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) mostra que esse salto foi acompanhado pelo número de influenciadores digitais na área de investimentos.

Segundo o estudo, hoje são 266 influenciadores na área, que falam para um público de 74 milhões de seguidores. Dentro desse universo, outros nomes também estão ampliando seus horizontes.

É o caso de Nathalia Arcuri, outra pioneira nessa vertente. Ela criou o blog Me Poupe, em 2015, e hoje é CEO da empresa de mesmo nome, dona de conteúdos que, além das redes sociais, já alcançaram o rádio e a TV.

Lucas Poveda é mais um exemplo. Depois de criar o canal Pit Money, em 2018, ele fundou a Inside, uma casa de análise. Outro nome é o TC, que tem origem no fórum sobre investimentos TradersClub e abriu capital em 2021. Desde então, o grupo vem fazendo aquisições para ampliar seu campo de atuação.

“O caminho de muitos deles é o mesmo que a XP percorreu”, diz Ripamonte, da ESPM. “Com o alcance que eles têm, faz todo sentido. O único risco é perder o foco ao tentar ser tudo.”

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