No xadrez econômico, os M&As explodem no mercado brasileiro

Em 2021, as fusões e aquisições já movimentam o maior valor desde 2012 e têm sido um negócio cada vez mais relevante para o ecossistema que o cerca – como bancos de investimento, boutiques e escritórios de advocacia

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O ano de 2021 ainda nem terminou e o mercado brasileiro de fusões e aquisições já supera, com folga, o que foi realizado em 2020. Até setembro, as empresas haviam anunciado ou fechado 1.617 negócios, que acumulam R$ 376,2 bilhões em transações, expansão de 64% em relação ao que foi registrado em todo o ano passado e no maior valor desde 2012, quando a consultoria Transactional Track Record (TTR) começou a publicar dados do Brasil.

À primeira vista, parecem acordos que beneficiam somente as duas companhias que estão ali para apertar as mãos. Mas, por trás delas, há todo um ecossistema que também sai ganhando – em especial os bancos e boutiques de investimentos, que assessoram a parte financeira das transações e ganham uma taxa em cima dos valores.

Maior banco de investimentos da América Latina, o BTG Pactual é um dos que mais tem surfado nessa onda. A instituição participou de 53 operações de M&As no acumulado de 2021, mais que o dobro das 22 realizadas no ano passado, segundo levantamento da Bloomberg.

Em valores, o salto é ainda mais expressivo, de US$ 1,06 bilhão para US$ 27,9 bilhões, que levaram o BTG a sair da 11ª posição para o topo do ranking dos bancos que mais assessoram fusões e aquisições no Brasil. O J.P. Morgan e o Itaú BBA fecham o pódio, com US$ 20,1 bilhões e US$ 18,6 bilhões em transações anunciadas, respectivamente.

Parte do “boom” vivido pelo mercado está relacionado à pandemia. No início de 2020, antes da chegada do novo coronavírus, os bancos estavam otimistas com as transações que se desenhavam. O vírus, porém, paralisou tudo, com compradores e vendedores tomados pela incerteza.

Em maio do ano passado, após o susto inicial, a Bolsa já ensaiava uma retomada, mas as fusões e aquisições só voltariam a ganhar tração no segundo semestre, em um embalo que ganhou força em 2021. “Havia uma demanda que estava reprimida”, afirma Bruno Amaral, sócio do BTG Pactual e responsável pela área de M&As, ao NeoFeed.

Além disso, o mercado contou com um empurrão dos governos pelo mundo, que injetaram liquidez na economia para amenizar os efeitos da crise, por meio de juros mais baixos e programas de apoio às companhias. No Brasil, por exemplo, a taxa básica de juros chegou ao menor nível da história, a 2% ao ano. “As empresas ficaram com muito caixa disponível muito rápido”, ressalta Amaral.

O cenário mais favorável ajudou o BTG a impulsionar o faturamento do negócio de banco de investimento, que saltou de R$ 410 milhões no primeiro semestre de 2020 para R$ 1,16 bilhão na primeira metade deste ano – expansão de 185%, a maior entre todas as áreas da instituição, superando inclusive a receita com crédito, que cresceu 113%.

Historicamente, segundo Amaral, as fusões e aquisições representam um terço da área de banco de investimentos do BTG. No primeiro semestre, foram 28 transações anunciadas de M&As, contra oito na primeira metade de 2020.

Os outros dois terços são ocupados pelas emissões de dívidas e por mercado de capitais – que inclui as ofertas de ações e também cresceu em 2021, com 39 operações no primeiro semestre, ante 11 em igual período de 2020.

Os bancos não revelam quanto cobram em cada operação, mas as taxas, em geral, seguem o padrão internacional. Quanto maior o valor da transação, menor o repasse à instituição. Segundo informações de mercado, em uma aquisição de US$ 100 milhões, por exemplo, a taxa varia de 2% a 2,5%. Se o valor vai subindo, a taxa pode ir a menos de 1%.

Um ano e meio depois de a pandemia desembarcar no Brasil, a demanda reprimida que resultou do susto inicial já ficou para trás, mas o mercado de fusões e aquisições permanece em alta. “O negócio de M&As mudou de patamar”, afirma, ao NeoFeed, Jairo Loureiro, diretor-executivo e um dos fundadores do BR Partners, que participou de 16 operações em 2021, em transações de US$ 13,6 bilhões.

A onda de IPOs que ocorreu nos últimos dois anos, ressalta Loureiro, do BR Partners, tem contribuído para uma demanda mais persistente por M&As

A onda de IPOs que ocorreu nos últimos dois anos, ressalta Loureiro, tem contribuído para uma demanda mais persistente por M&As. Não só porque as empresas levantaram recursos e estão com dinheiro no bolso para fazer compras, mas também porque há uma pressão para que as novatas da Bolsa mostrem resultado aos acionistas.

“O investidor é implacável. Se o negócio não está performando, ele não fica sentado na ação. E o M&A é um instrumento muito eficiente para que a gestão promova uma expansão rápida”, diz Loureiro.

A Infracommerce, empresa que atua no chamado full commerce, com a oferta de serviços para companhias de e-commerce que vão desde uma plataforma de pagamentos até a logística de entrega ao consumidor final, é uma das empresas que usaram a captação do IPO para crescer de forma inorgânica.

“Antes do IPO, já sabíamos que iríamos usar 75% dos recursos para aquisições”, diz, ao NeoFeed, Raffael Quintas, CFO da empresa, que levantou R$ 902 milhões na abertura de capital realizada em maio deste ano.

Desde a oferta de ações, foram três aquisições, a da argentina Summa Solutions, que desenvolve e-commerce para outras empresas, por US$ 9 milhões, e de duas concorrentes diretas, a Tatix, por R$ 124 milhões, e a Synapcom, por R$ 1,2 bilhão. “Estamos acelerando um crescimento que só teríamos em dois ou três anos”, diz o executivo, que estima que sua base de clientes saltou de 60 para 300 em menos de um ano.

Após o apetite das primeiras aquisições, Quintas reconhece que é natural que a empresa faça uma pausa. Mas seguirá de olho em oportunidades. Se a primeira leva de compras ajudou a multiplicar o tamanho da companhia, a próxima deve focar em negócios que agreguem em tecnologia. “Vamos buscar empresas que complementem nossa oferta de soluções, principalmente para atender à ‘omnicanalidade’ que se exige no e-commerce”.

“Antes do IPO, já sabíamos que iríamos usar 75% dos recursos para aquisições”, diz Raffael Quintas, CFO da Infracommerce

Movimentos como a da Infracommerce, de abocanhar rivais para se consolidar, têm sido frequentes em 2021. O setor de saúde é um dos que mais se destacam nesse sentido, com 98 transações neste ano, segundo a consultoria Ondina Investimentos. As empresas que demonstram mais apetite são a Hapvida, que espera aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para se juntar à NotreDame, a Rede D’Or e a Kora Saúde.

O segmento mais que movimentou o mercado de M&As, porém, foi o de tecnologia. Segundo a TTR, são 640 transações até setembro deste ano, alta de 83% em relação a igual período de 2020. Uma das mais ativas é a Locaweb, que tem se mostrado uma verdadeira máquina de aquisições desde o IPO, em fevereiro de 2020. A compra mais recente foi a da Squid, que conecta empresas a influenciadores, por R$ 176,5 milhões, no início de outubro.

Com um ambiente econômico mais desafiador pela frente, os executivos ouvidos pelo NeoFeed admitem que talvez o mercado de M&As não consiga manter o mesmo ritmo de expansão em 2022, mas deve seguir fazendo barulho, especialmente porque a volatilidade da Bolsa abre mais espaço para fusões e aquisições.

“Em um cenário menos favorável aos IPOs, o M&A vira uma alternativa para as empresas se capitalizarem”, diz o head de Investment Banking da XP, Pedro Mesquita, ao NeoFeed. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Hortifruti Natural da Terra, que chegou a pedir o registro para um IPO em abril, mas acabou sendo vendida para a Americanas, por R$ 2,1 bilhões, em agosto.

A XP, que entrou em 2021 no ramo de banco de investimentos, assessorou 18 transações até setembro, segundo o levantamento da Bloomberg. Nas contas de Mesquita, mais 10 operações devem ser anunciadas no restante do ano. A expectativa da XP é terminar o ano com R$ 300 milhões em receita com o novo negócio.

Pedro Mesquita, head de Investment Banking da XP

Além disso, aquelas que entraram na onda de IPOs recentes e não caíram no gosto do investidor podem ser incorporadas por concorrentes que estão tendo um desempenho melhor.

“Há várias empresas que abriram capital nos últimos 12 meses e estão sendo negociadas quase pela metade. Embora estejam capitalizadas, elas estão muito mais próximas de ser um alvo do que virar um comprador”, diz, ao NeoFeed, Diogo Aragão, diretor do Bank of America, um dos bancos estrangeiros que atuam com M&As no Brasil, com seis transações em 2021, de US$ 5,4 bilhões.

Um exemplo que já aconteceu desse cenário é a Mosaico, dono dos sites de comparação de preços Buscapé, Zoom e Bondfaro, que foi comprado pelo Banco Pan, em uma transação na qual a companhia que havia se tornado pública em fevereiro desse ano pode ter, no fim do negócio, até 9,2% da instituição financeira controlada pelo BTG Pactual.

As fusões e aquisições também estão aquecidas para as empresas de médio porte, com faturamento anual entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões. Em agosto, por exemplo, a Loft, plataforma de compra e venda de imóveis, adquiriu a Credihome, fintech de crédito imobiliário, em valor não revelado.

Guilherme Stuart, sócio-fundador da RGS Partners

A RGS Partners, boutique que assessorou a operação e é especializada em negócios envolvendo companhias de médio porte, precisou triplicar o tamanho da equipe para poder dar conta do aumento da demanda em 2021, de 12 para 36 profissionais.

“Antes, há três ou quatro anos, o empresário de médio porte tinha dificuldade para achar um comprador. Era raro aparecer mais de um candidato”, conta, ao NeoFeed, Guilherme Stuart, sócio-fundador da RGS. “Agora, com mais liquidez no mercado, há mais compradores dispostos a tomar o risco, porque sabem que, lá na frente, se precisar, conseguirão vender”.

O escritório de advocacia TozziniFreire, que participou de cerca de 50 operações em 2021, também ampliou o time. Neste ano, a área empresarial trouxe mais quatro sócios para ficarem dedicados a fusões e aquisições e mais um para o setor de infraestrutura, que também está aquecido para M&As. “Mesmo com o ambiente macroeconômico mais difícil, não vimos nenhuma operação parar”, diz a advogada Marcela Ejnisman, sócia de M&As do escritório, ao NeoFeed.

“Mesmo com o ambiente macroeconômico mais difícil, não vimos nenhuma operação parar”, diz a advogada Marcela Ejnisman, sócia de M&As do escritório TozziniFreire

Independentemente do porte das companhias envolvidas, é esperado que o ano de 2022, com a já antecipada turbulência eleitoral e a desaceleração da economia, seja de preços mais atrativos para quem está com dinheiro no bolso, especialmente se o comprador for um investidor estrangeiro.

“O dólar a R$ 5,70 traz ótimas oportunidades para o capital externo, principalmente para quem conhece bem o Brasil e sabe da resiliência do País”, afirma Pedro Quintão, head de M&As do Bradesco BBI, ao NeoFeed. O negócio do Bradesco acumula 32 transações em 2021, que movimentaram US$ 6 bilhões.

A eleição, porém, pode representar uma pausa para os negócios. Sócio de um dos escritórios de advocacia que mais assessoraram M&As em 2021, o Lefosse, o advogado Rodrigo Junqueira concorda que o “Brasil está barato”, mas acredita que as transações do ano que vem devem se concentrar na primeira metade do ano.

“Deve haver uma antecipação por causa do ano eleitoral”, ele diz. Em 2021, o escritório acumula 43 operações, que somam R$ 81,1 bilhões em transações.

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