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A Nasdaq é aqui? Méliuz, Wine, Housi, Enjoei e Mosaico entram na fila de IPOs no Brasil

Em um movimento raro, startups brasileiras tentam abrir o capital na B3, puxadas pelo excesso de liquidez e pelos juros baixos. Mas será que elas estão prontas para disputar o jogo com as companhias abertas?

 

A B3 tem fila de IPOs

A fila de empresas que devem abrir o capital não para de crescer. Até o momento, elas somam mais de 50 companhias de todos os setores. Mas o que chama a atenção, além da quantidade de ofertas, é que, pela primeira vez, as startups brasileiras estão tentando a sorte na bolsa de valores no Brasil.

Trate-se de um fato comum no mercado de capitais dos Estados Unidos e da China, onde as empresas iniciantes que são financiadas por fundos de venture capital recorrem à bolsa para dar saída aos seus investidores.

No Brasil, no entanto, esse é um fenômeno é raro. Na maioria das vezes, as empresas esperam ganhar porte e maturidade para tentar a sorte nos Estados Unidos, como fizeram a PagSeguro e a Stone, que abriram o capital na Bolsa de Nova York e Nasdaq, respectivamente.

Mas diante de um mercado extremamente líquido e de juros baixos, as startups resolveram participar dessa festa de IPOs, transformando a B3 numa espécie de Nasdaq à brasileira, em uma referência a bolsa eletrônica dos Estados Unidos onde as empresas de tecnologia e internet abrem o  capital.

Até o momento, cinco empresas iniciantes de base tecnológica protocolaram na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) seus prospectos de abertura de capital.

Os dois prospectos mais recentes são os da empresa de cashback e de cupons Méliuz e da operação de e-commerce de vinhos Wine. Antes deles, haviam entrado com os papéis na CVM o site de comércio eletrônico Enjoei, a plataforma de imóveis para alugar Housi e a Mosaico, dona dos sites de conteúdo para e-commerce Zoom, Buscapé e BondFaro.

“Há dois fenômenos que estão acontecendo simultaneamente. O primeiro deles são os juros baixos”, diz Marcelo Coutinho, coordenador do mestrado profissional em administração da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo. “O outro é que a qualidade das startups brasileiras melhorou.”

Essas startups vão testar o humor dos investidores brasileiros por empresas de tecnologia e de internet. Em geral, elas são companhias com alto potencial de crescimento, mas que ainda têm receitas baixas. Mas, no caso das startups brasileiras que estão se aventurando a buscar recursos na bolsa, a maioria delas é lucrativa.

“A abertura de capital sempre foi uma forma de as companhias mais maduras acessarem capital”, afirma Renato Mendes, professor de empreendedorismo e marketing digital no Insper e colunista do NeoFeed. “Mas esses movimentos mostram que o IPO deixou de ser um bicho papão. Ele começa a ser considerado por empresas de um nível de maturidade muito menor.”

Israel Salmen, fundador da Méliuz

A Méliuz, que tem entre seus investidores o fundo de venture capital brasileiro Monashees e os americanos Lumia Capital e a Endeavor Catalyst, por exemplo, obteve uma receita bruta de serviços de R$ 90,5 milhões em 2019. No período, o lucro foi de R$ 15 milhões. Nos primeiros seis meses deste ano, a receita chegou a R$ 62,2 milhões e o lucro atingiu R$ 12,7 milhões.

Já a Wine, por sua vez, faturou R$ 252,7 milhões em 2019 e R$ 146,3 milhões nos seis primeiros meses deste ano. O lucro bruto somou R$ 120,9 milhões no ano passado e R$ 70 milhões no primeiro semestre de 2020. Os principais investidores são a Península, do empresário Abilio Diniz, e a EB Capital.

A Housi, criada pela incorporadora Vitacon, do empresário Alexandre Lafer Frankel, teve receita de R$ 3,2 milhões no primeiro semestre O investidor é a Repoint eventures, dona de uma fatia minoritária da empresa.

A Mosaico teve receita líquida de R$ 114 milhões e um Ebitda de R$ 57 milhões. O plano é usar parte dos recursos que pretende levantar no IPO para pagar uma dívida com o BTG Pactual, feita para adquirir o Buscapé, em maio de 2019.

Mas nem todas as empresas de internet que estão tentando a sorte no mercado de capitais são lucrativas. É o caso da Enjoei, que obteve uma receita de R$ 37 milhões e prejuízo de R$ 4,6 milhões nos primeiros seis meses deste ano. A Monashees é uma dos investidoras do site, considerado um brechó online em que pessoas físicas vendem para pessoas físicas.

“A demanda é puxada por dois motivos diferentes. Um é a busca por liquidez de investidores anjos e fundos de venture capital que tomaram risco e estão na fase de colheita dos resultados, assim como os funcionários de startups e os fundadores”, afirma Bruno Yoshimura, sócio do fundo ONEVC. “A outra é composta pela opção de captação de recursos a um preço mais barato do que anteriormente.”

As ofertas listadas na B3 são primárias e secundárias. Isso significa que uma parte dos recursos vai para investimentos das startups e a outra para investidores e fundadores. Os prospectos não deixam claro quais investidores devem deixar a empresa ou reduzir suas participações nas startups. O volume a ser captado também vai depender da recepção das ofertas pelos investidores. Mas as pretensões não são pequenas.

Segundo um banqueiro de investimento com o qual o NeoFeed conversou, a Housi acredita que sua oferta pode superar a casa do bilhão de reais. Pode parecer muito para empresa cuja receita soma pouco mais de R$ 3 milhões no primeiro semestre. Mas a startup da Vitacon atua no setor de real estate e conta com mais de 11 mil imóveis para administrar entre aqueles que já estão em operação e os que estão em desenvolvimento.

A Housi conta com mais de 11 mil imóveis para administrar

A Wine também tem planos de captar R$ 1 bilhão, de acordo com informações que circularam sobre a sua oferta. No caso da Méliuz, o mercado estima em um volume na casa dos R$ 650 milhões. A Enjoei também quer captar entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões. A Mosaico pode levantar mais de R$ 300 milhões líquidos em sua oferta primária.

Caso consigam levar adiante suas ofertas, a bolsa brasileira vai ganhar de uma só vez diversas empresas de tecnologia, um dos setores mais quentes no mundo e que se beneficiou da pandemia do coronavírus.

Hoje, as cinco maiores empresas em valor de mercado das bolsas americanas são de tecnologia: a Apple, que superou os US$ 2 trilhões em valor de mercado, seguida Amazon, Microsoft, Alphabet (Google) e Facebook.

O setor, no entanto, tem ainda baixa representatividade na bolsa brasileira. No Brasil, os caso de companhias abertas compreendem Totvs, Linx e Sinqia, que atuam com software de gestão.

Mas, recentemente, a abertura de capital da Locaweb chamou a atenção do mercado. Desde fevereiro deste ano, suas ações sobem mais de 200%. A companhia soube surfar a demanda explosiva por soluções de comércio eletrônico por conta de pequenos varejistas que tiveram que fechar as portas de seus comércios por conta da pandemia da Covid-19.

“A oferta da Locaweb foi um marco de uma tendência de as empresas brasileiras de tecnologia fazerem IPOs menores no Brasil, em vez de esperarem mais para irem para Nasdaq ou Nyse”, afirma Yoshimura, da ONEVC.

O movimento brasileiro é semelhante ao que está acontecendo lá fora, onde também existe uma fila grande de ofertas de empresas de tecnologia – o diferente é que lá isso é comum.

“Algumas aberturas de capital extremamente aguardadas estão prestes a sair, como o Airbnb e a Palantir”, diz Daniel Ibri, sócio do fundo Mindset Ventures, que investe em startups nos Estados Unidos e em Israel.

De acordo com Ibri, a pandemia fez todo mundo experimentar os serviços de tecnologia e de internet. E isso mudou a cabeça das pessoas. “Todo mundo entendeu o papel da tecnologia”, afirma o investidor. “É um movimento análogo ao que estamos vendo no Brasil.”

Em entrevista ao NeoFeed, Paulo Veras, cofundador do aplicativo de transporte 99, o primeiro unicórnio brasileiro, comentou sobre esse fenômeno na qual as empresas de internet e de tecnologia começam a ganhar destaque.

“O Mercado Livre virou a maior empresa da América Latina em valuation. Mas, nos EUA, se você pegar as dez maiores empresas do mundo, sete ou oito são de tecnologia”, disse Veras. “Eu tenho convicção que a mesma coisa vai acontecer no Brasil. Você vai ter caras que vão botar de pé negócios grandes, mas lucrativos e sustentáveis. Estou superconfiante de que esse vai ser o cenário.”

Veras, que acaba de escrever um livro contando a história da 99, é testemunha da evolução do ecossistema brasileiro de empreendedorismo. Depois da 99, surgiram dezenas de startups bilionárias. A lista é extensa e inclui a Movile, iFood, Gympass, Loggi, Nubank, QuintoAndar, Ebanx e Wildlife Studios.

“A abertura de capital dessas empresas, se isso se consolidar, muda o paradigma do ecossistema brasileiro”, afirma Ibri.

Em sua opinião, o mercado de venture capital brasileiro se aqueceu a partir de 2018, com a chegada de diversos fundos, como o Softbank. Isso permitiu a criação de diversos unicórnios. As empresas tradicionais também começaram a comprar startups, como o caso do Magazine Luiza. “A abertura de capital era o paradigma que faltava”, diz Ibri.

Mas há riscos nesse movimento. O principal deles é o de essas startups não conseguirem entregar resultados e frustrarem os investidores. Como diz uma fonte com quem o NeoFeed conversou e que viveu a bolha da internet nos anos 2000, em que muitas empresas pontocom foram à bolsa nos Estados Unidos e depois quebraram.

“Até agora, essas startups estavam jogando o campeonato da série B. Ao subir para séria A, não quer dizer que vão chegar na nova divisão arrasando”, diz ele. “Os níveis de exigência e de cobrança vão aumentar.”

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